Cara, modéstia a parte, eu sou um excelente vizinho, mesmo morando num condomínio mal-assombrado. Tipo gente boa mesmo! Eu já ouvi desaforo de vizinho emburrado e depois escrevi uma carta pra ele pedindo desculpas, já deixei a vizinha do lado arriscar a própria vida na minha janela… manja aquele comercial bocó, “Se não pode fazer tudo, faça tudo que pode?“. Pois é, eu sou desses bocós. Eu seguro o elevador enquanto a tiazinha ainda tá descarregando as compras do carro, separo o lixo, não abro correspondência alheia mesmo quando ela desliza sensualmente por baixo da minha porta.
Mas me fala, o que adianta ser bonzinho se o universo vive te chamando de trouxa?
Episódio 1 – A vaga
Aqui no condomínio não existem vagas individuais pra todo mundo no estacionamento. Sorteios feitos a cada seis meses obrigam boa parte dos moradores a dividir a vaga com mais alguém. Aí é aquele esquema, se o vizinho parou na sua frente você tem que manobrar o carro dele pra poder entrar com o seu, por isso geralmente se trocam as chaves reserva.
Eu falei geralmente, né?
Tinha um vizinho muito mala. Dono de um Honda Civic, carro de tiozão, que dividia a vaga comigo. O gente boa aqui, dono do golzinho vermelho, sempre quando parava na vaga da frente, deixava a chave no contato, pro bonitão lá poder manobrar e sair com sua banheira de 80 mil reais nas sextas à noite em busca de volúpia. Na verdade eu nem me importava muito, porque nem uso muito o carro então pra mim tudo bem, sabe?
Enfim, mas vai ver se a gentileza era retribuída? Quando eu saía, o cara ainda tinha a pachorra de estacionar o carro na vaga da frente (bloqueando a de trás, que ficava vazia), ou seja, eu tinha que chegar e ligar no celular dele pro bicho descer e tirar a bostadohondacivic!
Beleza, né! Por seis meses foi esse martírio, mas eu pensava, “Há, mas quer saber, eu sou gente boa! Tô acumulando um karma bom. Dos justos é o Reino dos Céus, ou será das crianças, sei lá, é de alguém e com certeza não é desse mané!“. Veio o novo sorteio de vagas, e sabe o que aconteceu?
O DISGRAMADO DUMA FIGA pegou uma vaga individual, coberta, e eu novamente me vi preso atrás de outro carro, dessa vez uma saveiro de 7 toneladas sem direção hidráulica!!
Como eu disse, eu nem uso muito o carro. É mais de fim de semana, pra alguma emergência, sei lá. Então me conformei com a minha minúscula vaga de 1×1 metro, no sol e atrás da saveiro. Mas esse vizinho era mais gente boa, ele deixou a chave dele comigo e vice-versa. Assim, quem chegasse primeiro, colocaria o carro na vaga de trás, pro outro parar na frente.
Mas aí o cara me contou uma história toda triste. Que trabalhava no Ceasa, Ceagesp, Ceará, sei lá aonde, e todo dia tinha que sair às 4 da manhã. Que tinha um filho pequeno, que a mulher tava grávida, que piriri, pororó, aí já viu, né? Toda vez que eu chegava e via o carro dele na vaga de trás me batia aquela culpa católica. “Putz, o cara vai ter que sair às 4 da manhã. E se o filho dele passar mal? E se a mulher tiver desejo? E se ela carregar no ventre a última esperança da humanidade?“. Aí então resolvi fazer mais um sacrifício em nome do meu já bem graduado karma.
Aí tipo assim, quando eu chegava da balada ou do supermercado com as compras do mês, era só manobrar o carro dele, entrar com o meu, manobrar o dele novamente, tirar as compras do meu porta-malas espremido no pára-choque dele e subir puto da vida! Que mais eu queria?? Milhas grátis?
Finalmente, o meu bom karma serviu pra alguma coisa. O vizinho se mudou, e eu, rabudo que sou, fiquei com duas vagas só pra mim!!
Foram algumas semanas de alegria. Quando eu queria, parava na frente. Não tava a fim? Parava trás. Parava na frente, parava atrás. Vruuum, vruuum, olha como eu manobro bem! Às vezes parava bem no meio só pra gozar dos anos de gentebonice sendo recompensados de forma vitalícia pela camarada providência divina. As duas vagas eram minhas mesmo, hahahahahah! HAHAHAHAHAHA!
Foi aí que eu me toquei… o vizinho tinha ido embora e levado a minha chave reserva!!
E foi um corre-corre danado, o cara não deixou telefone, endereço, eu nem mesmo sabia se ele era humano!! Liguei na portaria ninguém sabia de nada, liguei no apartamento dele e ninguém mais morava lá! Eu não sei se você sabe, mas quando roubam o seu carro, você tem obrigatoriamente que apresentar a chave reserva, como prova de que você não tá tentando dar migué na cia. de seguro. Aí eu já comecei a pensar, “grandes merda esse karma que eu arranjei, agora só falta roubarem o meu carro!”
Calma, não roubaram. Duas semanas atrás, o vizinho reapareceu pra pegar a chave dele de volta, e devolver a minha, que foi mantida refém por quase dois meses e sabe-se lá que agruras ela passou na mão daquele despudorado. Além da minha chave, recebi a feliz notícia de que ele havia alugado a ex-vaga (ele ainda é dono do apartamento) dele pro Betão. Dono de um Corsa 97, verde musgo, em bom estado caindo aos pedaços, único dono, 3 mil toneladas e claro, sem direção hidráulica.
Moral da história: Ser legal com os vizinhos não acumula pontos na minha carteirinha kármica
Episódio 2 – A rede
Enfim, mas isso não me fez perder a fé na humanidade ou nos meus vizinhos. Não, não. Vou contar uma história bem comovente, violinos, por favor.
Quando eu estava sozinho, com fome, cansado e… andando pela Europa com o notebook debaixo do braço, eu não pedia a Deus por um prato de comida. Nem por uma cama confortável num hostel imundo, nem por euros pra eu tomar uma sangria ou uma taça de vinho, o que eu pedia a ele era algo simples como… uma rede vífe aberta, pra eu poder checar meus e-mails e postar nesse mesmo blog que você lê agora que eu tô vendo!
E o Senhor, Louvado seja, aleluia, me atendia!! Em qualquer esquina era possível sentar, muitas vezes no chão mesmo, abrir o notebook e receber as ondas vífe como a Virgem recebeu o Espírito Santo. ÔOOooo Glória! \o/
Foi então que eu fiz uma promessa ao Senhor e à Virgem de Guadalupe. Prometi que, quando voltasse ao Brasil, compraria um roteador vífe pra minha casa e deixaria ele aberto, pra que transeuntes exaustos e famintos como aquele que já fui, pudessem ao menos falar em seus blogs o quanto estavam miseráveis! Levei minha promessa muito a sério, e comprei o roteador da D-Link na primeira promoção que apareceu no Submarino! Instalei e deixei a rede aberta, sem senha, sem nada.
E por vários dias, a festa da Internet grátis rolou solta aqui no condomínio. Parecia o início dos anos 2000. Era só eu ligar o vífe e pimba, apareciam três, quatro carinhas como porquinhos mamando em minhas inchadas tetas cibernéticas! E eu maior feliz, claro! Estava ajudando a fazer a inclusão digital, compartilhando meus 2mb do General Tchutchenko com completos estranhos simplesmente porque sou legal.
Isso até hoje, quando o firewall me avisou que estavam tentando entrar no meu computador, e que tem um tal de Acer cujo MAC ADRESS é 00-**-D4-**-F7-82 doidinho pra escutar tudo quando é porta minha! Vai saber o que ele queria?? Roubar minha senha do Google? Desviar o meu suado dinheirinho? Copiar minhas fotos e mandar pro Uglypeople.com?
Pô meu, que sacanagem! Aí a brincadeira acabou, skavurska é o skambau, bloqueei o vífe, entupi o negócio de senha e restringi o acesso só ao meu computador e ao Wii. Pô, armar barraco comigo, parar o carro na minha vaga, até colocar fogo na minha casa podia, mas invadir o meu computador já é sacanagem!
Moral da história: Vide episódio 1

Blog pessoal de Fábio Yabu, desenhista e autor de livros infantis, criador de "Combo Rangers", 







Thiago (pedrascaminho.blogspot.com) |
segunda-feira, 15th outubro 2007 at 9:46 am