Poder e dever - YabloG!

Poder e dever

dezembro 1st, 2005 | Por Fábio Yabu em Crônicas

Enquanto os substantivos poder e dever possuem significados completamente diferentes, quando utilizados como verbos são bastante semelhantes. Deixando um pouco a etimologia de lado, consegui ver com mais clareza a tênue linha que separa os dois nesse final de semana.A entidade que sirvo realiza todos os anos um evento beneficente para arrecadar fundos para sua manutenção. Graças a um trabalho sério realizado ao longo de mais de 40 anos e à boa vontade de milhares de pessoas, esse evento é sempre um sucesso, e teve em sua última edição a presença de mais de 3000 pessoas, cujas contribuições em dinheiro ajudarão a manter alimentadas dezenas de crianças carentes pelos meses que virão.

Toda a realização desse grande evento depende da solidariedade e do trabalho de dezenas de voluntários, abençoados sejam. Mas é claro que nem tudo são flores, a natureza humana é cheia de nuances entre alguns aspectos admiráveis, e outros nem tanto. Observar e notar o contraste entre esses eles, mesmo em agrupamentos aparentemente homogêneos, me causa uma certa estranheza.

Pois bem. Estavam lá reunidos, em prol de uma causa nobre, mais de 50 voluntários, cheios de sorrisos e boa vontade que, veja bem, não questiono em momento algum. Porém, o que me causava certo incômodo era notar que, mesmo em trabalhos realizados de forma voluntária, as pessoas têm uma tendência enorme a seguir pelos caminhos mais fáceis e cômodos, como na hora em que apenas seis pessoas trabalhavam na árdua montagem das mais de 400 mesas, deitadas ou sentadas no chão empoeirado, enquanto cerca de vinte se preocupava em circular pelos corredores colocando bexigas em cima delas conforme suas montagens terminavam. Havia também uma pessoa extremamente preocupada com a cor das bexigas que, tão logo percebia não combinarem com a cor da toalha, prontamente punha a mão na massa e a trocava pela da mesa ao lado.

Nessa hora me perguntei qual era a diferença entre poder e dever, e percebi como as pessoas se acomodam quando se propõem a fazer o que “podem”. Ao final do evento, a cena se repetiu, quando uma minoria suava a camisa carregando e empilhando as exatas 4000 cadeiras, e um número muito maior se preocupava em recolher e estourar bexigas. Quando as bexigas acabaram, sobrou para seis gatos pingados que seguiram madrugada adentro recolhendo borracha colorida do chão enquanto os “estouradores” trataram de ir embora rapidamente tão logo seu “trabalho” terminou.

Não é preciso ir longe para buscar outros exemplos. Tão pouco precisamos nos esforçar muito para lembrar de tantos sábios, escritores, filósofos, budas e jesuses que insistentemente nos falaram sobre como é importante aproveitar ao máximo o potencial que nos é emprestado em sua plenitude. Sobre a clara diferença entre o poder e o dever. Se estiver difícil, tem ainda a máxima de nossas mães: “se é pra fazer alguma coisa, faça direito”.

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