Sobre rodoviárias e aeroportos - YabloG!

Sobre rodoviárias e aeroportos

setembro 13th, 2005 | Por Fábio Yabu em Crônicas

Estava pensando esses dias sobre o ar – o vibe – de rodoviárias e aeroportos.A impressão de que tenho é que, apesar de suas finalidades serem semelhantes, as rodoviárias têm um ar mais alegre, de partida, aventura, e também de alívio da chegada. Já os aeroportos me parecem um pouco mais melancólicos, apressados, até meio tristes. Pode reparar: por mais que um aeroporto tenha aquele glamour e geralmente seja mais arrumadinho que uma rodoviária, uma despedida no primeiro é muito mais triste do que no segundo.

Uma outra coisa que me chamou a atenção na última semana, em que passei horas tanto em um quanto no outro, foi o quanto os dois ambientes são propícios – pelo menos para mim – ao processo criativo. Acho que é um pouco daquele vai-e-vem de gente de tantos lugares diferentes, cada um com sua motivação e drama pessoal.

Eu olho na cara das pessoas, sonolentas nos bancos de espera, ansiosas no salão de desembarque, aliviadas ao sair com suas malas, entediadas nos cafés ou no check-in, olhando a vitrine das lojinhas com seus preços absurdos, e de repente me sinto cúmplice e testemunha de tantas vidas que aparentemente não tem nada a ver com a minha, mas que por razões distintas nos trouxeram àquele breve momento que provavelmente será o único que partilharemos juntos.

Rodoviárias e aeroportos dão uma vibração diferente às coisas. Uma garrafinha d’água que você leva para um ônibus e que se torna sua companheira por horas a fio tem um gosto muito diferente da água que você toma no dia-a-dia. E que outro lugar um sanduíche do McDonald’s tem gosto de despedida senão num aeroporto? Aqueles minutos que antecedem a partida, poucos, 15, que você quer preencher de alguma forma que não seja olhando a tabela de vôos ou folheando revistas, mas também não quer já iniciar o doloroso processo de adeus. Quinze minutos depois e tudo acaba, ou você parte, ou você fica, o mundo muda mas tudo à sua volta continua igual, estático, seja no solo ou no ar.

Se por um lado é difícil ficar alheio a esse turbilhão de sensações, por outro ele funciona – pelo menos para mim – para estimular a minha criatividade. O que mais gosto de fazer quando estou sozinho numa rodoviária ou aeroporto, ônibus ou avião, é escrever e pensar em histórias. Talvez seja o vibe no ar, talvez seja só uma invenção da minha mente, mas acho que algumas das melhores histórias que escrevi saíram assim. Inclusive meu próximo livro. Não o segundo, que sai logo, logo. O terceiro.

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