Merda pra você
setembro 13th, 2007 | Posted by in CrônicasEu tinha uma grande amiga, sabe? Há mais de 10 anos, íamos pra escola juntos, estudávamos para as provas, fazíamos trabalhos e, junto com nosso professor de matemática alcoólatra e nossa professora de sociologia semi-analfabeta, sepultávamos de vez o ensino público no Brasil. Era divertido.
Aí veio a formatura, a faculdade, os anos passaram e a vida naturalmente nos separou. Nada contra também, acontece, ué.
Depois de uns anos a gente se reencontrou. Eu não achava que as coisas seriam como antes, aliás, a coisa mais deprê que tem é encontrar amigos da adolescência e ver que eles continuam ouvindo Legião Urbana. Aí eu entendo porque a vida fez questão de nos separar. Mas enfim, foi legal reencontrá-la, sabe? O ambiente era outro, ao invés do refrigerante e da coxinha na cantina da escola, ela tomava vinho e eu comia um prato vegetariano sem gosto mas maior saudável. Saímos outras vezes pra comer pizza, sushi e fatias de peixe que custavam mais do que nossas mesadas no tempo da escola. Isso é uma das coisas legais de ser adulto, quando você tem que pagar pela própria comida você é obrigado a apreciá-la.
Conversávamos sobre um monte de coisas, ela me falava do trabalho e das viagens ao redor do mundo, de quem ela achava que ia ganhar o America’s Next Top Model, dos caras que ela tinha sacaneado e vice versa. Ela falava do sonho em fazer teatro, e eu, bom amigo que sou, dava o maior apoio. Até porque eu achava que seria só uma fase.
Ela foi lá e se matriculou no curso. E eu até fui pagar mico assistir a primeira aula com ela. Fingi que era semente, árvore, onda do mar. E a partir daí, todas as vezes que a gente se encontrava era uma alegria. Pro inferno o mundinho corporativo, as melhores práticas, as milhas aéreas acumuladas pra fazer apresentações em Powerpoint. O papo agora era como o teatro era maravilhoso. Teatro performático, horizontal, vertical, perpendicular. Ela só pensava em rasgar o MBA e tirar o DRT.
E eu lá ouvindo pacientemente aquela fase que parecia que ia demorar mais do que os três anos do colegial.
Mas beleza, sabe. Eu sou brother mesmo.
“AAahh mas os amigos do teatro.”
Porque assim, sabe. Se tem algum amigo meu na merda eu sou o primeiro a chegar e oferecer a mão.
“Tão legais os amigos do teatro. Tão descolados!”
Se o cara não quiser, beleza, eu me afundo na merda e a gente só sai de lá junto.
“Eles fazem malabares.”
Porque os amigos são a família que a gente escolhe, né?
“Se pintam de palhaço nos shows do Teatro Mágico.”
Mesmo quando eles fazem coisas esquisitas. Brodagem, cara. Brodagem é isso.
E o brother aqui seguiu firme, ouvindo sobre os amigos engolidores de espada, fogo e ácido desoxirribonucleico. Foi então que eu peguei carona num pequeno hiato formado entre a sinopse de uma peça sem sentido e outra e falei todo feliz:
“Ah, então. Vou viajar mês que vem. Vou pra Europa.”
“Ah, que bacana. A Europa é outra coisa, né?”
“É, outra coisa. (???)”
“Legal. Sucesso pra você. Olha só, eu te falei que vou fazer a dancinha do Máskara no teatro?”
(…)
Manja quando a cena congela ao som de um skratch? Naquela hora eu virei o rosto pro lado, arregalei os olhos e enquanto enumerava 42 razões pra eu ter odiado o Máskara, tentava me lembrar aonde ela esteve nas últimas 17 vezes em que saímos pra não saber patavinas da minha vida. Tipo, ela não perguntou se eu estava indo a passeio, a trabalho ou pra reabrir o Partido Nazista. Até porque eu nunca tinha falado nada por absoluta falta de oportunidade. Primeiro eu era soterrado pelas conversas sobre o trabalho, depois esmigalhado pelo teatro. Eu é que não queria estar por perto quando ela descobrisse as maravilhas da terapia ortomolecular.
Foi então que, Deus!, eu percebi ela nem sabia direito qual era o meu trabalho. Sei lá, alguma coisa com desenho talvez? Umas meninas pré-púberes seminuas no fundo do mar, né? Como num filme do Shyamalan, eu passeei por vários flashbacks com ela e vi que em nenhum deles eu era um personagem. Eu era só um coadjuvante, um fantasminha camarada, a claque que a aplaudia e sorria falsamente naquele insuportável curso de teatro.
Os flashbacks acabaram, eu voltei pro presente e ela fez questão de me lembrar a maldita cena de dança do Máskara.
Semanas depois, eu acabei indo na apresentação dela, ver a tal dancinha. Era só eu no meio de um monte de gente com sandália de dedo, bermuda, moleton e óculos retangular. Talvez eu não devesse, mas fui. Acho que eu devia isso a ela, e que no fundo quem estava errado na história toda era eu. Por desde o começo ter vestido a carapuça de amigão, chegado, brother e ter esquecido que amizade é uma via de duas mãos. No final da peça (bem chatinha por sinal) ela veio, me abraçou, agradeceu por eu ter ido e disse que não tinha muito tempo pra falar porque tinha que ficar com o “pessoal do teatro”. Claro. Mas disse pra eu ligar pra ela na semana seguinte pra gente sair e comer um sushi. Sei. Foi a última vez que nos vimos, eu não liguei, ela não ligou e tudo voltou a ser como era antes de nos reencontrarmos. A única diferença é que eu peguei uma puta birra de teatro.
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Fábio Yabu é escritor, criador de "Combo Rangers", 
Perder amigos é uma merda, principalmente quando não é a vida que te separa deles e sim eles mesmos, acaba estragando as boas lembranças e a ilusão de que tudo seria sempre igual entre vocês.
Belo texto.
Me lembrou uma situação que aparece acho que em uma das histórias da morte do sandman (ou em algum outro lugar o.0) que é quando você esta com uma pessoa que para você parece ter muita importancia, e você comenta um momento que foi fabuloso entre os doiis, e a outra pessoa simplesmente se esqueceu, não se lembra…
Belo texto!
[Comment ID #61994 Will Be Quoted Here]
Duh, é só baixar na internet.
[Comment ID #61850 Will Be Quoted Here]
Como não é coisa de Nerd? Querem me tirar a unica coisa que me faz me sentir especial? XD
Ah! É de nerd sim, vai. Afinal, quem mais seria maluco de colecionar revistas em quadrinhos que custam os olhos da cara? ^^’
Enfim, é uma merda mesmo vc conviver com alguem por tanto tempo e no final ver que vc é só “um carinha legal” que ela conhece e não o Fabio “um carinha legal que faz uns desenhinhos na internet, que publicou um livro que virou desenho lá ‘nasoropa’”. Meio como se vc fosse invisível e só estivesse ali para que ela não parecesse maluca ao falar sozinha…
É… É bem comum… Uma droga, mas comum…
Bom, eu ainda acho que vc devia zoar com ela e dar de presente um exemplar das Princesas, alo do tipo: “Olha só, fui numa livraria e pensei em vc.” XD
Sensacional esse texto. Me caguei de rir na parte do Teatro Mágico, bateu uma ‘semelhança’ =P
Yabu, sabe aquelas pessoas q mal acabaram de te conhecer ja começam a te paparicar, dizer que foi muito bom conhecer você e que você é um amigo mais do que super hiper especial? É quase 100% de acerto que essa pessoa é igual a esta usa “amiga” do texto.
Qual seu problema com óculos retangulares? =P
Eu hein… Ainda nem acredito que ela não sabia do seu trabalho. Até eu sei
Ei, mangá não é coisa de nerd. Foi-se o tempo que era
Hoje tem mangá pra todos os tipos, tamanhos e gostos. Não sou otaku babão, mas também não sou fã negligente =D
E, se tem um grupo a qual o mangá não pertence, é nerd. *Vê milhões de pessoas normais lendo Death Note e Naruto* Se bem que… Naruto conta?
eu já acho que se 1000 idiotas gostam de alguma coisa deve vai ver, sei lá, são 1000 idiotas, um numero grandinho.
I`m back!
[Comment ID #61272 Will Be Quoted Here]
Não foi um texto sobre o teatro em si, mas o retrato de uma cena onde o teatro era o pano de fundo. Se você ficou ofendido, me desculpe…
E não fico bravo quando falam de videogame é coisa de criança e mangá de nerd… porque são mesmo, ué!
O mundo é assim cheio de gente assim. Pessoas que colecionam “amigos” como se fossem figurinhas. Colam no álbum ( ou na agenda ) e esquecem em algum canto. É por isso que eu nem ligo de ser taxada de anti-social
Nem sempre é ruim ser coadjuvante. Um lance meio de ouvir mesmo, não é tão chato. Tem que entender que pessoas são diferentes. Algumas pessoas funcionam numa mão só, como você disse. Isso não tira a profundidade dela. Vai ser difícil essa menina se tornar sua melhor amiga, mas nem s[o de melhores amigas se vive o mundo…
[Comment ID #61326 Will Be Quoted Here]
Uma espécie de maluco que se orgulha de comer comida sem gosto. Precisa dizer mais?
Há algum tempo que vejo seu blog, mas só agora tive coragem de postar algo. >.
Pultz Yabu é tão ruim quando isso acontece né?Perceber que seus amigos só estão te sugando enquanto não arranjam uma coisa “melhor” para fazer.Ou então ver que na verdade o que eles querem é que você se de se f*** para se sentirem melhores.Bom acredite ou não, a ultima vez que eu vi isso foi tipo quinta feira no trabalho…
Valeu Yabu eu realmente me identifico com muita coisa que você escreve.
[Comment ID #61169 Will Be Quoted Here]
Acho que do pior tipo cara….
Haha! Male Unbounding, verdade!!
No caso do Yabu não foi “Male”, mas a referência foi válida! Eu ri.
Agora que eu vi uma incoerência no texto.. logo após “Se tem um, ou dois, ou três, ou mil idiotas que gostam de algo, não quer dizer que esse algo seja ruim.” era pra eu ter citado exemplos diferentes (isso que dá não revisar o texto antes de mandar).
Logo ali o certo seria:
Não é só porque aquele nerd da sua sala que não fala com ninguém gosta de mangá, que o mangá seja algo ruim. Não é só porque todos os mais espinhentos da sua escola gostem de video-game, que o video-game seja um veículo transmissor de acne. Da mesma forma que o contrário também se faz verdadeiro: não quer dizer que todos que gostam de algo sejam iguais. (aí continua o texto de onde parei).
Sorry.
E Yabu…
Cara, eu sou seu fã.
Se vc acha que só a história pode dar a alguém o título de escritor, eu começo aqui uma campanha para que você seja assim reconhecido, sabe?!
Se somos nós que fazemos a história..
Você descreve o sentimento de muita gente como ninguém..
Boa sorte nas próximas tentativas de amizade!
Bem, você tá generalizando de uma forma preconceituosa.
Você deve ficar terrivelmente bravo quando alguém fala que video-game é pra crianças. Ou que mangá é coisa de nerd. E está fazendo exatamente o mesmo que essas pessoas.
Eu frequento o teatro há uns 3 anos, e a quantidade de pessoas vestidas como você descreveu é mínima. Nem nas peças mais “undergrounds” tinha tanta gente pseudo-intelectual. Porém, é claro, teatro suga muita gente egocêntrica, devido à sua estrutura expositiva. Mas isso não quer dizer que o Teatro seja uma porcaria. Se tem um, ou dois, ou três, ou mil idiotas que gostam de algo, não quer dizer que esse algo seja ruim. Não é só porque tem milhares de brasileiros que gostam de axé que todos os brasileiros gostem. Não é porque quase todo mundo se mata de beber e fazer baderna no carnaval que você ou eu façamos isso. E vou até mais longe: não é porque algum pobre marginalizado roubou sua carteira que todos os pobres sejam ladrões. Na realidade não quer nem dizer que 0,5% ajam de má fé nas suas atitudes.
O que acontece, e o que aconteceu no seu exemplo, foi que apenas um indivíduo acabou destruindo com a imagem de toda uma classe.
Por isso é bom repensar várias vezes antes de ficar bravo com alguém que teve algum preconceito em relação a suas atitudes. Afinal, você mesmo semeia isso.
[Comment ID #61143 Will Be Quoted Here]
Às vezes eles também são de História, ou Geografia…
Muitos fumam maconha e curtem também o Lenine e o Zeca Baleiro.
Ahh.. e eles andam com aquelas roupas tipo “Pai Helinho”, vários colares de sementes e algumas pulseiras de coro.
Quando precisam fazer provas, sempre aparecem de Havaianas e somente com uma caneta na mão.
E sabe… eles são “o máximo!”
Sei qualé. Você deveria usar aquela camiseta que o Casseta&Planeta divulgava: Vá ao teatro, mas não me chame.
Ou algo do gênero.
E sei qualé quando vc ouve o amigo e ele não te ouve, nem te conhece. Só tá lá vomitando a vida dele pra quem quiser ouvir, mas ele não ouve ninguém. I’ve been there a lot!
Nossa, impossível nâo lembrar daquele episódio do Seinfeld que ele queria “terminar” com um amigo dele. Da primeira temporada, quarto episódio, “Male Unbonding”.
Quando não existia cinema, home theater,, dolby digital pro logic surround sound, DTS, HDMI e afins, talvez o teatro fosse uma boa diversão.
E uma coisa que eu não consigo entender é porque as pessoas precisam tanto pertencer a alguma coisa. Se não fosse a turma do teatro, seria alguma outra coisa, Talvez até herbalife! ;P
Mas conta aí: como é a dancinha do Maskara?
Eu bem avisei pra você fugir enquanto as portas do teatro ainda estavam abertas!
Mas não, você resolveu esperar a participação fantástica e corporal enquanto pseudo intelectual artística com nuances de sensibilidade e uma pitada de sarcasmo a respeito da nossa crise a nível de realidade atual, virtual e mundial!
hahahaha… bem-vindo ao clube!
[Comment ID #61134 Will Be Quoted Here]
Já dizia Bussunda… “Vá ao teatro mas não me chame!” ;P
[Comment ID #61107 Will Be Quoted Here]
5 anos e meio?? MAS QUE ESPÉCIE DE MALUCO É VOCÊ?????
[Comment ID #61101 Will Be Quoted Here]
Eu não consigo… só consigo ficar quieto e pensar “wtf am I doing here…” -_-”
Muito obrigado pelo link, by the way.
eu desprezo esse tipo de gente, alias, acho que até por uma diversão particular, eu seria capaz de me interessar pelos assuntos de uma pessoa assim por cinismo, sem ela perceber, enquanto eu me divirto sozinho com o meu cinismo…
algo do tipo
“sério???? conta mais!!!!”
[Comment ID #61111 Will Be Quoted Here]
existem atores, e existe aquele pessoal pseudo intelectual que faz malabares e se acha melhor que você porque gostou de algum filme muito chato, e esse pessoal as vezes é do teatro, as vezes é de letras, no máximo de belas artes.
huahua teve gente que achou o texto triste, mas eu ri muito na parte da brodagem. Você está certo cara, acho que você pensa como eu nessa parte de o tempo separa as pessoas mas isso nem é uma coisa ruim. Mas você também forçou uma amizade ai, sei lá, eu não sou o seu psicologo não, mas você tava esperando muita coisa dela. Tem amigos que são para todas as horas, e tem amigos que são pessoas que aparecem do nada e é legal. igual um lance que você falou sobre charuto e nintendo wii, não da pra querer repetir o charuto e o nintendo wii, mas quando acontece é legal.
bem, amigos de mão única são fogo mesmo… Nem vou comentar.
Mas teatro… O teatro em si é… Tá bom, tá bom, eu também tenho uma birra absurda de teatro. Por que eu até gosto de ir a BOAS apresentações mas… Os atores…
Primeiro por que quando eu era pequena eu fazia teatro e odiava por que eu era excluída e ninguém queria falar comigo. Depois por que eu fiz de novo mais tarde e a professora era uó. E hoje por que as pessoas do teatro que eu fazia se acham a 8ª maravilha cult.
ah, que vão a merda! Sou muito mais ficar em casa vendo Heroes…
ah é, aliás… Cara, eu sou sua fã MESMO.
eu queria sempre pedir pros meus amigos que me falem se estou sendo egocêntrico
que triste isto da sua conhecida.. perdeu a amizade de um cara como VOCÊ!
você é, tipo, o Fábio Yabu meu!
tipo assim
vc é totalmente meu herói!!!
eu aqui…tentando achar a palavra certa…e pronto…sou totalmente coadjuvante
foi um pouco chato qnd eu cai na real, só sei q depois foi totalmente libertador…
Eu só queria uma coisa, rapaz…
Não pegue birra de teatro pelos maus atores. E principalmente pelos amigos de mão única. Dê uma chance às apresentações.
Mas quanto a ela? Bem… você sabe direitinho a resposta.
que merde, hein?
Yabu menino de bom coração!
Cara, me via agora em uma das conversas que tenho com a minha namorada (São 5 anos e meio!!!!!!!!), igualzinho!!! até o barulho de scratch com sou interrompido pra ouvir mais uma da chefe dela, ou sobre a avó da amiga, ou sobre o cachorro da sobrinha da colega…….Esse texto conseguiu dizer oque eu nunca consegui….Valeu Yabu!
Tenho vários amigos/parentes egocêntricos e sei exatamente do que você está falando. Às vezes, de propósito, respondo falando sobre mim a cada coisa que eles falam de si mesmos. Eles começam a ficar irritados e não podem reclamar – é divertido! >:o)
Pô que triste heim? Deu até vontade de chorar
Acho que todo mundo já passou pro essa situação de “se tocar” que o cara não é mesmo seu amigo. ..
Mas tudo bem, tomara que ela leia o post e se toque!
E quem precisa mesmo de amigos quando se tem fãns