2 filhos de Francisco

O que faz um bom filme? Um roteiro inteligente? Direção e atores competentes? Personagens interessantes e uma história cativante, cheia de surpresas e reviravoltas? Uma trilha sonora decente com certeza não faz mal a ninguém, né?
Acredite: 2 filhos de Francisco - A história de Zezé di Camargo e Luciano (2005) tem tudo isso e mais um pouco.
O “acredite” da frase acima se faz necessário pois há um compreensível “pé-atrás” de boa parte do público em relação ao filme. Culpa do atual sistema que combina celebridades nacionais com cinema de baixa qualidade e que, logicamente, não dá uma boa liga - vide filmes da Xuxa, Padre Marcelo, Didi e Eliana Dedinhos.
É justamente nesse ponto que o roteiro esmerado de Patrícia Andrade e Carolina Kotscho se destaca. As duas utilizam a consagrada dupla sertaneja apenas como uma ponte para na verdade contar a história do pai dos cantores, Francisco Camargo, um trabalhador rural apaixonado por música e que sonhava com a carreira musical dos filhos. Interpretado brilhantemente por Angelo Antonio, Francisco é um típico brasileiro como tantos e, ao mesmo tempo, tão poucos. Sem instrução, dinheiro e, muitas vezes, comida, mas dono de uma ingenuidade que viria a ser seu maior trunfo, Seu Francisco jamais desistiu deste sonho. Ao preço de uma vida de sacrifícios, hoje pode contar sua história, que começa no nascimento do primeiro filho, Mirosmar (Zezé di Camargo), e vem até um emocionante show da dupla, não sem antes mostrar a construção do mega-hit que lançou os dois: “É o amor”.
Mesmo que essa história tenha sofrido “poetizações”, seus elementos mais importantes são retratados de maneira bastante realista, com fome, frio, deslumbramentos, decepções e até uma paralisia infantil de um dos filhos de Francisco, que também teve de lidar com uma tragédia ainda maior - mostrada lá pelo meio do filme. Os momentos alegres na infância e a vida adulta dos personagens existem, mas são mostrados de maneira honesta e bastante crível. Dos conhecidos contos de fada, a história só tem mesmo o final feliz.
Contudo, o filme também tem seus deméritos. Apesar da assustadora semelhança com Zezé di Camargo, Marcio Kieling deixa muito a desejar em sua atuação, e traz uma certa quebra no ritmo do filme que, até a fase adulta dos cantores, flui perfeitamente. Outro detalhe que incomoda são os excessivos e intrusivos merchandisings, incluindo a aparição da atual logomarca do Bradesco (criada em 1997) perdida numa cena ambientada no comecinho da década de 90. Um detalhe pequeno, mas que podia ser evitado.
Dirigido pelo premiado diretor de fotografia Breno Silveira, 2 filhos de Francisco cai na estrada com o pé direito. Vencer preconceitos, pelo menos da crítica, foi sua maior vitória até agora. Resta torcer para que em sua estréia o filme também ganhe o merecido respeito do público.
2 filhos de Francisco - A história de Zezé di Camargo e Luciano
Brasil - 2005
Drama, 132 min
Direção: Breno Silveira
Roteiro: Patrícia Andrade e Carolina Kotscho
Elenco: Márcio Kierling, Thiago Mendonça, Ângelo Antônio, Dira Paes, Paloma Duarte, Dablio Moreira, Wigor Lima, Marco Henrique, Maria Flor, Natália Lage, Jackson Antunes, Pedro, Thiago, Lima Duarte, José Dumont
Frio
E eu me lembro do frio.
Tarde de domingo tranquila em minha casa, resolvi sair para comprar Coca Light na padaria em frente ao prédio. Antes, tomei banho.
Ao sair do elevador, vestido casualmente e despreparado para o vento geladinho que me atingiu, lembrei-me de como é delicioso andar no frio com os cabelos molhados. É uma sensação única. Priceless.
Como toda sensação, ela começou a despertar memórias, ocasiões diferentes em que senti aquele mesmo ventinho gelado.
Minha mãe tinha acabado de me agasalhar. Estávamos de férias no camping, era final de tarde e eu vivia no auge da independência aos 7 anos de idade. Resolvi andar no jardim. Eu tinha luvas. Um agasalho, meias de lã, talvez estivesse até com duas calças. Mas minha mãe disse para eu não ir muito longe, por causa do sereno.
“Sereno?”
Minha mãe me explicou que eram gotinhas bem fininhas que caíam do céu à noite, aquelas que cobriam o carro e o deixavam esbranquiçado. Mas até aí, eu era invencível e não iam ser umas gotinhas de “sereno” que iriam impedir minha exploração. A não ser que…
“Mas mãe… se cair em mim, eu congelo?”
“Hmm… é. Congela.”
Olhei para o lado e vi um pequeno arbusto com algumas flores. Cheguei perto delas, olhei e vi pequenas gotinhas cobrindo-as. Elas estavam paradinhas… congeladas!
Era verdade!
Ainda que com a minha confiança abalada, resolvi continuar a exploração e não ir muito longe conforme as recomendações maternas. Minha motivação havia mudado: o que eu mais queria era andar pelo camping e descobrir quantos trouxas desavisados pelas suas mães haviam congelado e virado estátuas de gelo.
Não encontrei nenhum. Mas devem estar lá, congelados, até hoje.
Mais tarde, com mais ou menos uns 12 anos, participei de uma excursão para Campos do Jordão, juntamente com todos os amiguinhos da minha turma da natação. Voltávamos para Santos à noite, de banho devidamente tomado e acompanhados de nossas respectivas mães.
O pessoal era gente boa, viu. Não lembro o nome de nenhum deles. Mas eu lembro das musiquinhas no ônibus.
“Eu tava na janela
Passou um urubu
Tomando Coca-Cola
Arrotando pelo cu…”
Essa era uma das mais leves. Acho que as mães nem ligaram muito, porque me lembro que o repertório de músicas era enorme. Eu ria muito, quando minha mãe me chamou a atenção para um relógio numa rua indicando a temperatura: 2 graus positivos. O que certamente seria motivo para deseducados adjetivos vindos de um adulto, para mim e meus amiguinhos acabou lembrando mais uma canção:
“Eu tava na cozinha
Tomando um sorvete
O sorvete escorregou
E caiu no meu cacete…”
Alguns anos mais tarde, a sensação do vento gelado nos cabelos molhados contiuava tão boa quanto na época em que o sereno congelava as pessoas no camping. Mas não era apenas o vento que tocava meus cabelos naquela noite. Era a mão dela.
O frio condensava meu hálito, gelava minhas bochechas e meu nariz, e me dava um motivo a mais para abraçá-la e nunca mais deixá-la ir. Devia estar mais ou menos uns 9 graus naquela noite. Mesmo que ela tenha teimado em ir embora tantas vezes, eu continuo sentindo o frio. Com um pouquinho de vontade, também dá pra sentir o calor.
Previsão para 08/08 - By Climatempo.com.br
A frente fria chega em São Paulo nesta segunda-feira e muda o tempo. Todas as regiões paulistas terão um dia de sol e muitas nuvens. Há previsão de chuva à tarde no sul e no leste do Estado. A temperatura entra em declínio.





