Para denunciar os males da verdade e do amor! - YabloG!

Para denunciar os males da verdade e do amor!

janeiro 14th, 2005 | Por Fábio Yabu em Crônicas

Bom, já perdi as contas de quantas maldades já fiz desde que virei supervilão. Já acabei com os Superamigos, as Meninas Superpoderosas e agora adiciono mais um objetivo à minha listinha de atrocidades: vou capturar o Pikachu.

Para isso, me alistei à Equipe Rocket, e, como meus colegas Jesse e James, vou denunciar os grandes males da “verdade” e do amor.

Para começar, “verdade” deveria sempre ser escrita entre aspas. Não existe “verdade”, muito menos absoluta. Quem disser que está dizendo uma “verdade” incontestável, certamente está mentindo, mesmo que muitas vezes não saiba disso.

Antigamente, a verdade era que a Terra era plana. Que, se você navegasse num navio em linha reta por muito tempo, cairia num abismo cedo ou tarde. E era incontestável, porque afinal, fazia sentido. E o mundo era um lugar mais seguro. Foi só descobrirem que a Terra era redonda que deu no que deu.

Newton achava que o tempo era uma linha reta, que corria em paralelo com o espaço. E comprovou por A+B, e funcionou. Virou uma verdade. Foi só chegar o Einstein e pronto, o espaço-tempo virou uma coisa só, curva. A prova? Mais cálculos. E mais verdades. Ele por sua vez achava que “Deus não joga dados com o Universo”. E não é que o Stephen Hawking comprovou que ele joga?

Aliás, sobre Deus dizem muitas outras verdades metafísicas. Cada povo tem a sua, basta escolher, pôr na sacola e levar. Alguém está errado? Acho que não. Até os ateus tem sua dose de verdades.

A verdade são apenas palavras sem valor que lhe são ditas. A única maneira de experimentar a verdade, ou pelo menos chegar razoavelmente perto dela, é descobrindo-a por si só, sem palavras. Do contrário, alguém pode (e vai) desmentí-la, cedo ou tarde.

Você não encontra Deus numa igreja, numa bíblia. Encontra indícios dele, pistas soltas, às vezes sem valor. Mas procure dentro de si. Experimente a verdade por si mesmo e você verá o quanto as palavras são inúteis e desajeitadas.

O zen, por exemplo. Ninguém pode explicar o que é o zen, o que é meditação. Já está dentro de você. Tudo o que for dito serão mentiras, porque o zen é o nada mais puro e mais pessoal que uma pessoa pode experimentar.

Escola? Valha-me Deus, ninguém ensina nada em escolas, principalmente aqueles professores demasiadamente presos em “verdades”, provas, chamada oral. Uma prova não prova nada, apenas que você estudou feito um louco no dia anterior e acertou um punhado de questões sobre a tabela periódica numa folha de papel. Agora me diga, qual é a divisão nuclear do carbono? O que fez José Bonifácio, mesmo? Que eu saiba era o nome do meu vizinho em Santos… verdade, ou não?

Nem o nascer do Sol escapa. Eu poderia dizer um monte de coisas sobre o nascer do Sol, que tanto gosto de olhar. Que as nuvens ficam roxas depois vermelhas, que as cores à minha volta ficam mais vibrantes, que o ar é geladinho mas vai esquentando devagar, que ao lado de quem você ama tudo fica mais colorido e o sol brilha ainda mais. Bonito? Talvez. Verdade? De jeito nenhum. Tenho certeza de que se você ver o Sol nascer, dependendo do dia, da hora, do humor, terá uma leitura totalmente diferente e, digamos, verdadeira.

Briga de namorado. “Ah, você sempre acha que está certo(a)!” e vice-versa. Um lado acha que o outro acha que é dono da verdade, quando os dois têm sua porção de culpa, de verdade, de mentiras. Engraçado que quando as pessoas percebem isso os relacionamentos ficam ou melhores ou piores. Deve ser a tal da verdade, que faz com que a pessoa pare de imaginar ou julgar o que a outra está pensando.

E o dinheiro? É uma das maiores mentiras já criadas pelo homem. Quer ver? Tire mil reais da poupança e deixe na gaveta. Daqui a 5 anos, quanto você vai ter lá dentro? Mil reais, certo? Errado! Alguém inventou uma “verdade” chamada juros, que “come” seu dinheiro, por mais que as notas tenham ficado guardadas bonitinhas dentro da gaveta. Intactas.

Juros, tempo (ou a falta dele), pressa, stress, mentiras, poesia, religião… tudo são pequenas “verdades” criadas pelo homem. Até o amor, que sempre foi avacalhado pelos poetas, românticos e pela Legião Urbana.

Não que o amor não exista. Aliás, eu acho que sou um dos poucos entusiastas a respeito dele. E se você também é, há de convir que o amor verdadeiro não precisa e nem exige palavras, poesias, provas. É como o amor de mãe. Minha mãe nunca me escreveu uma carta de amor, e confesso que seria meio estranho se ela o fizesse. E não há palavra que expresse o sentimento sagrado que nos une. Talvez “porescapricitosetildatitimentesca”, mas essa não vale porque eu acabei de inventar.

Mais um motivo para tomar cuidado com as palavras, tão traiçoeiras. Dizer e ouvir que se ama alguém é deveras perigoso. É muito mais seguro e sensato não se preocupar muito com elas e sim com a ação.

Então, quando o assunto for verdade ou amor, fique sempre com um pé atrás. No caso desse texto, com os dois. Não acredite em verdades, em extremos, em convenções, em estatísticas, tabelinhas, infográficos, nada disso. É melhor ficar quieto e descobrir essas coisas, tão importantes, por si só. Olhando, procurando, sentindo, respirando, vivendo.

Enquanto isso, vou atrás do Pikachu.

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