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Protegido: Somos Heróis

setembro 2nd, 2013 | Por Fábio Yabu sob Sem Categoria - (Comentários desativados)

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Perdeu a primeira parte? Leia AQUI!

Artistas desta edição:

Michel Borges – Desenhos
José Carlos Silva – Cores

(mais…)

As pessoas têm uma noção fantasiosa da verdadeira natureza das ideias. Graças a essa noção, diariamente sonhos morrem e vidas se perdem. Este texto é a minha tentativa desesperada em ajudar aspirantes a escritores, desenhistas e artistas em geral. Poderia ser resumido à próxima frase, mas embora eu ache que só atrapalhe, vou tentar decupar um pouco seu conteúdo nos parágrafos seguintes. Se você não tiver 5 minutos para ler todo o resto, memorize somente isso:

UMA IDEIA É UM PROBLEMA DISFARÇADO DE SOLUÇÃO.

Se você teve uma ideia para um quadro, um livro, uma série de TV ou uma empresa de internet, você está entrando num mundo de problemas. Acredite, eu já tive todos. E assim como a maioria das pessoas, eu também já senti o entusiasmo contagiante que uma nova ideia traz, aquela vontade de sair falando, de mostrar pra mãe, arrastar meio mundo, registrar domínio, fazer um novo cartão de visita e jogar tudo para o alto. E já senti aquela mesma energia se esvair de mim como uma ressaca, esperando a euforia da próxima ideia, muitas vezes com uma certa depressão.

Não cabem adjetivos numa ideia, simplesmente por não existir ideia boa ou ruim. Ter uma ideia é como fazer a matrícula numa academia. É algo totalmente isento de valor. Quando você se matricula, pode até pedir que alguém te acompanhe durante os treinos. Mas o ato de ir – e continuar frequentando – é algo que só você pode fazer. Não há glória, não há vitória, não há nada enquanto não houver execução, frequência e disciplina empregados diariamente.

Seguindo este mesmo raciocínio, a ideia de “copiar” uma ideia se torna paradoxal. Ideias de como de fazer um carro, um blend de café, um romance, estão aí pelo ar. São livres, gratuitas, não é proibido fazer nada disso. Então por que tão pouca gente faz, e menos gente ainda o faz direito? Porque, na minha opinião, as pessoas têm uma certa tendência a se focar nas coisas erradas. Perdem tempo demais tentando copiar algo insípido e de valor quase zero que é uma ideia, e esquecem-se totalmente do grande quebra-cabeças que é a execução.

E é nisso que a maioria dos artistas que conheço pecam. Eles acham que, imediatamente ao ter uma ideia, o mundo lhes deve algo. E pior: tentam transferir para outras pessoas o ônus da ideia. Não é assim que funciona. Se você teve a ideia para um livro, ela só será de algum valor quando você tiver terminado de escrever. Não culpe a editora por não “acreditar em você”.

Nem eu, que escrevi isso tudo só pra te ajudar, acredito até ter o seu manuscrito pronto. Se você teve uma ideia para uma história em quadrinhos, olha, boa sorte, viu. Dá um trabalho danado, saiba ou não você desenhar. Uma ideia para um filme? Ai, ai, ai. Em tempo, lendas sobre gente que teve uma ideia mirabolante de uma empresa de internet e ficou milionária da noite para o dia são tão reais quanto a noção que este texto tenta desmistificar.

Livre-se dessas fantasias. Arranje um problema. E vá criar algo incrível.

Publicado originalmente no Brainstorm#9 em setembro de 2012. 

7h59 da manhã. O ciclista atravessando a faixa de pedestres na Avenida Santo Amaro aparenta ser experiente: utiliza capacete e luvas e, no assento infantil da garupa, traz a filha de dois ou três anos vestindo um capacete rosa. Eu e minha Luna estamos na calçada a poucos metros, seguindo para uma outra escola da região.

Luna aponta para a mochila da Branca de Neve, nas costas do ciclista. “Olha, papai!”. O sinal abre. A saveiro avança, como se o pai e a filha tivessem sido banidos da existência. O ciclista inclina a bicicleta, vira-a quase 90 graus e se coloca entre a saveiro, que segue seu caminho buzinando em protesto, e um segundo carro que também avança, incólume. Um terceiro, que vem atrás, para. E a menina do capacete rosa e mochila da Branca de Neve, vive.

São Paulo é uma cidade doente. Uma cidade onde cenas como essa são corriqueiras. Onde as pessoas começam as conversas falando da “correria”. Onde se vive uma grande ilusão coletiva de auto-importância, onde o agora não basta, é tudo para ontem, todo mundo é importante e precisa resolver alguma coisa com urgência.

Estamos todos doentes. Deliramos, ao dar aos nossos problemas uma proporção maior que a vida humana. Ao acharmos que um carro é um sinal de status, mobilidade, proteção e poder – tal qual os cavaleiros medievais pensavam de seus cavalos.

Nossa prefeitura está doente. Na tentativa de educar a população sobre uma lei que é solenemente ignorada há anos, a gestão anterior levou mímicos para a mesma avenida Paulista onde duas ciclistas morreram ano passado e um acabou de perder o braço. Pensando bem, mímicos até que fariam sentido, já que nessa cidade todo mundo grita e ninguém se ouve. Mas São Paulo não faz sentido. E as pessoas continuam morrendo na Paulista.

O embate entre ciclistas e motoristas pelo espaço urbano já tem contornos de guerra. Só que ao dividir o mundo entre “nós” e “eles”, está sendo criada uma gigantesca bolha de ectoplasma esquizofrênico que traz para as nossas ruas o fundamentalismo cego cujo único propósito é servir de desculpa para o ódio. Eu já vi gente de bem, amigos meus, dizendo que “ciclista é folgado”. Amigos motoqueiros já quebraram retrovisores por aí. Sem falar, é claro, dos comentários em blogs e reportagens, verdadeiras fendas na realidade por onde o ódio pastoso, quase sólido, flui livremente. E assim seguimos, olho por olho, retrovisor por retrovisor, até que entre as estações Paraíso e Consolação reste somente uma enorme cratera fumegante.

Estamos todos doentes. Temos todos uma parcela de culpa na tragédia do domingo. Quem acha que um carro é sinal de status, quem não para na faixa de pedestres, quem não dá sinal e atravessa displicentemente, quem bebe uma cervejinha antes de dirigir, quem segue e divulga no Twitter as blitze da Lei Seca. Quem separa o mundo entre “nós” e “eles”. Nossa prefeitura, nossos governantes. Estamos cegos, surdos e loucos. O único inocente dessa história é o pobre ciclista, que só estava indo trabalhar – e nem de São Paulo era.

Em respeito a David Santos de Souza, que perdeu o braço na Avenida Paulista, os comentários estão fechados.

 

 

Scrivener: tem pra Mac e pra PC, pra mim e pra você!

Ao contrário de outras artes, como a escultura ou a pintura, a escrita não depende de ferramenta alguma – apenas a mente de seu criador. Você pode criar uma obra prima com as mãos amarradas dentro de um cativeiro escuro. Se quiser um pouco mais de sofisticação, pode usar um graveto e um chão de terra batida, ou seu próprio dedo e um espelho embaçado. Moleskines são uma modinha charmosa e besta, tem gente com menos de 30 que adora o barulhinho de máquina de escrever (hipsters!), mas a grande, a esmagadora maioria, usa o Microsoft Word.

O Word é quase uma instituição pública, é a Tim dos softwares: todo mundo reclama, sabe que é uma porcaria, que não funciona, que é dinheiro jogado no lixo, que não tem cobertura, não tem suporte decente, que é comandado por duendes e gárgulas demoníacos cuja vida é tornar a sua um inferno, sem falar no 3G, meu Deus, o 3G é uma @$#$@, mas todo mundo usa.

Meu caso de amor e ódio com o Word está mais para ódio e ódio desde os tempos do Windows 3.x, em que eu preferia escrever no imbatível Bloco de Notas ou até mesmo no Pagemaker do que dar um duplo clique na caixa de Pandora em forma de W. Desde então, tenho vez por outra dado uma nova chance ao programa, apenas para me decepcionar com os caminhos burocráticos, a lentidão causada pelos excessos (lembra do clips falante?!), a instabilidade nuclear, sem falar nos cliparts horrorosos.

Tentei usar o Pages, da Apple. É um pouco melhor, mas ainda assim, não é lá aquela maravilha. Um processador de textos não deveria ser pesado, não deveria oferecer atrito entre a ideia e a execução, e sim, ser um portal que traz para a realidade os nossos sonhos e emoções mais profundos. Chegou um ponto da minha vida em que eu estava escrevendo meus textos no Gmail (!), até a chegada do Google Docs. Que também não é nenhuma maravilha, mas pelo menos era estável e oferecia um pouco mais de recursos que o Bloco de Notas (deixado para trás com meu último PC, há sete anos). Eu simplesmente me acostumei às soluções meia-boca criadas por gente que não escreve, que não cria literatura, mas códigos, assim como me acostumei à Tim (provavelmente, criada por gente que NÃO FALA, não manda SMS, não tem 3G e adora receber spam…).

Eu já havia perdido as esperanças, até que, há mais ou menos um ano, o amigo e escritor Tomás Buteler me recomendou um programa chamado Scrivener, que tem em sua concepção uma ideia besta de tão genial: ele não é feito para a dona de casa colar receitas e salvar num lugar onde ela nunca mais vai achar. Não é feito para o estudante que copia os artigos da Wikipedia, não é feito para criar textos em 3D nem para o jornalzinho do condomínio. O Scrivener é um processador de textos feito por escritores, para escritores. Como ninguém havia pensado nisso antes?

Qualquer pessoa que tem em suas ideias e experiências a matéria prima para a produção literária, pode e DEVE usar o Scrivener. Escritores, roteiristas de cinema, teatro, HQ. Poetas, jornalistas, blogueiros. O Scrivener tem uma miríade de soluções e atalhos personalizados para cada tipo de texto que, quando incorporados mentalmente pelo usuário, se transformam numa terceira mão, tamanha a liberdade e agilidade que eles fornecem. Escrever se torna mais rápido, mais eficiente, mais gostoso.

Abaixo algumas características que tornam o Scrivener imbatível. Note que, mesmo usando o programa há algum tempo, não conheço metade de todas as suas funcionalidades.

  1. Você vê o texto como um todo. Não importa se é um post de um blog, ou um romance de 500 páginas. Seu material de pesquisa, seus rascunhos, seus capítulos, tudo fica organizadinho numa pasta para cada projeto. Quer relembrar como começa o capítulo 59 (de 120?). Você chega lá em um clique (em vez de 200 mil pagedowns no Word ou Pages).
  2. Snapshots: você pode salvar uma versão de um capítulo específico, ou do texto todo, reescrever tudo e, se não gostar, simplesmente voltar com a versão anterior. Sem precisar salvar um novo arquivo.
  3. O texto final é COMPILADO: não é o “Save as” porco do Word. Ao final do seu trabalho, o Scrivener compila as porções de texto que você quer, no formato que você quer. Quer compilar só um capítulo? Você pode fazê-lo sem traumas, direto em PDF, epub, Kindle. Até Word, veja você.
  4. Estatísticas para o seu projeto: todo escritor tem seus “cacoetes” – expressões ou palavras que ecoa ao longo do texto. E isso incomoda demais, porque tais cacoetes são virtualmente invisíveis para o escritor e acabam deixando o texto deselegante. O Scrivener cria uma relação com as palavras mais usadas, para que você perceba se está ou não repetindo velhos hábitos.
  5. Atalhos, muitos atalhos. Especialmente para quem escreve roteiro. Escreveu uma cena de ação? É provável que ela seja seguida por um diálogo, então, basta dar um TAB. Digite a primeira letra do nome do personagem, e uma lista já aparece na tela. Todo o esforço desnecessário é removido, para que você se concentre no sopro de vida de sua história.
  6. Templates para quadrinhos. Isso é realmente incrível. Com um TAB, você diz ao programa que mudou de painel numa página de quadrinhos. Ele numera tudo automaticamente, não importa quantas vezes você mexa na ordem das páginas ou quadrinhos.
  7. Arquivos minúsculos. Não existe sentido no tamanho de arquivo gerado pelo Word, ou mesmo, o Pages. O Scrivener deixa tudo compactadinho, leve para carregar rapidinho numa nuvem como um Dropbox da vida.
  8. Metas: seja do tamanho final do texto, ao número de páginas do livro impresso, ou a produção diária de páginas: defina o quanto você quer escrever, e o Scrivener te mostra o quanto você ainda tem pela frente.
  9. Preço: custa apenas US$ 45,00 – metade do Word.

Enfim, o programa oferece muito mais do que isso, e como todo bom software, ele se adapta ao usuário, não o contrário.

Melhorias

Nem tudo, porém, é perfeito. Existe espaço para melhorias, mas infinitamente mais estreito que nos outros processadores de texto. São elas:

  1. Suporte à nuvem: o programa não tem suporte nativo ao iCloud. Quem usa vários computadores, como eu, pode sentir falta de ter seu arquivo seguramente salvo numa nuvenzinha de maneira automática. Contudo, isso é facilmente contornável salvando-se o arquivo no Dropbox. Agora, por exemplo, nem mesmo a fúria de Deus seria capaz de f
  2. Versão em português: por enquanto, ainda não há versão em português, mas qualquer um com um semestre de Cultura Inglesa pode dominar o programa.

Baixe AGORA!

Enfim, nada que não vá ser melhorado nas próximas versões. Interessou? Depois de tudo isso, é claro, né? Então não perca tempo e baixe lá. A versão trial dura 30 dias de uso (e não de tempo corrido), mais do que suficiente para você se apaixonar como eu: http://www.literatureandlatte.com/

Já conhece o Scrivener? Diga lá como você usa essa pequena jóia.

 

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