agosto/18/2008

Antes de mais nada, cabe aqui uma declaração: eu fiquei MUITO receoso quanto a escrever esse texto. Os motivos são vários: primeiro, porque a figura do Maurício de Sousa é quase imaculada. É difícil criticar alguém tão querido e carismático. Ainda mais somando a isso o segundo motivo, que é a simples, inexorável e inegável verdade de que, mesmo sem ter a menor idéia disso, Maurício de Sousa me inventou.

Bobo de quem achava que minha principal influência quando criei os Combo Rangers eram os mangás. O traço dos personagens, o olhão grande, as cores, as casinhas e cenários simples com árvores e pedras milimetricamente posicionados ao fundo. Tudo chegou pra mim numa caixa do Bairro do Limoeiro, onde coloquei meus gostos e experiências pessoais. Esse conteúdo, moldado pelo tempo, conquistas e decepções do meio do caminho, é guardado hoje como uma herança de valor inestimável.

Estive na presença dele em algumas oportunidades. A primeira foi numa reunião em 2000, na época em que eu trabalhava numa empresa de internet. A idéia seria refazer o site da Turma da Mônica. Fiz uma proposta bacaninha, acho que ele até gostou, mas como você pode ver, até hoje o lance não foi pra frente. Sem ressentimentos, como você bem sabe, fazer sites nunca foi meu sonho. Ele nem deve se lembrar das outras vezes em que nos cruzamos, em feiras, palestras e premiações. Eu também nunca tive a cara de pau de chegar e puxar assunto. Também, falar o que? “E aí? Continua lá com os desenhos? Tá na correria?”

Recentemente, algo que me deixou muito emocionado foi ter sido citado numa história da Turma sobre os quadrinhos no Brasil. Eu nunca liguei pra prêmios, indicações e o diabo a quatro; quando sai matéria sobre mim na imprensa em nem leio, mas sair numa revista da Turma da Mônica foi inesquecível.

Enfim, tem gente que não gosta, que fala mal, que chama ele de monopolista e o escambau. Eu continuo achando Maurício de Sousa o cara, e sempre serei grato pelos anos de diversão que os gibis e filmes da Turma da Mônica me deram. Continuarei escondendo referências aos personagens dele em meus trabalhos. Continurei sendo um fã babão, sem coragem de puxar assunto da próxima vez.

Mas não vou conseguir engolir a “Turma da Mônica Jovem”.

A idéia era ótima, sabe. Eu sou daqueles fãs das antigas que sonhava em saber como a história da Mônica continuaria no futuro. Em algumas edições especiais, deu-se a entender que já havia coisas minimamente pensadas, como um futuro casamento entre a Mônica e o Cebolinha, que daria origem a um filho de 5 fios de cabelo, dentuço e superforte. Esse tipo de brincadeira é saudável, estimula a imaginação e mostra que personagens são coisas vivas, que moram no coração de seus fãs e transcendem seu criador. São como filhos, aos quais você dá o seu melhor e espera que ganhem o mundo.

E não é nada disso que acontece em Turma da Mônica Jovem. A história, que parte da premissa da Turma adolescente não aproveita em nada a essência viva dos personagens. Sim, eles cresceram, como diz a capa, mas viraram o quê? A Mônica está simplesmente irreconhecível, e não é o fato dela ter seios que me incomoda. Mas o fato dela renegar que já foi baixinha, gorducha (felizmente ainda é dentuça), ter usado vestidinho vermelho, o fato dela viver justificando as próprias ações, falando o tempo todo que cresceu, que é mocinha, que é isso, que é aquilo.

Os personagens simplesmente sumiram. Tudo bem o Cebolinha ter cabelo e não falar mais elado. Tudo bem o Cascão tomar banho. Mas o que me entristece é não ver mais aquele garoto sarcástico e genial, com seus planos infalíveis que eram sempre arruinados pelo amigo atrapalhado e com deliciosas falhas de caráter. Cebolinha e Cascão foram condenados à palidez da normalidade. A Magali, coitada. Agora dona de curvas voluptuosas, ela sempre foi o Aquaman da Turma, charmosa, mas meio deslocada. Tire dela o amor por melancias e o que sobra? Melancia nem engorda, poxa.

Mas quem mais sofreu foi a dona da rua. O carisma da Mônica estava no fato dela ser meio rabugenta, grossa e sentar a mão em quem pisasse no seu calo. Eu simplesmente não sei explicar quem é essa Mônica nova. Ela não parece mais a menina mais forte do mundo, mas apenas uma escrava da conveniência dos diálogos e insuportáveis clichês extraídos do que tem de pior nos mangás japoneses. Em meus sonhos mais desvairados eu nunca pensei que o futuro da Turma da Mônica era combater vilões do Japão feudal. Nunca imaginei ver dragões, robôs gigantes, vilões que atacam com ideogramas. A cada página que eles apareciam meu pesar aumentava. A revelação de que os pais da Turma são samurais japoneses (!!!) reencarnados (!!!!!) quase me levou às lágrimas.

Não era pra ter sido assim. Não era. O Louco não era para ser reduzido ao excêntrico professor da turma. O Capitão Feio – agora “Poeira Negra” (?) não devia ser o capacho de uma vilã japonesa, e, por Deus, como o Anjinho não devia ter virado “Céuboy”. Isso nem sequer é um nome!

As possibilidades eram infinitas. Poderíamos ter tido um Tintin brasileiro, um Anos Incríveis em quadrinhos, sei lá, qualquer coisa que retratasse com mais dignidade o futuro dessa Turminha tão amada, nessa fase tão difícil que é a adolescência. Sem as desnecessárias concessões aos mangás, dos quais a Turma nunca dependeu. Sem a insuportável mania de mostrar a adolescência como algo feliz e saltitante, porque não sei se você já percebeu, mas ela simplesmente não é isso! Adolescência é uma merda, tudo bem que é uma época de descobertas, mas precisava ser tudo de uma vez? De onde saiu esse monte de pêlos, em quem eu confio, o que eu sou, por que diabos eu faço tantas perguntas ao invés de simplesmente viver? É claro que adolescente é taxado de idiota, eles andam, se vestem e agem como idiotas porque estão gritando por dentro. São seres complexos e, por incrível que pareça, profundos. Não são, nem de longe, esse disparate sem cores e sem graça que da Turma da Mônica carrega só o nome e dela não é nem sombra.


163 Comments

  • turma da monica eu sou seu fam e vai logo voces estao demorando muito para fazer um video

     
  • É com tristeza que afirmo: concordo com você… Infelizmente a fórmula funcionou e está vendendo como água, mas espero que, caso o sucesso não seja passageiro, eles tornem a revista mais profunda e não apenas uma inovação(?) “caça-níquel”

     
  • Eu também concordo. “Turma da Mônica Jovem” estragou tudo. Eu pensei que ia ser mais legal…

     
  • Concordo plenamente com esse desabafo!

     
  • Pow Fábio seu desabafo me deixou pensativo e emocionado! Concordo com tudo, principalmente na parte q vc diz que a adolescência não é algo “feliz e saltitante”. Não sei se vc reparou, mas as crianças de hoje estão querendo entrar na adolescência cada vez mais cedo. Ledo engano, a época de curtir é a INFÂNCIA, que vem sendo cada vez mais deixada de lado pela mídia.

    Não recrimino o Mauricio, pois ele está fazendo seu papel, produzindo material que o público alvo quer consumir. É isso que me preocupa: a revista da TM jovem vem com um aviso de que ela própria é leitura mais aconselhável para maiores de 10 anos, e não é o que se vê nas bancas. O buraco é muito mais embaixo. Estamos vivendo a decadência da infância e o auge do conceito de adolescência como a melhor fase da vida de um ser humano, e não é bem assim.

    Quando minha prima de 7 anos me mostra as revistas dela da TM jovem pra eu ler, durante a leitura finjo pra mim mesmo que aquela não é a turminha que eu cresci lendo as histórias, só assim consigo digerir a revista.

    Mas pelo menos tem um lado bom: minha priminha também começou a comprar as revistas da Turma da Mônica legítima, que também não é nem sombra do que um dia já foi, mas ainda conta com histórias excelentes que dão de 10 a zero na Jovem.

     

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