Esse ano, faz exatamente 10 (!) anos que resolvi dar a cara pra bater e sair por aí, mostrando quem eu era e o que eu tinha a dizer, através dos meus desenhos e histórias. Nunca foi fácil, não é fácil e eu não quero parar tão cedo. Nesses 10 anos, aprendi a lidar com a crítica alheia, ainda que eu tenha recebido poucas construtivas. Dá pra contar nos dedos da mão de um Teletubbie. No começo eu ficava chateado, depois comecei a perceber um estranho padrão nas críticas, que traziam sempre mais ou menos os mesmos ataques com igual falta de embasamento.
Uma das mais disparatadas (e repetitivas) que eu recebi ao longo dos anos é que meu trabalho não gera empregos no Brasil. Primeiro, com Combo Rangers, que foi publicada por uma editora japonesa (JBC), depois uma italiana (Panini). Agora, com Princesas do Mar, que é co-produzida por uma produtora australiana (Southern Star) e uma espanhola (Neptuno Films).
Essa falácia soa como se meus personagens fossem máquinas a vapor tirando o emprego de operários oprimidos na revolução industrial. Mas, apesar de precipitada e quase caluniosa se a verdade não fosse tão evidente, eu a considero essa uma boa crítica, algo que eu gosto de ler/ouvir.
Eu comecei com 17 para 18 anos. Como o sucesso veio cedo, tive que me virar como podia e dar uma de empresário. Manja? Alugar escritório, contratar gente, lidar com contabilidade, pagamento de salários, etc. Pra pagar as contas, que não fechavam só com os quadrinhos que eu produzia, comecei a vender meu trabalho, fazendo quadrinhos, desenhos, personagens, sites, embalagens e ainda trazia de volta a pessoa amada em sete dias. Por algum tempo deu certo, eu ganhei um dinheirinho, gerei os empregos que tanto cobram de mim, paguei impostos pro governo, que viraram as escolas e hospitais dos quais nos orgulhamos tanto.
Mas depois encheu o saco. Sabe, é bem legal ter a sua própria empresa, ser seu próprio chefe e tal, mas com o passar do tempo eu vi que aquilo não era bem o que eu sabia fazer. Não sei liderar, eu nem sequer me levo a sério o suficiente pra isso. Outra coisa pra qual eu não tenho o menor talento é lidar com clientes. Não quero, não gosto, me mata. Hoje não faço, mas já fiz muito, já vi meus desenhos em anúncios de revistas, comerciais de TV e bandejas do Mc Donald’s, e esse é um dos motivos pelos quais eu não virei publicitário: às vezes eu sentia um certo asco em ver aquilo. Na minha antiga empresa, a gente tinha uma piada interna sempre que o cliente dava uma sugestão (ordem) descabida: “o cliente mandou dar uma ‘excrementada’ no trabalho…”.
É claro que o negócio fechou. Nenhum negócio vai pra frente sem paixão. E eu não só acho bom, como dou graças a Deus. Tem gente que acha feio perder ou falhar, eu acho que foi lindo. Não, não estou tentando passar um pano e dar um lustro em momentos difíceis. Não estou dizendo: “valeu a pena, eu faria tudo de novo”. Faria o cacete! Eu FALIA tudo de novo, isso sim! Mas é nas derrotas que a gente aprende quem realmente é.
Nada contra quem vende seus desenhos, cria campanhas publicitárias ou escreve anúncios engraçadinhos. Mas eu descobri que eu não sou esse cara. E é isso nos traz ao ponto da crítica infundada de que eu não gero empregos no país. Ao ouvir isso, por incrível que pareça eu sinto um alívio, quase um êxtase.
Cada um é o que é, cada um tem a sua contribuição a dar pra esse mundo. Quem tem que gerar empregos não sou eu, é o governo. Eu tenho é que votar com consciência, viver de acordo com o que eu acredito, pagar meus impostos, investir bem meu dinheirinho, comprar de empresas sócio-ambientalmente responsáveis, dar passagem pro pedestre, andar a pé ou de ônibus, economizar energia, comer verduras e vegetais folhosos, cuidar de quem eu amo e ter a coragem pra dizer isso. Além, é claro, de escrever minhas histórias e desenhar meus personagens, que geram empregos sim, em vários países no mundo inteiro. Mas eu não estou muito preocupado com quantos e nem onde, e sim em fazer a minha parte. Não é o que todo mundo deveria fazer?

Blog pessoal de Fábio Yabu, desenhista e autor de livros infantis, criador de "Combo Rangers", 






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terça-feira, 10th junho 2008 at 11:41 pm