De vez em quando desenhistas iniciantes me mandam seus portfólios e cadernos de desenho para que eu avalie e dê a minha opinião. Honestamente, não gosto muito de fazer isso. É meio chato e desconfortável ficar palpitando no desenho alheio, e confesso que eu também não sou lá muito delicado com as minhas críticas. Acho que tapa na cara é o melhor jeito de se aprender a desenhar. De se aprender quase tudo, aliás.
Esses dias peguei o caderno de desenhos de um rapaz, que devia ter seus 22, 23 anos, sei lá. Eu já tive essa idade e sei que, por mais que os comerciais de bancos insistam, é uma fase tenebrosa da vida. O pós-faculdade é muito cruel com algumas pessoas: seus amigos, se é que você ainda tem algum após o trabalho de conclusão, somem. Vão trabalhar, vão casar ou tentar repovoar a Europa, sei lá, e você, meu filho, fica lá. Morando na confortável prisão dos seus pais ou na sufocante masmorra que é seu primeiro apartamento alugado.
Você finalmente aprende o valor do dinheiro e a velocidade com que ele some de sua carteira ou miguelada conta corrente. Que trabalho e independência financeira são coisas a anos-luz de distância e que, se ser adolescente era difícil, ser adulto é pior ainda! É conta pra pagar, é chefe mala, é gente que te sacaneia, é namorada que dá chilique. Não vai me arranjar filho ainda pelamordedeus!
Enfim. Com a maior condescendência do mundo, peguei os desenhos desse rapaz pra dar uma olhada e quiçá uma palavra de apoio. Sabe, eu queria falar pra ele que ele tinha potencial, que deveria acreditar nos sonhos dele e tal…
… mas o cara, ele não desenhava lá muito bem, não.
Ele queria fazer desenhos para publicidade, a desilusão de todo jovem indeciso no vestibular. Mas o traço era meio tosco, primário. Se o conteúdo não era bom, a forma também não ajudava muito. Era tudo feito à caneta BIC, num diacho dum caderninho de desenho genérico da Spiral.
Continuei folheando o caderninho e dali foi ladeira abaixo. Mais desenhos feitos à caneta BIC, no máximo algumas páginas eram rabiscadas por uma Futura Preta. Não que eu ache que a ferramenta seja lá muito importante, mas peralá, né? O cara me faz um raio dum desenho à caneta BIC, chega se achando e pensa que alguém tem a obrigação de gostar daquilo?
Aconteceu o que tinha que acontecer: ninguém gostou.
Mas eu gostei. Ele gostou. E hoje, seis anos depois, a menina com polvo na cabeça, feita à caneta BIC, faz parte da vida de crianças em 45 países.

É, esse é o primeiro desenho que fiz da Polvina. Não me admira que ninguém tenha gostado. Mas eu me apaixonei. E aí ela mudou minha vida.

Blog pessoal de Fábio Yabu, desenhista e autor de livros infantis, criador de "Combo Rangers", 







Gabriel Fiorini (olhosvirtuais.com) |
quarta-feira, 3rd setembro 2008 at 10:01 am