Quadrinho é coisa de criança - YabloG!

Quadrinho é coisa de criança

agosto 8th, 2003 | Por Fábio Yabu em Sem categoria

Houve um tempo em que não ligávamos para essa colocação. Era a época em que líamos a Turma da Mônica. Aquela idade dourada em que paramos de apenas olhar para aquele monte de desenhos coloridos e letras sem sentido e começamos a juntá-las e formar palavras. Descobrimos que não precisávamos mais inventar os diálogos em nossas mentes pueris: havíamos aprendido a ler.

Nossos pais certamente estavam felizes, e, quando o plano econômico vigente permitia, vinham para casa com uma “revistinha” de algumas centenas de cruzados, cruzeiros, cruzeiros reais, etc.

Líamos incansavelmente. Dos “inovadoles” planos do Cebolinha, a histórias magníficas como “Romeu e Julieta”. Começávamos no primeiro balão e só parávamos na derradeira tirinha na última página da revista.

Era uma época mais simples. Em que nossa TV pegava poucos canais, que chamávamos por números. Em que desenhos animados, só no programa da Xuxa, e em que o Sérgio Mallandro era o ídolo de milhares de capetinhas, como meu irmão.

Porém, como bem sabem, as crianças crescem rápido.

Chegou o dia em que a Mônica não servia mais. O recém-descoberto prazer da leitura mostrava-se insaciável e clamava por material mais apropriado para nós – homens e mulheres feitos, no auge dos nossos… 9 ou 10 anos de idade.

Vieram então os super-heróis. Gibis e mais gibis, milhares de cruzeiros gastos em revistas do He-Man, Bravestar, Changeman, Jaspion, Marvel e DC. A grande maioria era de qualidade duvidosa e feita aqui no Brasil. Talvez, venha desta época o preconceito que as novas publicações nacionais sofrem hoje em dia. Mas este papo fica para outro dia.

Continuando, dentre aquelas toneladas de papel jornal, havia algo que nos fascinava, não é? Aquelas histórias mais sombrias, demarcadas com litros de nanquim, cores fortes e enredos complexos. Elas fizeram milhares de jovens se aventurar naquele novo universo que estava ali, esperando para ser decifrado com o mesmo afinco que nosso primeiro gibi da Mônica.

E qual não foi a nossa surpresa, senhoras e senhores, quando vimos que aquele gibi do Capitão América ou do Super-Homem, nos trazia um desafio ainda maior que o da alfabetização?

Tínhamos ali o desafio da compreensão!

Era uma época de crises… No Brasil e nas Infinitas Terras.

Perseveramos. Continuamos a ler e a tentar compreender. De certa forma, conseguimos. Seja lá o que aqueles gringos estavam tentando nos ensinar, nós conseguimos.

E foi aí que erramos.

Nos anos que se passaram, continuamos nossa aventura entre sagas e mais sagas. Mortes e ressureições nos aguardavam pela década a seguir, juntamente com hormônios e Psylockes em biquínis minúsculos. Tivemos sim, histórias memoráveis como aquelas dos X-Men de Chris Claremont, LJA de Keith Giffen, Hulk de Peter David, entre outros clássicos.

Assim como histórias ruins, como a nefasta Saga dos Clones do Homem-Aranha, a Morte do Super-Homem, Batman aleijado, etc.

Continuamos lendo. E continuamos errando.

Seguimos em frente (provavelmente por falta de opção), encarando um produto que por definição já estava fadado ao fracasso. Um produto que ao invés de se adaptar às épocas, se adaptou aos indivíduos consumidores. Por isso hoje temos revistas voltada às mesmas pessoas que as cresceram lendo e não permitiram que elas fossem renovadas para a chegada de novos consumidores, novas crianças tão sedentas por novidades como nós fomos um dia.

Enquanto o mundo mudou, e hoje nossas TVs pegam mais de 100 canais, os quadrinhos vêm, ano a ano, se afundando num caminho sem volta. Cada vez mais as HQs são feitas para um público menor: nós, antigos leitores, que mantemos este velho hábito desde a época da Mônica.

Ainda hoje, a dentuça continua líder em seu mercado, mas não deixou de ser atingida pelos novos tempos. Suas vendas – bem como de todo o mercado editorial, seja de revistas masculinas, ou de DVDs que vêm com uma cartela de papelão grátis – vêm experimentando um amargo declínio nos últimos anos.

Some a essa enorme crise histórias ininteligíveis, que só servem para afastar leitores (tanto velhos quanto novos) e pronto… eis um retrato da atual condição do mercado. Quando eu digo ininteligíveis, não me refiro a mim ou você. Nós sabemos o que é Quartzo-Rubi e pulso eletromagnético. Eu digo para aqueles seres humanos que nasceram em 1993 (sim, assusta saber, mas isso existe).

A discrepância das atuais histórias é enorme e muito fácil de ser exemplificada. Tente imaginar como seriam os desenhos do Scooby-Doo se eles fossem produzidos até hoje, mas focados nas mesma pessoas que tinham de 6 a 10 anos quando os primeiros episódios foram criados (hoje pais de família, ou jovens adultos). Teríamos um Fred “bad boy”, sarado e de óculos escuros, uma Daphne de colant preto e o Scooby seria um rotweiller babão?

Estranho, não? Será que um produto que sempre fez sucesso entre crianças, como o Homem-Aranha, precisa de uma histórias que lhes seja totalmente incompreensível? Será que a capa dessa revista precisa de um selo Marvel: PG (denominação para conteúdo inapropriado para crianças)?

Com os atuais preços dos quadrinhos, que diminuem o nosso poder de compra, e ainda a concorrência da TV a cabo, videogames e Internet, como vencer essa difícil batalha? Como conseguir novos leitores, e mostrar às crianças que ler quadrinhos é um prazer único? Como voltar a afirmar que “Quadrinho é coisa de criança”, e não de um bando de nerds privilegiados?

O leitor um pouco mais apressado pode achar que não gosto dos quadrinhos atuais. Meia-verdade. Há sim, coisas boas saindo. Porém, você há de convir que hoje, um sujeito quase precisa de um currículo atestando que ele pode ser um leitor de HQ de heróis.

É triste, mas quadrinho deixou de ser coisa de criança e virou coisa de nerd. Por favor, guardem suas pedras. A afirmação não é minha, mas certamente já foi ouvida por muitos.

Enquanto isso, as crianças se perdem. Preferem ler volumes quilométricos de Harry Potter a gibis de 52 páginas com Super-Homem e cia. Será que isso está certo? Até quando o mercado continuará perdendo leitores para as outras mídias, mantendo as mesmas panelinhas enquanto afunda ano a ano? E quando todos os leitores de quadrinhos arranjarem algo melhor pra fazer ou morrerem?

O mercado acaba?

Talvez seja hora dos quadrinhos, novamente e talvez pela primeira vez, serem “coisa de criança”.

“Podemos fazer qualquer coisa. Os fãs vão comprar mesmo.”
(Grant Morrison)

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