
Todos conhecem bem a história que é quase uma mitologia moderna. Um garoto inocente perde sua família. Cercado por um ambiente hostil, ele faz da tragédia a origem de sua força e se torna o maior defensor de seu mundo. Se estou falando do Batman ou do Super-Homem, é você quem decide.
É interessante refletir sobre os dois personagens. Uma análise equivocada é achar que ambos são opostos. À primeira vista, pode até parecer, já que o Batman é um avatar da escuridão e faz da noite o sua maior arma, enquanto o Super-Homem recebe seus poderes do sol. O Batman tem apenas seu treinamento físico e intelecto para lutar contra o crime, o Super-Homem desconhece a verdadeira extensão de seus poderes mitológicos. O Batman sempre foi rico, o Super-Homem foi criado numa fazenda. A identidade secreta do Batman é um empresário mulherengo, a do Super-Homem, um repórter atrapalhado.
Indo um pouco além das primeiras impressões, começam a surgir semelhanças interessantes. Dizem que a história do Batman é muito mais trágica já que ele perdeu os pais, mas o Super-Homem perdeu não só a família mas o seu planeta inteiro! Gotham, onde o jovem Bruce Wayne cresceu é fétida e corrupta, mas a Terra onde o jovem Kal-El foi criado é um inferno dantesco perto da sociedade superavançada de Krypton. Ambos são frutos de dores que não podem ser mensuradas ou comparadas, profundas até o infinito. Crianças desorientadas, foram reconfortados pelos braços de pais adotivos; o Batman pelo fiel mordomo Alfred e o Super-Homem pelo gentil casal Kent. E, ainda que salvem a mocinha no final, nenhum dos dois pode encontrar a ternura em seus braços após um dia de luta pelo bem.
Enfim, numa terceira meditação, é possível ver como quem tem visão de raio-x, além das roupas colantes, dos cintos de utilidade e identidades secretas. Por baixo dos músculos, está o propósito, a razão de ser de cada um, junto com a supreendente, simples e inexorável verdade: a vida é uma tremenda duma sacana.
Essa danada distribui de maneira igualmente injusta anos, cores, super-poderes, felicidade, Amor, grana, gordura, bunda. Tem gente que recebe demais, outros de menos, muitos nada. Ninguém recebe opção senão viver tudo e com tudo isso. E não adianta nem reclamar, pode levar o código do consumidor, o segredo ou os 9 passos para a felicidade que for.
As pessoas acabam achando ruim – normal – e sempre olham pro prato alheio, pra grama do vizinho, mas o que tem debaixo dela? Acho que, no fundo no fundo, todos recebem na sua cumbuca uma porção de miséria, sejam de Gotham City ou Krypton. Só que, independente de quanto e do quê distribuiu, a maior sacanagem da vida é justamente o que a torna uma grande aventura. No final das contas, com poderes ou sem, com tudo que lhes foi dado de bom e de ruim, o Batman e o Super-Homem precisam simplesmente salvar o mundo.

P.S.: É, era para eu ter escrito uma crítica sobre Batman – O Cavaleiro das Trevas, mas achei que ia ser redundante dizer o quanto o filme é espetacular. Então resolvi partilhar esses pensamentos que sigo como filosofia de vida.
P.S.2: Semana que vem tem Comic-Con! Aguarde toneladas de novidades direto de San Diego, California sobre nossas séries, quadrinhos, filmes e games favoritos, escritas com esse meu jeitinho todo especial.

Fábio Yabu é escritor, criador de "Combo Rangers", 