Silêncio
Já reparou no cheiro do vento naqueles dias em que faz sol o dia inteiro e a noite esfria de repente? É difícil descrevê-lo, eu diria que é uma mistura de grama e terra seca com orvalho da manhã, embalados em ar seco. Talvez você se lembre desse cheiro, já eu nunca vou esquecê-lo.
Naquela noite a gente resolveu ir para a varanda, como fizemos tantas outras vezes. Pra conversar, ouvir a voz do outro, dar risadas.
Ficamos sentados lá por meia hora, quarenta minutos. Mas daquela vez foi diferente. Nenhuma palavra foi dita, nenhuma comunicação verbal foi estabelecida, enquanto o silêncio preenchia toda aquela varanda e se extendia para o mundo. E não havia incômodo, não havia urgência em falar, trocar opiniões, discutir. Tudo o que nos interessava era o silêncio; a mágica que se manifesta quando você para de falar e começa a ouvir.
Ouvir o coração. Ouvir com o coração. Não é poesia, as palavras são desajeitadas mesmo, isso é o mais próximo que se consegue com elas. Por isso é tão bom calar.
Silêncio. Bolinhas pretas cobriam o galho de uma rosa num vaso, mas naquele dia eu resolvi não tirá-las. Carros e motos passavam na rua tentando nos atrapalhar, mas nada no mundo poderia interromper uma conversa tão importante. Uma luz se acendeu numa janela próxima, e pude ver alguém sentando em frente ao computador.
O cheirinho do vento me lembrava do quanto o dia havia sido quente; a brisa geladinha trouxe alívio e virou uma lembrança gostosa daquela noite estrelada. Alguém tentou sujar o vento com um cigarro fedido, mas o cheiro logo sumiu. Vez por outra nos dávamos as mãos, quietos, e a luz da janela apagou. Nem vi o moço sair.
Uma hora o esquilo resolveu sair da sua caixinha. Ele veio até meu pé, mordeu a minha meia e dei risada. Ao ver que não tinha nada interessante, ele resolveu continuar sua ronda noturna depois de ganhar dela uma semente de girassol. Ele não agradeceu, e nem poderia, mas quem disse que precisa? Os homens é que inventaram essa tal de expectativa, que frustra e magoa quem depende dela para viver. Esperto é o esquilo, que a essa hora já juntou um monte de semente de girassol no seu cantinho. Não pediu por favor e nem disse obrigado uma só vez.
Essa foi mais uma lição que aprendi naquela noite. O silêncio continuava falando, nos dizia muitas coisas importantes. Dizem que a gente tem que encontrar pessoas com quem possamos conversar; eu acho legal, mas também é ótimo encontrar gente com quem a gente possa ficar quietinho.
Andar pela rua, sentar na varanda, viajar de carro falando pouco e aprendendo muito. “Olha“. “Legal“. “Viu?” já bastam para horas e horas de discussão silenciosa e filosófica.
Uma hora resolvemos entrar. Com um beijo geladinho no canto dos lábios, ela me disse “Obrigada por existir. Eu sempre estarei aqui” e eu respondi “Eu também“. Tudo sem uma única palavra.
O futuro
Quando escrevo meus textos e livros procuro não pensar muito no que vai acontecer depois que eles forem publicados; porque as possibilidades são tão vastas que é inútil tentar prevê-las. Diria até que isso atrapalha o andamento do trabalho já que, se um livro é a visão que o escritor tem do mundo, não faz o menor sentido ele ficar olhando para os lados enquanto escreve.
É claro que tem aquela partezinha dentro de mim que espera que o livro faça o mínimo de sucesso. Que ele venda o mínimo para se manter no competitivo e canibalizado mercado literário. Que, ao final de dois anos, a modesta primeira tiragem tenha sido vendida. Mas procuro manter essa expectativa baixa, e vejo que essa prática fez muito sentido após ter publicado dois livros e vinte e tantas revistas em quadrinhos. Independente do “sucesso” de cada um, tudo sempre surgiu de uma fagulha espontânea e sincera de algo que eu queria expressar. E o resto foi consequência.
Não que meus livros sejam blockbusters, o novo Harry Potter e tal. Nem quero que sejam, na verdade. Prefiro trilhar meu caminho devagarzinho no coração das crianças, sem pressa nem grandes expectativas. Aos poucos meu plano tem dado certo.
Semana passada, estive em Aguaí, interior de SP, visitando o Colégio Deltha, que adotou meus dois livros. Sabe, quando pegam um tema e a escola inteira trabalha durante meses? Fazem cartazes com purpurina, lantejoulas, trabalhos em grupo discutindo o livro e respondendo perguntas. Eu ainda me lembro de quando tinha que fazer a mesma coisa há poucos anos e de repente, pá. Lá estou eu, no meio de um pátio vendo um mural repleto de cartolinas coloridas com desenhos, frases e lições tiradas dos meus livros. Um pouco acima, uma cartolina branca escrita a “canetão”: Bem vindo, Fábio Yabu. E dezenas de crianças no pátio olhando para mim enquanto caminho com a diretora, que me contou uma história curiosa:
“Você não imagina o que os seus livros fizeram aqui. Até mãe já teve que vir aqui na escola por causas deles! É, as crianças pegaram a mania de chamar aquelas que são mais mandonas de “Tubarina”. Aí uma menina invocou e a mãe dela teve que vir perguntar porque chamavam a filha dela de Tubarina!”
Veio então o momento de conversar com as crianças, desde o pré até a sétima série. Quietinhas, atentas, competindo por um olhar e um sinal de “positivo” que eu fazia para todas. Vieram as perguntas, sempre deliciosas, às vezes surpreendentes como “Como é o mar?“. O prézinho também me premiava com pérolas como “Fabyabu, minha mãe não leu o seu livro pra mim!” e “Fabyabu, ontem eu engoli shampoo!“.
Uma menininha de 6 anos ficava correndo pelo pátio, pulando e cantando uma musiquinha inventada na hora, cuja letra era apenas “Fabyabuuuuu… Fabyabuuuu“. Outra veio, e sem dizer uma palavra, me entregou um papel, me deu um beijo e saiu correndo. “Fábio Yabu, eu não te conheço mas sei que você é legal.” Coisa mais linda.
Foi demais. Voltei para casa com dezenas de trabalhos e cartinhas, lembranças gostosas e a maravilhosa sensação de não saber o que o futuro reserva. Melhor assim, né?
Meu segundo livro pelos olhos de crianças da quinta série: Luana, Lucas, Ana Lívia, Tuany e Anne.
Um presente da primeira série

Polvina
Namastê
Quem acompanha Lost já deve ter reparado que o Dr. Marvin Candle (e o misterioso Mark Wickund), bem como todos os associados à Dharma Initiative costumam se despedir dizendo “Namastê”. Mas o que essa palavra significa?
Namastê é um cumprimento originário da Índia. Numa tradução do sânscrito bem ao pé da letra, nama significa “reverenciar” e “te”, você. Entretanto, seu verdadeiro significado é muito mais profundo, escondido na simplicidade de apenas duas sílabas. A “tradução” mais frequente seria “O Deus que habita em mim saúda o Deus que habita em você“. O gesto não apenas virou um cumprimento tipicamente budista mas também resume claramente a filosofia criada pelo Buda histórico.
É um cumprimento completamente diferente de um “Olá, adeus, Deus te abençoe“. Namastê traz o sagrado para dentro de cada ser humano, e como a filosofia budista afirma, Deus não está no céu, num templo ou mesmo na natureza. Deus está em tudo, em cada um de nós e qualquer dissociação da imagem do divino da nossa é inútil. Ao fazer namastê, afirma-se que todos somos filhos e partes do sagrado, indissociáveis e iguais.
No Namastê, as mãos se encontram na altura do coração, simbolizando a união das polaridades, esquerda e direita, bem e mal. É mais uma lembrança da nossa unidade com Deus e o universo. Frequentemente fecha-se os olhos, para então curvar-se a coluna, em sinal de respeito à divindade que preenche todos os espaços do universo. A coluna retorna à posição ereta mais lentamente do que quando abaixou, também simbolizando respeito à outra pessoa.
Agora, todo mundo aqui já pode fazer Namastê!

“A cada 108 minutos, você deve digitar… peraí, começa de novo! Gravando!”
Aham
Não repare se o blog parecer estranho nos próximos minutos, estou testando uns templates e plugins novos. ![]()
Lost! Pôster da terceira temporada! (Pode conter spoilers)
YES!!! Saiu o pôster da terceira temporada de LOST! Especialmente para o meu amigo Michel, que odeia spoilers, separei esse post numa página separada, onde tem também uma cena pra lá de constrangedora envolvendo nossa querida Kate. Para ler, clique abaixo.
O tiozão do UOL Fone

Nada contra tiozões japoneses (tem um lá em Santos), mas alguém me explica esse garoto propaganda do UOL? É sem dúvida o mais inusitado que já vi. ![]()
http://fone.uol.com.br/
Lostcast
Está de ressaca de Lost? Perdeu o rumo de casa após o último episódio? Pois é, os apressadinhos como eu estão sofrendo essa mesma agonia há meses a espera da terceira temporada. Agora me responda: quem é que vai aguentar esperar a Axisene (ou pior, a Globo) passar? Deus abençoe o Bittorrent!
Pra você que está louco pra falar sobre a série mas não tem mais ninguém que aguenta seu papo repetitivo, dê uma olhada no Lostcast: http://lostcast.com.br/Lost/Lost.html . Em português, o podcast traz comentários sobre os episódios da segunda temporada. Nada revelador (entenda-se útil), é verdade, mas pra quem gosta…
Aliás, alguém tem podcasts interessantes para indicar?
ACB
Allan Sieber, sempre genial:

Mártir
Acho engraçado esse papo de alguns diretores que adoram dar uma de mártir e dizer que “no começo ninguém acreditava que o filme seria um sucesso”. Como no primeiro Super-Homem, de 1978. Peraí, como é que ninguém acreditava num filme que foi gravado em 5 países, tinha Gene Hackman no elenco, um Marlon Brando que ganhou 3.7 milhões de dólares por 4 minutos de fita e um Richard Donner que dirigiu por um absurdo 1 milhão de dólares para a época? Eu acreditaria até num filme do Chefe-Apache assim!
A mesma coisa acontece com Piratas do Caribe. Adoram dizer, a torto e a direito que ninguém esperava que o filme fosse um sucesso. Das duas uma: ou os produtores sabem de alguma coisa que nós não sabemos, ou então eles contrataram Jonnhy Depp sem olhar o currículo dele.
Os exemplos são tantos que o discurso chega a entediar. Matrix, X-Men, De Volta para o Futuro… parece que todo blockbuster nasceu fadado ao fracaso. Por mais que eu tente acreditar, não consigo imaginar alguém dizendo: “Tudo bem, pegue esse cheque de 100 milhões de dólares e contrate o Keanu Reeves, mas lembre-se: eu não acredito em você e no seu filme de m#@#!!”
Outra coisa que me irrita são essas histórias que autores rancorosos adoram contar sobre as editoras que negaram publicar seu best seller mundial. Como J.K. Rowling, cujo Harry Potter foi negado por 7 editoras. Oras, eu diria que ela teve muita sorte em ter levado apenas 7 “nãos”. Qualquer um que escreve livros sabe como as editoras funcionam; o fato de elas negarem esse ou aquele original muitas vezes não tem nada a ver com sua qualidade, mas N outros motivos como por exemplo; a linha editorial, seu fluxo de caixa e o planejamento da editora, muitas vezes feito com meses ou anos de antecedência. Não dá pra sair publicando qualquer coisa que aparece; por mais potencial que ela tenha.
Eu realmente não lembro quantas editoras disseram “não” para o meu livro. Sei lá, umas 10, 12? A maioria nem se pronunciou. Mas se tem alguma coisa que aprendi na vida é que ninguém é obrigado a acreditar em você senão você mesmo. O resto é consequência.




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