novembro/11/2007

Episódio 1 – LOST… NA VILA MADALENA

John Locke

Não sei se você, leitor assíduo e consciente, se lembra de um post que escrevi no meu outro blog em março desse ano, falando sobre a Iniciativa Verde. A ONG auxilia pessoas e empresas a neutralizar suas emissões de carbono através do financiamento e plantio de árvores, e entre seus feitos estão as neutralizações da São Paulo Fashion Week, da Revista Época – Edição Verde e do livro Uma Verdade Inconveniente.

Sempre fui um entusiasta da neutralização de carbono como forma de combate ao aquecimento global. Tão logo soube da Iniciativa, me cadastrei no site, calculei minhas emissões e comprei o número de mudas necessárias. A captação de recursos levou alguns meses, e, no último sábado, foi feita a cerimônia de plantio, na cidade de Porto Feliz, a 100km de São Paulo, para a qual fui convidado por e-mail. Confirmei minha presença e aguardei ansioso pelo dia.

Porém…

Assim, eu tava maior afim de ir. Infelizmente não consegui convencer ninguém a me acompanhar na aventura, talvez porque o transporte para o local seria feito numa van que deixaria a Vila Madalena às 8:15 da manhã (repare nos números malditos). Com muito esforço, consegui acordar às 7:00, peguei o carro e me dirigi ao ponto de encontro com o endereço devidamente anotado num papel (reciclado).

Acontece que eu tava bêbado de sono. Eu já sou perdido desperto, imagina após ter dormido apenas 3 horas e meia. Acabei me perdendo naquelas ruas malucas com nomes hippies da Vila Madalena. Quando finalmente cheguei ao local, descobri que ele não existia, ou melhor, que eu havia anotado o número errado. Ao invés de 131, eu no meu sono anotei… 811 – um número inexistente na Rua Purpurina.

Graças a São Google, acessei o Gmail do celular e percebi a mancada. Corri pro lugar certo, só pra descobrir que a van tinha acabado de sair.

Aí fiquei muito fulo da vida. Odeio ter a sensação de que as ruas da Vila Madalena foram feitas para tirar uma com a minha cara, e que àquela hora a Harmonia, a Wisard e a Purpurina riam de mim como as bestas da floresta riem de crianças perdidas e desobedientes. E seus sussuros penetravam meus tímpanos como agulhas geladas, dizendo “Você não pode ir, Fábio, você não vai plantar suas árvores!

Pensei em voltar pra minha caminha quentinha, mas resolvi não me render! Dentro de mim, uma voz gritou “NÃO ME DIGA O QUE EU NÃO POSSO FAZER!!“. Peguei e me dirigi à Castelo Branco, rumo à cidade de Porto Feliz, cerca de 100km a oeste. E fui, e fui, e fui. E o diabo da cidade não chegava. Finalmente, quando cheguei ao local onde eu deveria entrar à direita… passei batido.

AAARGH!

E quem disse que tem retorno na Castelo Branco? Eu tava quase chegando em Birigui quando achei um. E voltei, e voltei, e voltei. Mas dessa vez não teve erro, entrei na estradinha de terra certa e, finalmente, cheguei à cerimônia de plantio das árvores. O mundo estava salvo, meu destino eu cumpriria!

Mas eu mal imaginava quem encontraria em meu caminho…

Episódio 2 – OS OUTROS

Aí quando cheguei lá foi muito bizarro. O lugar era um galpão no meio de um assentamento de agricultores, com suas casas simples e ruas de terra, mas cheio de gente com roupas “da cidade”. Logo de cara achei que era meio “Os Outros”.

Daí beleza. Me aproximei daquela galera cheia de boas intenções quando, para minha surpresa, um deles, devidamente uniformizado, vem falar comigo!

“Você é o Fábio? Eu sou o Davi! Estávamos te esperando.”

Ai jisuis! Como assim, Os Outros sabem o meu nome?

“Oi, prazer, Davi! Desculpe o atraso, eu perdi a van e tive que vir de carro…”

Eu achei muito sinistro. Por um momento pensei que tinha errado o endereço, e que ali não era a Iniciativa Verde, mas sim a Iniciativa Dharma. Ia perguntar onde estavam o Ben e o Jacob, mas antes Davi me explicou que a van havia me esperado até as 8:40 (aposto que foi 8:42), e que como eu não havia aparecido eles acharam que eu tinha desistido. Mal sabiam eles…

Aí ele falou que os outros Outros estavam loucos pra me conhecer. Mas como assim?? Ele me apresentou a algumas pessoas, e todas foram muito simpáticas, e tinham em seus olhos uma mistura de carinho e respeito. “Oi, Fábio! Que bom que você veio, Fábio! Estávamos preocupados, Fábio! Todos queriam te conhecer, Fábio!”

E eu ficava cada vez mais encafifado como tanta gente sabia o meu nome. Convenhamos, eu não sou tão conhecido assim e nenhum dos Outros tinha cara de blogueiro ou fã das Princesas do Mar. Será que eles achavam que eu era o Locke?

Enfim, depois da simbólica cerimônia de abertura, cada um dos presentes recebeu uma muda e a orientação de plantá-la num campo abaixo.

Os Outros
Os Outros

Foi lindo, viu. Todo dia a gente houve falar do quanto o mundo está perdido, de como devemos mudar nossos hábitos, de que dezenas de empresas têm desenvolvido programas de neutralização de carbono, mas acho que as pessoas ainda estão patinando ao redor do problema enquanto só ouvem falar nas soluções. Às vezes acho que nada vai mudar, que o ser humano é mesmo um caso perdido e que o planeta ficará muito melhor sem nós.

Mas aí fui até Porto Feliz e me deparei com dezenas de pessoas de diversas cidades, executivos, agricultores, pais e filhos juntos colocando a mão na terra para plantar árvores, para fazer a diferença. Foram plantadas cerca de 500 mudas, numa área que receberá mais 12.000 nos próximos meses, de 82.000 que serão plantadas esse ano em São Paulo e Minas Gerais.

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Aqui um dia vai haver uma floresta…

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Duvida? A Mariana não. :)

Eu estava prestes a plantar a minha muda quando o Davi veio falar comigo.

Ah, Fábio, precisamos de uma foto sua, espera um pouco que eu vou chamar o fotógrafo!

Eu já estava achando que ali era realmente a ilha de Lost. Na verdade, estava tudo tão bacana que já gostava da idéia de ser um dos Outros. Cadê a minha barba falsa? Foi então que Davi finalmente explicou o porquê daquele acolhimento tão caloroso na minha recepção:

“Eu não sei se você sabe, mas você foi a primeira pessoa que se inscreveu no site para neutralizar as suas emissões de carbono. Você é nosso co-fundador!

Aí foi o momento do flashback. Voltei a março desse ano, ao cálculo das emissões e posterior compra das mudas. Eu não fazia idéia de que estava sendo o primeiro a abraçar aquela causa tão bacana. Fiquei muito feliz e orgulhoso, pois sei que existe muita ONG fajuta por aí, e é muito gratificante ver que ainda vale a pena dar um voto de confiança para as pessoas. Conheci todos os membros da Iniciativa Verde, pessoas tão notáveis quanto a missão de mudar o mundo pode requerer. Como se vê nas fotos, eles estão conseguindo.

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Eu e minha capixingui…

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Linda, né?

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Consegui plantar mais seis mudas, antes que uma forte chuva viesse para regar pela primeira vez o lar definitivo da futura floresta. Tirei essa foto na única árvore “veterana” no local, pra voltar lá daqui a 10 ou 15 anos e ver como ela ficou.


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