Frio - YabloG!

Frio

agosto 7th, 2005 | Por Fábio Yabu em Crônicas

E eu me lembro do frio.

Tarde de domingo tranquila em minha casa, resolvi sair para comprar Coca Light na padaria em frente ao prédio. Antes, tomei banho.

Ao sair do elevador, vestido casualmente e despreparado para o vento geladinho que me atingiu, lembrei-me de como é delicioso andar no frio com os cabelos molhados. É uma sensação única. Priceless.

Como toda sensação, ela começou a despertar memórias, ocasiões diferentes em que senti aquele mesmo ventinho gelado.

Minha mãe tinha acabado de me agasalhar. Estávamos de férias no camping, era final de tarde e eu vivia no auge da independência aos 7 anos de idade. Resolvi andar no jardim. Eu tinha luvas. Um agasalho, meias de lã, talvez estivesse até com duas calças. Mas minha mãe disse para eu não ir muito longe, por causa do sereno.

“Sereno?”

Minha mãe me explicou que eram gotinhas bem fininhas que caíam do céu à noite, aquelas que cobriam o carro e o deixavam esbranquiçado. Mas até aí, eu era invencível e não iam ser umas gotinhas de “sereno” que iriam impedir minha exploração. A não ser que…

“Mas mãe… se cair em mim, eu congelo?”

“Hmm… é. Congela.”

Olhei para o lado e vi um pequeno arbusto com algumas flores. Cheguei perto delas, olhei e vi pequenas gotinhas cobrindo-as. Elas estavam paradinhas… congeladas!

Era verdade!

Ainda que com a minha confiança abalada, resolvi continuar a exploração e não ir muito longe conforme as recomendações maternas. Minha motivação havia mudado: o que eu mais queria era andar pelo camping e descobrir quantos trouxas desavisados pelas suas mães haviam congelado e virado estátuas de gelo.

Não encontrei nenhum. Mas devem estar lá, congelados, até hoje.

Mais tarde, com mais ou menos uns 12 anos, participei de uma excursão para Campos do Jordão, juntamente com todos os amiguinhos da minha turma da natação. Voltávamos para Santos à noite, de banho devidamente tomado e acompanhados de nossas respectivas mães.

O pessoal era gente boa, viu. Não lembro o nome de nenhum deles. Mas eu lembro das musiquinhas no ônibus.

“Eu tava na janela
Passou um urubu
Tomando Coca-Cola
Arrotando pelo cu…”

Essa era uma das mais leves. Acho que as mães nem ligaram muito, porque me lembro que o repertório de músicas era enorme. Eu ria muito, quando minha mãe me chamou a atenção para um relógio numa rua indicando a temperatura: 2 graus positivos. O que certamente seria motivo para deseducados adjetivos vindos de um adulto, para mim e meus amiguinhos acabou lembrando mais uma canção:

“Eu tava na cozinha
Tomando um sorvete
O sorvete escorregou
E caiu no meu cacete…”

Alguns anos mais tarde, a sensação do vento gelado nos cabelos molhados contiuava tão boa quanto na época em que o sereno congelava as pessoas no camping. Mas não era apenas o vento que tocava meus cabelos naquela noite. Era a mão dela.

O frio condensava meu hálito, gelava minhas bochechas e meu nariz, e me dava um motivo a mais para abraçá-la e nunca mais deixá-la ir. Devia estar mais ou menos uns 9 graus naquela noite. Mesmo que ela tenha teimado em ir embora tantas vezes, eu continuo sentindo o frio. Com um pouquinho de vontade, também dá pra sentir o calor.

Previsão para 08/08 – By Climatempo.com.br
A frente fria chega em São Paulo nesta segunda-feira e muda o tempo. Todas as regiões paulistas terão um dia de sol e muitas nuvens. Há previsão de chuva à tarde no sul e no leste do Estado. A temperatura entra em declínio.

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