Profissão: Menino - YabloG!

Profissão: Menino

novembro 27th, 2006 | Por Fábio Yabu em Crônicas

Eu não era do tipo de criança que queria ser astronauta, jogador de futebol, ator de Hollywood, super-herói e presidente quando crescesse. Me lembro da primeira vez que me fizeram a infame pergunta: “O que você vai ser quando crescer?”. O negócio me pegou de sopetão, mas que pergunta idiota, então respondi com a lógica de uma criança de 5 anos: “Vou ser menino, ué!”. Alguém riu, meu pai deve ter respirado aliviado, e a vida seguiu em frente.

Os anos foram passando e vez por outra vinham me perguntar de novo. O que tinha de errado em querer ser só um menino? Parecia que todo mundo queria que eu fosse alguma coisa, então resolvi pensar a respeito. Como o tal do “quando crescer” parecia muito subjetivo, aos oito anos fiz as contas e descobri que no ano 2000 eu já seria gente grande, o que me deu com o que trabalhar pelos anos vindouros. Até teria funcionado se eu não estivesse ocupado demais jogando Alex Kidd e vendo Changeman.

Nas vésperas do colegial, no longínquo 1994, a pressão começou a aumentar, porque o “crescer” já estava chegando. “Já sabe o que vai fazer?”, “Vai dar pra passar no vestibular?” perguntavam os engraçadinhos. E eu ficava puto da vida. Como assim, escolher profissão? Eu nunca peguei um ônibus sozinho na vida e vocês querem que eu escolha uma profissão?

Empurrei a questão com a barriga que eu ainda não tinha até o final do colegial. Prestei uns 2 ou 3 vestibulares, nem lembro mais do que, passei em todos mas não me matriculei em nenhum curso. Ainda não havia decidido o que queria. Numa sexta-feira à noite minha mãe me disse: “Vi uma faixa na rua, amanhã tem vestibular pra Publicidade na faculdade aí do lado, quer ir?”. Aí eu falei “Por que não?”.

(Não é à toa que a faculdade de PUBLICIDADE era ruim, veja como a minha mãe ficou sabendo do vestibular)

Fui. Dormi na prova. E passei. Fiquei um ano e meio e depois já havia largado o curso. Estava em casa de novo perguntando o que eu queria fazer da minha vida maledeta. Tentei de novo, entrei na faculdade de Desenho Industrial em São Paulo e em seis meses já havia trancado a matrícula e jogado a chave fora.

(Acredite, até hoje tenho sonhos em que estou na sala de aula da faculdade me perguntando três coisas: como fui parar ali, como faço para escapar e do que era a prova mesmo? A última vez foi semana passada.)

Ano passado eu fui padrinho em um casamento civil e o juiz me perguntou “Profissão do padrinho?” eu olhei pro noivo, pra noiva, pro juiz e falei desesperado “EU NÃO SEEEI!”. Ficou aquele silêncio, alguém falou “ele faz gibi”, “não faço mais”, “ele tem uma empresa”, “fechei”, “você não escreve livros? então é escritor!”, “mas só lancei um livro, não sei se conta”, “claro que conta”, “Augusto dos Anjos também só escreveu um livro”, “ah, é?”, “aham, profissão do padrinho..?”, “põe escritor aí”, “você desenha também, né?”.

E ficou por isso mesmo. Virei escritor. Mas na verdade até hoje não sei direito o que sou, não consigo me rotular de nada. Nem escritor, nem desenhista, nem roteirista, nem vegetariano, nem budista, nem esquerda, nem direita. Na real eu tenho um pouco de medo dessas pessoas que se rotulam tão facilmente sobre o que são e o que querem ser, e esquecem das infinitas possibilidades que a vida oferece. No final das contas, estou satisfeito em ser apenas um menino, exatamente como queria aos cinco anos.

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