Silêncio - YabloG!

Silêncio

agosto 30th, 2006 | Por Fábio Yabu em Crônicas

Já reparou no cheiro do vento naqueles dias em que faz sol o dia inteiro e a noite esfria de repente? É difícil descrevê-lo, eu diria que é uma mistura de grama e terra seca com orvalho da manhã, embalados em ar seco. Talvez você se lembre desse cheiro, já eu nunca vou esquecê-lo.

Naquela noite a gente resolveu ir para a varanda, como fizemos tantas outras vezes. Pra conversar, ouvir a voz do outro, dar risadas.

Ficamos sentados lá por meia hora, quarenta minutos. Mas daquela vez foi diferente. Nenhuma palavra foi dita, nenhuma comunicação verbal foi estabelecida, enquanto o silêncio preenchia toda aquela varanda e se extendia para o mundo. E não havia incômodo, não havia urgência em falar, trocar opiniões, discutir. Tudo o que nos interessava era o silêncio; a mágica que se manifesta quando você para de falar e começa a ouvir.

Ouvir o coração. Ouvir com o coração. Não é poesia, as palavras são desajeitadas mesmo, isso é o mais próximo que se consegue com elas. Por isso é tão bom calar.

Silêncio. Bolinhas pretas cobriam o galho de uma rosa num vaso, mas naquele dia eu resolvi não tirá-las. Carros e motos passavam na rua tentando nos atrapalhar, mas nada no mundo poderia interromper uma conversa tão importante. Uma luz se acendeu numa janela próxima, e pude ver alguém sentando em frente ao computador.

O cheirinho do vento me lembrava do quanto o dia havia sido quente; a brisa geladinha trouxe alívio e virou uma lembrança gostosa daquela noite estrelada. Alguém tentou sujar o vento com um cigarro fedido, mas o cheiro logo sumiu. Vez por outra nos dávamos as mãos, quietos, e a luz da janela apagou. Nem vi o moço sair.

Uma hora o esquilo resolveu sair da sua caixinha. Ele veio até meu pé, mordeu a minha meia e dei risada. Ao ver que não tinha nada interessante, ele resolveu continuar sua ronda noturna depois de ganhar dela uma semente de girassol. Ele não agradeceu, e nem poderia, mas quem disse que precisa? Os homens é que inventaram essa tal de expectativa, que frustra e magoa quem depende dela para viver. Esperto é o esquilo, que a essa hora já juntou um monte de semente de girassol no seu cantinho. Não pediu por favor e nem disse obrigado uma só vez.

Essa foi mais uma lição que aprendi naquela noite. O silêncio continuava falando, nos dizia muitas coisas importantes. Dizem que a gente tem que encontrar pessoas com quem possamos conversar; eu acho legal, mas também é ótimo encontrar gente com quem a gente possa ficar quietinho.

Andar pela rua, sentar na varanda, viajar de carro falando pouco e aprendendo muito. “Olha“. “Legal“. “Viu?” já bastam para horas e horas de discussão silenciosa e filosófica.

Uma hora resolvemos entrar. Com um beijo geladinho no canto dos lábios, ela me disse “Obrigada por existir. Eu sempre estarei aqui” e eu respondi “Eu também“. Tudo sem uma única palavra.

You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 Both comments and pings are currently closed.

8 Comentários



  • Twitter
  • Facebook
  • YouTube