Tesouros - YabloG!

Tesouros

setembro 6th, 2007 | Posted by Fábio Yabu in Crônicas

As vezes desanima um pouco dar entrevista. Em 90% dos casos, o repórter vem com aquelas perguntas do tipo “de onde surgiu a idéia…“, “qual é o seu sonho de consumo?“, “que mensagem gostaria de mandar pros nossos leitores?“, essas coisas manjadas de programa de auditório ou revista diagramada em PC. É muito difícil perguntarem coisas que realmente importam como “que música marcou sua vida?“, “você prefere o Batman ou o Super-Homem?” ou “onde está a sua saudade?“.

Mas tem entrevistas que são bem bacanas, como essa que vou dar na semana que vem. É algo bem diferente, pois vai tratar da minha família e das minhas raízes. Antes de sair marcando datas, o entrevistador pediu que eu descobrisse coisas sobre meus antepassados, como datas de nascimento, chegada ao Brasil e morte. Números que eu nunca havia parado pra pensar, talvez porque estivesse ocupado demais decorando meu CPF, RG, senhas de banco, da internet, números do cartão de crédito ou do Lost. Fui para a casa da minha mãe com a missão de descobrir mais sobre meu passado, e entre uma fotografia e outra, minha mente desempoeirava memórias antigas enquanto meus olhos criavam novas.

Na infância, tive a sorte de conviver bastante com meus avós maternos, que junto com meus primos e parentes de Birigui, faziam com que as redações sobre “minhas férias” fossem sempre iguais, mas repletas de parágrafos felizes. Mas
meus avós paternos eram mais distantes. Eu via meu avô uma ou duas tardes por ano e olhe lá. Já a minha avó nunca esteve por perto, e eu só vim a entender o motivo quando um dia, durante uma viagem, meu pai disse que iria visitá-la. Ele disse que eu não precisava ir e que seria rápido, e só então percebi que ele estava indo ao cemitério. Ela havia morrido muitos anos antes de eu nascer, mas pude conhecê-la suficientemente bem nas poucas vezes em que ouvia meu pai e seus irmãos, todos donos de vozes graves, mudarem levemente o tom ao pronunciarem a palavra “mãe”.

ba_chan1.jpg

Esse era o rosto dela. Hideko Sakamoto Yabu.

Outro rosto que eu não conhecia e que descobri na minha exploração é o desse senhor nascido em 1901. Kiyoshi Sato, lavrador. Meu bisavô, marido de Bum Sato, minha bisavó, que teve que esperar quase até os 100 anos para reencontrá-lo.

odi_san1.jpg

Deveriam inventar uma palavra nova para a sensação que tenho ao olhar a foto dele. Sei lá, eu vou escrever pra Brasília e sugerir algo bem infame como “curiosaudade”. Vai que pega. “Curiosaudade” é exatamente o que sinto ao ver esse senhor japonês aparentemente estrábico. Eu olho pro seu semblante sisudo e quero fazer uma verdadeira entrevista; só com coisas que realmente importam, “a quem você ora?“, “você encontrou seus sonhos aqui?“, “que histórias sua mãe lhe contava?”, “quais você contou para a minha avó?“, “ah, você gosta de mangás?“, “sabia que você tem dois tataranetos?”. Quero saber tudo, quero contar tudo, quero saber se ele se vê em mim, e se o rosto que vejo no espelho tem algo dele (além das entradas -_-).

Também quero dizer que sou grato pela vida que ele levou no Japão, por ele ter embarcado no navio Manira Maru, em busca da Terra Prometida, onde ele veio trabalhar numa lavoura de café. Entre os tesouros que ele deixou, estão lindas esculturas de madeira, essa foto, datada de 1939, a minha vida e de tantas pessoas que amo. Domo-arigatô, Odi-san!

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11 Responses

  • enzo davide says:

    ola Fabio nao sabia que tinha esse blog,achei ontem vasculhando umas coisas na net.
    entao estava aqui lendo e vi esse que era meu avo,mas nunca o conheci,entao nos somos o parentes?rs
    abraço

  • thahy says:

    é…
    coisas do sangue, neah

  • unk says:

    Lindo, cara! Muito legal poder resgatar um pedaço do passado assim. Estou curioso pra ver a entrevista.

  • [Comment ID #60021 Will Be Quoted Here]

    Pois é, acho que é mais um motivo pra guardarmos com carinho as nossas próprias informações, pra que um dia nossos descendentes possam aprender mais sobre nós.

    Quanto ao tataraneto, a resposta está no Houaiss:

    Tataraneto

    Acepções
    ■ substantivo masculino
    m.q. tetraneto

    Etimologia
    orig.contrv.; ger. considerado alt. de tetraneto; segundo Nascentes, do port.ant. trasneto (m.q. bisneto) fez-se *traneto e ao seu filho chamou-se *tratraneto, e daí, por dissimilação *tatraneto, por suarabácti tataraneto; a f. tetraneto é, segundo ele, criação erud. moderna; o el. tatar(a)- passa a ser us., p.ana., em tataravô e outros voc.; f.hist. 1721 tataraneto, 1721 tartaraneto

  • Amicow says:

    Gostei muito do seu post sobre seus ascendentes.. também tenho curiosidade para conhecer os meus, mas já tentei e são muito poucas as informações que existem de fato.

    Mas enfim.. só pra ser chato um pouco:
    não existe tataraneto/tataravô.

    na verdade o que existe é avô, bisavô, trisavô, TETRAvô, pentavô… etc, etc, etc.

    pegaram o tal do TETRAvô e transformaram em TATARA.. acho que foi o Chapolin que fez isso com o “tatatatatatataravô”
    uahuahuahuahu

    abraço!

  • Tomy says:

    Que post bonito :)

    Quem vai te entrevistar na semana que vem?!

  • Érika says:

    Lindo post!
    Fiquei com lagriminha nos olhos… lembrei dos meus avós que já morreram, com peso na consciência de não dar atenção suficiente pra minha ‘Obá’ quando ela fica me mostrando fotos antigas como essas ai…
    Fiquei com vontade de pesquisar sobre minha família também…

  • Filyppe says:

    UOU!

    Um post sobre origens, família, herança e entrevistas.
    Muito bacana, lendo senti a mesma emoção de ver O Rei Leão!

    Mas, fiquei com vergonha de cobrar você aquela entrevista que vc me prometeu…

    Vai parecer plágio de você!

  • Luis Gnort says:

    Legal, Yabu. Deu vontade de ir atrás das minhas raízes. Minha família deve ter chegado na mesma época que a sua, só que vinda da Itália.
    Mas, vamos pro mais importante: você é parente da Sabrina Sato por parte de bisavô? Se sim, me apresenta?

  • alex says:

    ah…que show.
    posta a entrevista ae depois….



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