A Rádio Band News está promovendo uma enquete entre seus ouvintes para eleger as “7 novas maravilhas de São Paulo”. Comecei a fazer uma listinha das minhas preferências aqui, mas em dia de greve de metrô acho que ninguém consegue amar muito essa cidade. Então fique agora com as coisas que mais odeio na ex-Terra da Garoa!
7. Motoboys
Não é a classe em si, mas essa irritante mania que paulistano tem de que tudo é pra ontem, pra hoje ou em 28 minutos. O resultado dessa tensão toda são os pobres diabos que cruzam a cidade pra cumprir prazos impossíveis e morrem à taxa de um por dia. Na avenida que tem aqui perto de casa tinha até um placar dizendo quantos motoboys tinham morrido lá até o momento.
Acho que a vida na cidade grande tem dessas coisas – as pessoas fazem o que fazem, são o que são, simplesmente porque todo mundo é. Se elas realmente parassem pra pensar porque vivem tão stressadas e com tanta pressa, acabariam percebendo que não estão indo mais rápido pra lugar nenhum a não ser o cemitério.
6. Poluição visual
Os publicitários choraram, espernearam e fizeram bico (bem feito, rá), mas a verdade é que a Lei Kassab deu uma bola dentro ao abolir os outdoors e regulamentar o tamanho das fachadas do comércio. A cidade está visivelmente mais organizada e menos feia, mas ainda tem muito o que se fazer (a primeira coisa seria tirar a cara do Lima Duarte do único outdoor remanescente na Avenida Brasil). Muros e prédios sujos e pichados, ruas e calçadas mal cuidados, praças que viraram criadouros de mosquitos e focos de dengue no verão. Pelo menos a população parece ter percebido e apoiado as mudanças, o que é essencial para qualquer transformação de verdade aconteça.
5. Poluição poluição mesmo
Não sei por que aquele pessoal do Lost foge tanto do monstro de fumaça preta conhecido como Lostzilla. Coisa mais normal. Monstros iguaizinhos são vistos aqui todos os dias, a qualidade do ar beira o apocalíptico, e só tende a piorar com os 500 novos carros que são adquiridos todos os dias.
E não falo apenas da poluição do ar. Em São Paulo a gente tá tão acostumado que nem percebe o quanto as ruas são sujas e as calçadas cobertas por uma crosta preta de fuligem, restos de papel, comida e bitucas de cigarro, que entopem os bueiros e causam enchentes.
4. Trânsito e sistema de transporte público
Cada vez que pego trânsito eu me pergunto que diabos estou fazendo nessa cidade de doido. O trânsito individual é caótico, mata milhares por ano e polui o ar, o transporte coletivo é ineficiente e nos horários de pico beira o desumano. O Metrô, símbolo do desenvolvimento da cidade, não cobre nem de longe as necessidades da população, e é vergonhosamente inexpressivo se comparado a outras metrópoles do mundo.
3. Violência
Auto-explicativo. É triste, é vergonhoso, é revoltante, mas a verdade é que se você ainda não foi assaltado, roubado ou baleado, está apenas enganando as estatísticas.
2. Desigualdade
Meu condomínio fica numa rua alta, de onde dá pra se ter uma visão bem ampla do bairro. Se eu olhar para um lado vejo casas e condomínios de classe média alta em ruas tranquilas e arborizadas, se olhar para o outro vejo casas bem simples e prédios abandonados e se tivesse visão de raio-x, veria a maior favela de São Paulo escondida atrás dos prédios cercados por seguranças.
A desigualdade aqui é tão gritante que as pessoas acabaram ficando surdas a ela. É muito raro não encontrar em cada cruzamento da cidade crianças fazendo malabarismo, pedindo dinheiro ou vendendo balas. A novidade agora é elas levantarem a camiseta na frente do motorista – pra mostrar que não estão armadas.
1. Invisibilidade
Não sei o que acontece nessa cidade. Talvez sejam os carros, talvez seja o medo da violência, talvez o competitivo mercado de trabalho ou então o resultado de todos os fatores acima somados. Mas é muito estranho como aqui, mais do que em qualquer outra cidade que conheço, as pessoas são mais fechadas e individualistas. Não que eu saia dando bom dia pra todo mundo na rua, na verdade eu nem poderia porque aqui as pessoas simplesmente não se olham/falam.
Por exemplo, aqui no meu condomínio, onde moro há cerca de 5 anos. Devo ter uns 300 vizinhos, mas só sei o nome de três, sendo que um deles conheci numa briga. Às vezes nem aquele “bom dia” no elevador rola, isso quando o sujeito tem a decência de te esperar se ele estiver entrando.
Parece que as pessoas aqui se acostumaram a viver dentro de um campo de força que as torna invisíveis, separadas das emoções e do mundo exterior de tal maneira que mesmo entre amigos a palavra parece valer pouco. Por mais que as pessoas digam “Vamos ’se’ encontrar“, “vamos combinar alguma coisa“, “aparece lá em casa“, no fundo tudo acaba sendo um grande teatro pois todos vivem “na correria” e sem tempo umas pras outras. A cidade deixa as pessoas tão malucas que é absolutamente normal se você não liga, não aparece ou não se importa. Triste.

Blog pessoal de Fábio Yabu, desenhista e autor de livros infantis, criador de "Combo Rangers", 






Mila |
sexta-feira, 3rd agosto 2007 at 9:01 am