YabloG! - Blog do escritor Fábio Yabu

Ilustração: Mathiole
Maldição” significa “mal dizer”, “difamar”, algo que antigamente acreditava-se ser tão poderoso que ser amaldiçoado era muito pior que morrer. Afinal, calúnias e fofocas sobre nós atingem nossos filhos e descendentes, e não cessam nem mesmo com a morte.
Ao final de 2008, eu buscava inspiração para escrever meu novo livro, quando fui tomado por uma epifania, um pensamento que apareceu do nada em minha mente – como se alguém tivesse sussurrado três palavrinhas no meu ouvido. Tais palavras foram “a-última-princesa”. Fiquei com aquele sussurro orbitando meus pensamentos por várias semanas, sem saber o que significava, até consultar um oráculo, o Google, e descobrir que a última princesa que tivemos em nosso país havia sido Isabel. Aquela, dos escravos.

Lembrei-me das ruas, avenidas e escolas que levam o nome da Princesa, que batizou até uma cidade na Paraíba. De todas as vezes que peguei um ônibus identificado com a placa Terminal Princ. Isabel. E então percebi que não sabia onde ficava esse terminal – ou quem havia sido a princesa.

Imediatamente interessei-me pela sua história. E ler sobre sua vida, sua família, seu grande amor e, principalmente, seus inimigos, fiquei abismado ao perceber que ela também sofrera uma espécie de maldição. Um ano após assinar a Lei Áurea, a Princesa foi exilada junto à sua família, perdendo para sempre o trono para o qual foi preparada desde a infância para assumir. No exílio, viu a mãe morrer de tristeza. Pouco tempo depois, perdeu o pai, que mesmo tendo recebido homenagens de governantes de todo o mundo, teve o funeral ignorado em seu país de origem. A Princesa morreu muito tempo depois, sem nunca ter voltado para casa. E talvez o lado mais triste de sua história foi que ela acabou esquecida pelo próprio povo.

Afinal, o que a gente sabe sobre a Princesa Isabel? Sabemos o que ela fez, mas não imaginamos quem ela foi. Não fazemos ideia de sua rica história de vida, repleta de fatos curiosos e até engraçados, como a troca de noivos realizada com a irmã às vésperas de seu casamento. Ou que sua luta pela libertação dos escravos precede em décadas a assinatura da Lei Áurea.

Durante os 30 anos em que viveu na França, a Princesa conheceu outro brasileiro ilustre: Alberto Santos Dumont, um dos homens mais famosos da época. O simples encontro dos dois já é algo inacreditável por si só – pois em geral tem-se a percepção de que a Princesa viveu numa época medieval, enquanto Santos Dumont conviveu com nossos bisavós. Mas o fato é que eles se conheciam, sim – e costumavam se encontrar com outras figuras excêntricas, quase uma “Liga Extraordinária”, como o arquiteto Gustave Eiffel, o relojoeiro Louis Cartier, e – especula-se – o escritor Júlio Verne.

O primeiro encontro dos dois também é digno de uma cena de livro: o inventor literalmente caiu do céu, enquanto realizava os testes de seu balão nº 5 em Paris. Ele ficou preso numa árvore próxima à residência da Princesa, e ao saber do fato, a filha de D. Pedro II pediu que seus criados levassem um suntuoso almoço ao conterrâneo – com queijos, frutas e champagne – enquanto os bombeiros tentavam encontrar uma maneira de resgatá-lo.

E são essas histórias fantásticas que inspiraram meu novo livro, “A Última Princesa“, que considero um “conto de fadas histórico”, pois não se trata de um livro de História (com H maiúsculo). Tomei muitas liberdades no enredo, e os personagens sequer carregam os nomes de suas contrapartes reais. É um conto sobre dois sonhadores, uma princesa que se diz amaldiçoada e um aviador que não acredita em maldições determinado a levá-la de volta para casa. Pessoas que enfrentaram seus medos pelas coisas em que acreditavam, pagaram o preço e jamais olharam para trás.

Em “A Última Princesa”, não pretendo recontar a história do Brasil, mas sim, chamar a atenção das pessoas para essa personagem tão importante que não merecia ter sido esquecida. E, quem sabe assim, quebrar sua maldição.

O livro chega às livrarias no início de 2012, ainda sem data definida, e será minha primeira obra para o público jovem, pela Editora Record (valeu, Dudu!), com ilustrações de Mathiole. Avisarei a todos do lançamento por aqui, pelo Twitter e pelo Facebook. Aguardem!


Foto por Azaghal

Acho estranho quando pessoas do bem – com curso superior e de boa família – de repente vestem carapuças brancas, assustam seus pais e filhos, montam em alazões negros e saem às ruas com tochas à caça de vítimas que sequer sabem o motivo de sua perseguição. Num minuto, estão enxugando a louça, no outro, açoitam seus vizinhos, sob o pretexto de que estão combatendo pragas, tão terríveis que mereceriam capítulos à parte em qualquer livro sagrado.

O pobre gerúndio, por exemplo. Esses dias vi na Internet a foto da fachada de um restaurante, com um simples e eficiente aviso de que “estamos atendendo”. Fui direto para os comentários da foto para confirmar uma certeza: lá estava a inevitável acusação de “gerundismo”. Alheio às tochas erguidas por inquisitores internet afora, o gerente – Armando – estava atendendo seus clientes, e, se Deus quiser, está atendendo a uma hora dessas e também vai estar atendendo amanhã, SIM, em horário comercial e com o português im-pe-cá-vel.

Vítimas de semelhante perseguição são as padarias, pet shops e pequenas pizzarias de bairro que OUSAM usar Comic Sans em seus logotipos e cardápios. Designers e diretores de arte ficam de cabelo em pé ao ver tamanha aberração, tamanho atentado à estética perpetrado por esses criminosos que sequer têm grana para pagar uma fonte melhor e não entendem coisa alguma de ”designer! Nem sei como esse tipo de gente consegue fazer pãozinho quente, dar banho no meu cachorro e entregar a minha pizza.

E aquele outro tipo de gente, que não vê graça em piada sobre assuntos “leves” como estupro, homofobia e pedofilia? E são acusados pelos inquisitores de serem “politicamente corretos”, praga que, segundo afirmam, está tornando as coisas chatas e acabando com o mundo. É só olhar pela janela e ver a zona que esses malucos estão fazendo: a essa hora, tem alguém “politicamente correto” parando o carro para um pedestre, recolhendo o cocô do cachorro, não bebendo porque vai dirigir e, valha-me Deus, comprando alimentos orgânicos. Talvez devêssemos voltar agora mesmo para o mundo dos crioulos, das bichas, dos mongolóides, dos pediatras fumantes. Com cocô de cachorro petrificado na rua e sem cinto de segurança. Tudo bem que era mais fácil morrer, mas pelo que dizem os detratores do “politicamente correto”, era menos chato viver.

Assim, a verdadeira – e mais terrível – das pragas vai se espalhando, com métodos vis e amplamente difundidos. Disfarçada de um comentário jocoso ou exposta na reação exarcebada a um deslize cotidiano, a discriminação vai encontrando o seu caminho nos corações das pessoas de bem como eu e você.

Nunca foi tão fácil.

Resenha: Lanterna Verde

agosto 18th, 2011 | Posted by Fábio Yabu in Resenhas - (24 Comments)

“E aí, o que você achou do Lanterna Verde?” foi a pergunta que mais ouvi essa semana. Os amigos, a esposa, os seguidores do twitter, até a imprensa, todos queriam saber qual era a minha opinião sobre o filme que esperei a vida toda para assistir. Ainda mais depois da crítica americana tê-lo esculhambado até os limites do setor espacial 2814.

Acredito que você não esteja aqui para saber detalhes técnicos do filme, número de estrelas ou nota de 0 a 10. Por isso, tentarei me prender ao essencial. Sem mais delongas: o filme começa muito bem, é irretocável durante todo seu primeiro ato. Depois, começa a apresentar falhas, que vão do sutil ao grotesco estapafúrdio. Algumas coisas saltaram quase a ponto de dilacerar as lentes 3D e perfurar meus olhos. Revendo o filme em minha mente, fica óbvio que ele foi mexido diversas vezes depois de pronto. É como a chegar em casa e ver seu armário revirado, e sentir a agonia de não saber o que está faltando.

Mas enquanto eu estava no cinema, reparei numa pessoa que tinha uma reação diferente do resto do público. Ela cerrava os punhos e dava socos no ar, suspirava ao identificar cada membro da Tropa. Para ela, os seis minutos em OA, com Kilowog, Tomar-Re e Sinestro foram como férias na casa da avó. Cada construto verde que saía do anel se tornava seu novo brinquedo favorito. A pista de Hot Wheels gigante a levou ao delírio. Essa pessoa não se importava com as erros na edição, não percebia os pixels avacalhados por toda a tela, não reparou nas crateras jurássicas no roteiro, vibrou com o juramento, bateu palmas e gritou WHUHUUU quando subiram os créditos finais.

Essa pessoa é a mesma que assistia o Lanterna Verde e os Superamigos enfrentando Sinestro e a Legião do Mal, em roteiros tão ou mais esburacados que o do filme de 2011. A mesma que achava os monstros do Jaspion assustadores, Transformers um desenho bem-feito e as roupas da Xuxa pudicas. E que hoje dança na sala com a filha no colo ao som de Balão Mágico.

Devo muito a essa criança. Ela me fez sobreviver aos momentos mais difíceis da minha vida e ser quem eu sou. Talvez você tenha uma dessas em si também, que está louca para ouvir a história do mocinho que ganha um anel mágico capaz de dar vida à sua imaginação, que vai para outro planeta e volta como super-herói. Se tiver, leve-a ao cinema. Senão, é melhor ficar em casa. Juro que não vou te culpar.

Teaser

maio 20th, 2011 | Posted by Fábio Yabu in Criações - (10 Comments)

Em breve! =)

Gravei um vídeo com o glorioso Daniel Bueno, para divulgar nosso primeiro trabalho conjunto, “Apolinário – O Homem-Dicionário“. Saiba um pouco mais sobre a trama e a técnica de ilustração única do livro, e veja como dois autores de livros infantis triunfam sobre a própria timidez!

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