Meu amigo Senhor Lorenzo Terceiro – Uma história real - YabloG!

Meu amigo Senhor Lorenzo Terceiro – Uma história real

setembro 13th, 2005 | Por Fábio Yabu em Crônicas

O primeiro computador no qual mexi foi um 486, que meu pai comprou por volta do distante ano de 1994. Até então eu não sabia nada sobre computadores, e nem imaginava o quanto o mundo iria mudar a partir daquele dia. Mudanças tão profundas que é difícil imaginar como as coisas funcionavam antes delas. Comunicação instantânea, compras pelo computador, música e vídeo digital, sorrisos através da webcam, informação descentralizada e quase democrática se não fosse tão restrita.Com aquele 486, que para facilitar vamos chamar de Lorenzo Primeiro, comecei a me aventurar no mundo da informação digital através das BBSs, a escrever e armazenar meus textos e a desenhar no Paint. Seus heróicos 4 megas de RAM me ajudaram a processar informações e sentimentos me colocaram a estrada que me trouxe até aqui. Esse momento específico, no qual sinto uma mistura de orgulho com saudade e nostalgia.

Dois anos depois de Lorenzo, veio meu primeiro emprego, aos 17 anos de idade. Alguns meses de trabalho me possibilitaram comprar, em seis prestações, um poderoso sucessor chamado Lorenzo Segundo, para o qual eu tinha planos grandiosos. Com Lorenzo Segundo e seu enorme poder de processamento, eu criaria uma revista e levaria para a Editora Abril publicar. Simples assim. Eu até tinha ligado lá para avisar.

O que ninguém sabe até hoje, foi como ladrões entraram em minha casa em Santos numa tarde de sábado e levaram tanto Lorenzo Primeiro quanto Segundo, que conviveram juntos por apenas uma semana. Sozinho naquele apartamento (minha família estava viajando), fiquei com o sonho de publicar uma revista, cinco meses de prestação de Lorenzo Segundo e um pé na bunda fenomenal da namorada.

Solidários com o meu drama, meus pais compraram um computador novo, mas o sonho de publicar uma revista foi adiado por uma avalanche de eventos que envolveram uma nova namorada e os rascunhos que em 1997 viraram o site dos Combo Rangers.

Três meses após ter criado o site, com 19 anos de idade, recebi um e-mail da Intel, com uma oferta de patrocínio que levou meus sonhos e expectativas a um novo patamar. A oferta incluia também um computador, esse sim, Lorenzo Terceiro, que me acompanhou pelos sete anos seguintes.

Lorenzo Terceiro esteve comigo em todos os momentos. Em meu primeiro apartamento em São Paulo, na ascensão e posterior queda da Internet. Em meu primeiro escritório, para o qual comprei computadores ainda mais poderosos que ele, mas nunca com seu charme e lealdade.

Ele passou por mais de sete mudanças. De um escritório enorme numa das mais importantes avenidas de São Paulo, passando por uma salinha bem mais modesta num bairro residencial e mais dois escritórios cada vez menores. Onde quer que eu viesse a ter uma mesa, Lorenzo Terceiro estava lá. Guerreiro, sobreviveu a tudo. Cortes de gastos, vendas de equipamentos, até uma enchente.

Corajoso, ele me ajudou a produzir mais de 20 revistas e meus dois primeiros livros. Nele, escrevi, desenhei e colori quase tudo que produzi nos últimos sete anos. Assisti filmes, ouvi músicas, reencontrei pessoas queridas.

Veio a nova empresa, os novos computadores, o novo escritório e mais um monte de sonhos. Pela primeira vez, Lorenzo Terceiro não foi comigo. Meu velho companheiro ficou em casa, servindo bem o seu propósito e me ajudando como podia.

Apesar de confiável como nenhum outro computador, Lorenzo Terceiro já mostrava os sinais da idade. Demorava para inicializar, reclamava quando tinha que exibir um trailer de filme, chorava até para abrir o Firefox. Mas travar? Nunca. Lorenzo Terceiro nunca foi disso. Mas, devido à suas reclamações, decidi que era hora de dar a ele seu merecido descanso. De devolvê-lo ao seu primeiro lar, para que possa morrer em paz daqui a alguns anos. Muitos, se a providência permitir.

Liguei para meus pais, que se comprometeram a cuidar muito bem dele, que continuaria sendo um servo leal, agora apenas acessando a Internet.

Então chegou seu sucessor, que não se chama Lorenzo Quarto, pois o Terceiro nunca terá um substituto à altura. Após transferir para o novo os gigas que tanto exigiram de si durante tantos anos, formatei Lorenzo Terceiro. Tirei dele o peso de carregar nas costas coisas que já não são para sua idade. Abri seu gabinete judiado e tirei todo a poeira acumulada. E ontem, sentado no chão frio, com um paninho com Veja nas mãos e um pincel que me ajudou a tirar a poeira, eu o abracei e disse: “Obrigado por tudo o que você fez por mim. Por nunca ter me deixado na mão. Por ter aguentado produzir tantas idéias e realizado tantos sonhos. Por cada página que me ajudou a desenhar e colorir, por cada frase que me ajudou a escrever. Por ter feito tantos backups diários que nunca foram necessários porque você nunca me deixava perder nada. Obrigado, Lorenzo Terceiro. Obrigado.”

Terminei a limpeza, empacotei meu velho amigo. Horas depois meu pai veio buscá-lo de carro.

Uma hora e meia depois depois, ao chegar em Santos, meu pai o ligou à tomada.

Então, Lorenzo Terceiro pifou.

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