
Uma coisa que sempre me incomodou nos gibis brasileiros é algo que pouca gente reclama: a tradução. Os mangás então, nem se fala. Apenas um ou outro se salva. Na minha modesta opinião, traduções devem ser feitas por escritores, e não simplesmente, tradutores.
Enfim, não vou ficar aqui apontando as falhas alheias, até porque não tenho acompanhado quase nada que sai por aqui. Mas uma coisa que sempre me incomodou muito foi a tradução sem pé nem cabeça do juramento do meu herói favorito, o Lanterna Verde. A versão mais conhecida em língua inglesa, pra quem não conhece, é:
In brightest day
In blackest night
No evil shall escape my sight
Let those who worship evil’s might
Beware my power, Green Lantern’s Light
Em vídeo também é muito estáile:
Segundo a Wikipedia, a primeira versão do juramento em português foi publicada na revista Superamigos e vinha como:
“No dia mais claro
Na noite mais densa
O mal sucumbirá
Ante a minha presença
Da lanterna vem
o dom da paz
Para disseminar a luz
Que a justiça traz
Quem quer o mal
tudo perde
Ante ao poder
do Lanterna Verde”
Logo, o juramento foi condensado na seguinte forma, que foi a primeira que conheci, aos 9 ou 10 anos de idade:
No dia mais claro
Na noite mais densa
O mal sucumbirá ante à minha presença
Quem comete a maldade tudo perde
Frente aos poderes do Lanterna Verde
Noite mais densa?? Desde quando noite é “densa”? A palavra ainda perde a conotação das cores trazida na versão original, que opõe “brightest” a “blackest”, elementos que sempre foram utilizados nas histórias do personagem. “A noite mais negra” (Blackest Night) é o nome da próxima saga, onde aparecerão os Lanternas usando anéis “negros” – e não “densos”.
Só recentemente eu percebi que “tudo perde” deveria rimar com “Lanterna Verde”. Eu também não me lembro de ter visto o verbo “sucumbirá” em nenhum outro lugar. Soa muito mal, formal demais, né? Mas, como essa foi a primeira versão do juramento que conheci, até dou um desconto.
Recentemente, a Panini trouxe uma nova versão, talvez por algum conflito de direitos autorais com a Abril:
No dia mais claro
Na noite mais densa
Nenhum mal escapará ao meu olhar
Todo aquele que venera o mal há de penar
Quando o poder do Lanterna Verde enfrentar
Eu acho essa um pouco melhor, mas o “densa” continua me incomodando. “Há de penar” também acho bem feinho, parece “depenar”. Já vi o Lanterna Verde esmurrando seus inimigos com luvas de boxe e gatinhos gigantes, mas nunca o vi depenando ninguém.
Se adaptar as palavras para formar as rimas não parece uma boa solução, traduzir ao pé da letra também não é lá muito inteligente, como pudemos ver na versão do desenho da Liga da Justiça:
“No dia mais claro
Na noite mais escura
Nenhum mal escapará à minha visão
E aqueles que cultuam o mal
Temam o meu poder
A luz do Lanterna Verde!”
Traduzindo ao pé da letra, as rimas vão pra cucuia.
Enfim, foram anos à espera de uma tradução que capturasse a essência do juramento original, criado em por Alfred Bester nos anos de 1940. Como acho que não vai rolar, resolvi fazer a minha própria versão. Que é claro, não tem a menor intenção de substituir o juramento em mídia alguma, mas acho que foi um exercício legal de rima e métrica – algo bem importante para mim, já que devo lançar um novo livro de poesia em breve.
Criei uma tradução quase ao pé da letra, só que mais fiel ao original, respeitando sua métrica e rimas (ABBBB):
Na mais clara manhã
No mais escuro anoitecer
Nenhum mal escapará ao meu dever
O seguidor do mal deve temer
O Lanterna Verde e seu poder
E aí, o que você acha?
(Eu sei, esse foi o post mais nerd de todos os tempos. Mas eu PRECISAVA escrever isso, entende???)

Blog pessoal de Fábio Yabu, desenhista e autor de livros infantis, criador de "Combo Rangers", 







Pedro Henrique (twitter.com/peaga) |
quarta-feira, 13th agosto 2008 at 1:10 am