O Presente - YabloG!

O Presente

setembro 26th, 2006 | Por Fábio Yabu em Crônicas

Quantas vezes uma coisa assim pode acontecer na vida?

Eu havia ido para Santos passar meu aniversário com minha família. Ao chegar ao prédio onde cresci, olhei para a janela da sala e vi um vulto acenando para mim. Meu irmão, que estava ao meu lado disse “Putz, quem é?“. Porque, convenhamos, alguém acenando para você na janela da casa dos seus pais não pode ser coisa boa. Nunca é.

Subimos apreensivos. Entrei em casa correndo, evitando a sala, e puxei minha mãe pro meu quarto. “Mãe, quem tá aí??“. “Vai lá ver!”. “Não, mãe! Não brinca com essas coisas!“. “Vai lá ver, bobo!“. “Não, mãe! Não faz isso comigo, vai que é uma tia que eu não lembro o nome, aí ela vai ficar constrangida e eu também“. Meu argumento venceu e minha mãe disse: “É a Dulcelina“.

Putz.

Meu coração desmontou na hora.

Dulcelina teve um papel fundamental no início da minha vida. Durante sete anos, ela trabalhou na casa da minha família, cuidando de mim e dos meus irmãos. Trocou fraldas, levou para a escolinha, fez comida, limpou a bagunça, viajou conosco, até que, aos  cinco anos eu a vi na cozinha dando um forte abraço na minha mãe. Não lembro se elas choravam, lembro só da minha mãe agradecendo muito e dando a ela um maço de notas da moeda vigente na época. Um pequeno agradecimento pelos anos de dedicação. Então, Dulcelina chegou para mim, abaixou-se e disse “Tchau, Fábio” e tudo o que eu pude dizer foi “Tchau“.

Eu nunca esqueci esse “tchau”. Logo depois chegou o que chamo de “Dulcelina Genérica”, tanto que se chamava “Dulcinéia” (podia ser “Dulcinérica”). Mas ela não durou nem um mês, não se adaptou e meu irmão morria de medo dela. Ela foi a última moça a trabalhar em casa. E desde então eu me perguntava, “mas cadê a Dulcelina?”

A Dulcelina estava lá aquele dia, para me ver no meu aniversário, 21 anos depois daquele “tchau”. Vinte e um anos depois, os rostos mudaram muito, e ela perguntou “Esse aí é o Fábio?”. Antes de abraçá-la as palavras saíram na frente e disseram “Eu lembro do dia em que você foi embora…“, um jeito improvisado de pedir desculpas por aquele “tchau” tão desajeitado.

Memórias desenterradas, tesouros descobertos. Dulcelina falava, ria, tirava sarro dos cabelos brancos do meu pai, contava com orgulho o quanto aqueles tempos haviam sido difíceis. Era uma época terrível para se ser professor e ter três filhos “o cabeça branca aí (meu pai) demorava mas pagava!“. Ela ainda está jovem (42 anos, começou lá em casa com 17), com a mesma energia e bom humor de sempre, e enquanto ela falava e ria eu ia vendo os primeiros anos da minha vida serem reconstruídos na minha frente.

Minha mãe estava impressionada com o quanto de memórias eu guardei daquela época. Mas como seria diferente? As crianças são ótimas em guardar no coração as coisas que realmente importam, e pelo visto a Dulcelina também. Perguntei a ela “Você não tinha um colchão cor de rosa, com flores brancas no seu quarto?” e ela fez um “sim” com a cabeça, sorrindo. Aquele colchão durou muitos anos, e sempre que eu o via lembrava dela. Um dia ele ficou manchado, provavelmente de tão velho, e pensei “mas quem sujou o colchão da Dulcelina??“.

Naquele dia, tudo naquele apartamento mudou de cor e forma. Os móveis que resistiram ao tempo ficaram muito mais altos do que eu; a mesa da cozinha ficou mais fina e mais simples, o chão cobriu-se do famigerado carpete marrom que ela tanto odiava limpar. E lá no cantinho da sala eu estava com meus irmãos, brincando e vendo os desenhos da Xuxa com ela.

Eu não sei quantas vezes um momento desses pode acontecer na vida; mas acredito que sejam poucas. Por isso mesmo são tão especiais.

Depois da “festinha”, foi a minha vez de levá-la para casa. Era o mínimo que eu podia fazer depois de ter sido levado tantas vezes por ela. Mas dessa vez ao nos despedirmos, não fui nem um pouco sucinto. Fiz questão de dizer o quanto ela havia sido especial para mim e para minha família, e que gostaria muito de vê-la em breve e conhecer sua filha adolescente. Dulcelina pos a mão no meu rosto, acariciou a barba que não existia há 21 anos e disse: “Fábio… que saudade eu senti de você, meu menino… que saudade…

Eu também, Dulcelina…

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