(Pra variar, outro texto que começa de um jeito e termina nada a ver)

Fim de semana verdadeiramente adorável, com dois dias de jogatina cercado por amigos queridos. Sábado teve Wii Sports e Zelda na casa do Forlani, com vinho e charutos (!), ao som de Amy Winehouse. É uma daquelas combinações tão inusitadas que você nunca pode tentar fazer de novo porque não vai dar certo.
No domingo joguei um pouquinho em casa. Brinquei um pouco com Super Paper Mario, que é excelente. Eu só havia jogado o do 64, que era muito bom mas um pouco parado às vezes. Achei que o novo dá de 10 a 0. E também comecei The Legend of Zelda – Twilight Princess. Que coisa linda de Meu Deus!! Ainda não deu tempo de ver muita coisa, ainda estou no primeiro labirinto, mas é delicioso poder ver Ocarina of Time ecoando por todos os cantos do jogo. Será esse o melhor Zelda ever? Responderei isso em algumas semanas…
Depois da jogatina individual, levei minha sobrinha Nara para a casa da vovó e vi que ela já está bem mais adiantada do que eu (mas ela começou antes, tá?). Lá, ainda deu tempo de jogar Wii Sports com o Tomás e de novamente levar uma surra no Tennis. Pelo menos o Lucas e o Kimi conseguiram salvar a minha honra… HIGH FIVES!! E a trilha sonora da vez era novamente, a melhor banda do mundo… Tenacious D!
Enfim, agora vou contar uma historinha chamada… “Como Zelda mudou minha vida“.

Tenho um carinho muito especial por Zelda. Quando joguei Ocarina of Time pela primeira vez em 2001, eu sabia que estava entrando numa jornada da qual eu sairia transformado. Exagero? Escuta só.
Naquele ano, os Combo Rangers estavam num momento delicado. O site estava bombando, porém as vendas das revistas oscilavam entre o razoável e o “e agora, como vou pagar meu aluguel?“, mas estava dando pra levar uma vida regrada e sem muitos luxos. Eu estava achando que já era hora de criar novos personagens e aventuras, e a minha única premissa era de que meu novo projeto seria algo completamente diferente do anterior. Algo totalmente irreconhecível se não fosse pela assinatura, que aliás eu nem tenho.
Resolvi recomeçar do zero e escrever para outro público, que nunca havia ouvido falar de mim. Já havia feito os primeiros rabiscos das Princesas, uns desenhos bem mequetrefes, mas por mais que eu rabiscasse e procurasse técnicas e referências diferentes, sempre saía algo mais ou menos com a minha cara. Eu fazia algo meio mangá, mas queria ir para o outro lado. Queria algo mais cartoon, menos viciado, menos eu. Na real eu tava é meio de saco cheio de mangá, animê e gente de cosplay pulando no meu pescoço. Puta mico!
Foi quando meu brother Renk me mostrou um videozinho numa noite de sábado que simplesmente mudou tudo. A luz se fez, o bicho pegou, a casa caiu. O vídeo era a primeira demonstração do novo Zelda para Gamecube, que só seria lançado dali a um ano.
(Putz, ainda sinto arrepio quando vejo)
Eu sempre acompanhei Zelda meio de longe, pois fui criado com Master System e Mega Drive, numa infância alegre em que Metroids, Castelvanias e Megamans só eram vistos nas casas de meus amiguinhos. Eu sabia que havia algo errado comigo, mas era covarde demais para admitir. Eu me divertia, mas eles se divertiam MAIS. Eu era feliz, mas eles eram MAIS. Que diabos, a culpa era do videogame? Eu tentei me iludir, mas a coisa só piorou quando um dia saiu Street Fighter 2 para Super Nintendo.
Aí eu quis morrer, né. Mas enfim, meses depois o jogo também saiu para Mega Drive, o Sonic deu uma balanceada, e eu continuei me enganando achando que podia viver num mundo sem Nintendo.
Voltando ao fatídico dia de 2001, quando vi o vídeo pela primeira vez. Eu fiquei maluco, alucinado, me joguei no chão enquanto meus amiguinhos voltaram do passado para me assombrar e aquecer meu corpo congelado pelas chamas do inferno com sua uréia acre e fétida. A Nintendo era mais legal, sempre foi mais legal, e só depois de adulto eu tive os culhões para admitir! E mais do que isso, foi naquele videozinho de 55 segundos que encontrei a principal influência para o novo e mais importante trabalho da minha carreira até então.
Os traços simples, as cores fortes e sem contorno, os olhos expressivos, a animação suave. Na época eu gostava muito de Samurai Jack, mas queria algo mais bem resolvido e tridimensional. E também admirava muito o estilo de Bruce Timm, que com seu Batman revolucionou a animação dos US and A. Resolvi estudar a fundo essas três influências, e em particular, o novo Zelda, que por sua vez era influenciado pelo trabalho genial de Hayao Miyazaki (de Meu amigo Totoro, A Viagem de Chihiro e tantos outros) e um animê clássico de 1971 chamado Os animais e a ilha do tesouro, de Hiroshi Ikeda.
Ainda que a direção de arte do jogo (que viria a se chamar The Wind Waker) fosse algo totalmente inédito na franquia, eu queria entender aquela magia o jogo exalava. Peguei então o N64 do Kibe e debulhei Ocarina Of Time até o fim. Depois ainda joguei Majora’s Mask mas desisti no meio, tudo isso em um ano, tudo isso para me preparar para o lançamento de The Wind Waker. O jogo saiu em 2002, e sim, eu comprei o GameCube só por causa dele. Na verdade eu saí de casa doente, depois de três dias de cama e morrendo de febre só pra comprar o diacho do videogame. Se valeu a pena? Eu escaparia de uma prisão no Panamá só pra fazer isso de novo.
Depois de dois anos, em 2004, meu primeiro livro, Princesas do Mar, foi lançado. O livro já teve duas sequências, a quarta está programada para o ano que vem, quando o desenho animado estréia em diversos países do mundo. Às vezes nem eu acredito.
A influência artística de The Wind Waker e seu criador, Shigeru Miyamoto em meu trabalho são inegáveis e minha gratidão e o carinho são eternos. Mas a principal lição que aprendi foi que, se eu quisesse sobreviver e me estabelecer como artista, eu precisaria romper radicalmente com o meu passado e me reinventar a cada novo trabalho. A vida é feita de fases repletas de perigos e aventuras, que passamos e também inventamos. Ser um herói é muito mais do que receber uma espada e um escudo, é encará-los de frente, de maneiras diferentes e criativas. É assim, eu aprendi, que lendas são feitas.

Link: “De uma vez por todas… MEU NOME NÃO É ZELDAAAAAAAAAAAAA!“

Blog pessoal de Fábio Yabu, desenhista e autor de livros infantis, criador de "Combo Rangers", 






Tomy |
segunda-feira, 27th agosto 2007 at 9:44 am