A família da noiva - YabloG!

A família da noiva

abril 21st, 2005 | Por Fábio Yabu em Resenhas

A família da noiva
Guess Who?
EUA – 2005
Comédia – 106 min.

Direção: Kevin Rodney Sullivan
Roteiro: David Ronn, Jay Scherick, Peter Tolan

Elenco: Bernie Mac, Ashton Kutcher, RonReaco Lee, Gus Lynch, Phil Reeves, Zoe Saldana, Sherri Shepherd, Amanda Tosch

Falar sobre questões raciais é pisar em ovos. Qual é o termo certo? Negro? Preto? De cor? Moreno? E qual é a tal “questão do negro”, de que tanto falam? Como terminologias e eufemismos nunca agradam a todos, vamos aos fatos: nos EUA, onde 12% da população é formada por negros, há 800 mil deles em prisões contra 460 mil em universidades. Já no Rio de Janeiro, 66% da população negra vive encarcerada, enquanto no resto do país, 70% da população miserável é formada por negros, ainda que eles sejam 45% da população total.

Com tais dados à mão, o mínimo que se espera de uma comédia sobre o tema é que se trate o assunto com um pouco de sensibilidade ou, ao menos, inteligência.

A família da noiva (Guess who, 2004) é um desastre em ambos os sentidos.

O filme é uma releitura do clássico de 1967, Adivinhe quem vem para jantar, em que a branca Joanna (Katherine Houghton) apresenta seu namorado negro Jon (Sidney Poitier) à família, e levanta profundas questões raciais que renderam ao filme 9 indicações ao Oscar, incluindo melhor filme, diretor e roteiro.

A versão 2005 inverte a situação, colocando Simon (Ashton Kutcher) como o namorado branco de Theresa (Jöe Saldaña), negra e filha de Percy (Bernie Mac), um bem sucedido executivo de uma organização financeira. Possessivo, controlador e racista, Percy inicia uma verdadeira cruzada para mostrar à filha que seu novo companheiro caucasiano não é digno de seu amor.

A partir daí, seguem-se tediosas cenas “cômicas” de rivalidade entre os futuros sogro e genro, incluindo uma inexplicável seqüência de cinco piadas sobre negros contadas por Simon, o eventual rompimento dos dois pombinhos e seu previsível final feliz. Além de passar a centenas de quilômetros de questões que poderiam trazer o mínimo de reflexão para a audiência, o filme ainda insiste em assuntos bizarros como o dote sexual do rapaz branco, piadinhas sobre masturbação e homossexualidade.

Como se não bastasse, ainda somos obrigados a ver uma desastrosa tentativa de flerte com a inteligência, com direito a frase de efeito e uma compenetrada troca de olhares entre Simon e Percy: “Um homem tem que decidir seu caminho… não importa o que seu pai fez” (?).

Racismo, fome, desigualdade social e Ashton Kutcher no lugar de Sidney Poitier. Realmente, o mundo está se tornando um lugar perigoso…

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