Vou estar inventando pessoas - YabloG!

Vou estar inventando pessoas

outubro 24th, 2007 | Por Fábio Yabu em Crônicas

Sei lá sabe, eu sempre gostei de inventar histórias. Quando eu era criança, ia dormir pensando no que o Zé Colméia fazia à noite, já que o desenho só se passava de dia. O que os Superamigos faziam quando não estavam socando a Legião do Mal, quanto o Chaves conseguia ganhar vendendo churros e fazendo seus bicos na vila. O que era uma preocupação acabou virando boas notas nas aulas de redação, bilhetinhos, cartas de amor, frases de efeito e independência financeira.

Mas essas coisas nunca me bastaram. Já escrevi mais histórias do que posso contar, meus livros podem não estar no Top 10 de nenhuma revista semanal pra classe média desinformada mas vez por outra voltam pra gráfica para reimpressão. Eu sempre achei que isso me bastaria, e que eu passaria noites e noites escrevendo coisas engraçadinhas e pagando uma de inteligente enquanto o mundo se despedaçaria lá fora.

Foi aí que eu percebi que inventar histórias, no sentido literário da palavra, é legal, mas o que eu curtia mesmo era inventar pessoas. Acho que fiz isso a vida inteira. Não se trata de amigos imaginários (pelo menos eu acho), mas de pegar a caneta e preencher eu mesmo aquelas lacunas em branco que todo mundo tem. O pai do Diego, da primeira série, devia trabalhar no bar, já que vivia debruçado na mesa com um copo de pinga na mão. O Pança, da segunda, vivia sozinho numa casa abandonada, e eu queria é saber como ele fazia pra comprar o uniforme da escola. A mãe do Juninho, coitada, morreu de diabetes. E eu lá sabia o que era diabetes?

Às vezes as lacunas eram tão grandes, ocupando cinco ou seis linhas de uma folha de almaço que eu era obrigado a ir mais longe e inventar que a Daniela, da terceira série, podia se transformar em outras pessoas. Teve um dia que ela se transformou em mim e aprontou horrores usando minha já notória imagem de bom menino. Por favor, não conte a ninguém, até porque ninguém iria acreditar.

Na adolescência foi a mesma coisa. Teve o adorável dia que eu passei no Playcenter com a Paty. Todo mundo achava ela feia, menos eu. Eu achava que ela tinha personalidade. Cabelinho channel, pele clarinha, lábios rosados, espinhas avermelhadas e charmosas nas maçãs do rosto e é claro, óculos fundo de garrafa. Nossa história não teve um final feliz; ela não era nada daquilo que parecia, na verdade era uma peruinha enrustida. A gente acabou descobrindo que não tinha muito a ver e voltamos pras nossas respectivas salas de aula, como se nada tivesse acontecido. Até porque, nem aconteceu mesmo.

Inventei muita gente desde então. Invento meus amigos e motivos pra eles não terem ligado ou aparecido, às vezes a pessoa nem é tão interessante assim e eu vou lá e invento um monte de coisas que só eu vejo e só eu amo. Acho que no fundo, todo mundo faz isso um pouco. Pessoinhas perfeitas, historinhas perfeitas pra reescrever vidas sem graça, quem garante que eu escrevo livros pra crianças, vai saber se na verdade eu não trabalho com telemarketing? Desculpe se tem algum operador de telemarketing lendo isso, mas assim, eu posso estar estando garantindo que é uma vida bem chata.

Tem gente que diz que eu faço isso pra fugir da realidade. Aí eu falo “Hello-o?” é claro que eu faço isso pra fugir da realidade. Acho que é melhor inventar que meus amigos da escola se deram bem na vida e estão ajudando a salvar o mundo do que entrar no orkut e ver; a) as meninas enbarangadas e usando microsaias na balada com quase 30 anos ou b) os meninos seguindo a micareta com dois ou três filhos nas costas e falando gírias do Charlie Brown Jr. É lógico que eu invento pessoas que não existem e amores impossíveis, porque acho absolutamente leviano o jeito em que em dois, três ou quatro anos as pessoas podem dizer que amam cinco, seis ou setecentas e quarenta e uma pessoas diferentes. Por isso eu sigo inventando as pessoas por aí, enquanto alguém de verdade não aparece.

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54 Comentários

  • gleiciane ribeiro lessa says:

    alta,morena,sobrancelha groa,cabelos castanhos,olhos castanhos

  • marta says:

    vc inventa pessoas e eu invento “miyais”, srio mesmo!!
    o ltimo teve at casamento!! ser que posso inclu-lo no meu banco de dados??

    reply pls.

  • Ana Kelly says:

    Cara, voc me assustou quando comeou a falar de uma tal de Paty… Eu tinha essa aparencia quando criana (tirando o culus fundo de garrafa, nessa parte eu me acalmei e parei pra raciocinar XD) e me chamam de Paty (sim, este nick no meu nome ’)

    Realmente, as pessoas que no entendem a cabea de alguem com imaginao so intolerantes com certas coisas… felizmente nunca me incomodei com gente assim que aparece na minha vida. Sigo feliz minha vida rindo de coisas que me vm a mente sem vergonha do que possam pensar… at hoje ninguem chamou a policia ou os os homens de branco, ento…

    Continue inventando pessoas, um dia, quando no estiver procurando, encontrar alguem que valha a pena (acho). Esta a parte divertida da vida e que poucos conhecem… acho.

  • [...] depois de ler uma frase do Fbio Yabu em um de seus posts que dizia Por isso sigo inventando as pessoas por a, enquanto algum de verdade no aparece [...]

    http://tapiocacomsushi.wordpress.com/2008/08/27/procurando-alguem-de-verdade/



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