Defendendo o uso do gerúndio e da Comic Sans num mundo politicamente correto
outubro 10th, 2011 | Posted by in Crônicas
Foto por Azaghal
Acho estranho quando pessoas do bem – com curso superior e de boa família – de repente vestem carapuças brancas, assustam seus pais e filhos, montam em alazões negros e saem às ruas com tochas à caça de vítimas que sequer sabem o motivo de sua perseguição. Num minuto, estão enxugando a louça, no outro, açoitam seus vizinhos, sob o pretexto de que estão combatendo pragas, tão terríveis que mereceriam capítulos à parte em qualquer livro sagrado.
O pobre gerúndio, por exemplo. Esses dias vi na Internet a foto da fachada de um restaurante, com um simples e eficiente aviso de que “estamos atendendo”. Fui direto para os comentários da foto para confirmar uma certeza: lá estava a inevitável acusação de “gerundismo”. Alheio às tochas erguidas por inquisitores internet afora, o gerente – Armando – estava atendendo seus clientes, e, se Deus quiser, está atendendo a uma hora dessas e também vai estar atendendo amanhã, SIM, em horário comercial e com o português im-pe-cá-vel.
Vítimas de semelhante perseguição são as padarias, pet shops e pequenas pizzarias de bairro que OUSAM usar Comic Sans em seus logotipos e cardápios. Designers e diretores de arte ficam de cabelo em pé ao ver tamanha aberração, tamanho atentado à estética perpetrado por esses criminosos que sequer têm grana para pagar uma fonte melhor e não entendem coisa alguma de ”designer“! Nem sei como esse tipo de gente consegue fazer pãozinho quente, dar banho no meu cachorro e entregar a minha pizza.
E aquele outro tipo de gente, que não vê graça em piada sobre assuntos “leves” como estupro, homofobia e pedofilia? E são acusados pelos inquisitores de serem “politicamente corretos”, praga que, segundo afirmam, está tornando as coisas chatas e acabando com o mundo. É só olhar pela janela e ver a zona que esses malucos estão fazendo: a essa hora, tem alguém “politicamente correto” parando o carro para um pedestre, recolhendo o cocô do cachorro, não bebendo porque vai dirigir e, valha-me Deus, comprando alimentos orgânicos. Talvez devêssemos voltar agora mesmo para o mundo dos crioulos, das bichas, dos mongolóides, dos pediatras fumantes. Com cocô de cachorro petrificado na rua e sem cinto de segurança. Tudo bem que era mais fácil morrer, mas pelo que dizem os detratores do “politicamente correto”, era menos chato viver.
Assim, a verdadeira – e mais terrível – das pragas vai se espalhando, com métodos vis e amplamente difundidos. Disfarçada de um comentário jocoso ou exposta na reação exarcebada a um deslize cotidiano, a discriminação vai encontrando o seu caminho nos corações das pessoas de bem como eu e você.
Nunca foi tão fácil.
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Fábio Yabu é escritor, criador de "Combo Rangers", 
Me diverti lendo os comentários das pessoas que não entenderam o texto, principalmente daquela que diz que é boa em interpretar, mas o sentido não ficou claro!
é… o problema é que encher o saco dos outros na internet não tem nada a ver com ser educado na rua.
E agora é que eu li os outros comentários e vi que um monte de gente nem entendeu o texto. Meodeos.
Na verdade, em português impecável sua frase em negrito seria “estará atendendo”, afinal “vai estar atendendo” tem verbos demais, o que em última análise é o grande problema do “gerundismo”. No restaurante, entretanto, a frase está perfeita, realmente.
O que me incomoda no gerundismo, inclusive, é justamente que os ignorantes apenas mudaram de lado, e o senso crítico continua ausente. Eu vejo diariamente exemplos de pessoas que não são capazes de pensar por si próprias, de utilizar o bom-senso para resolver questões cotidianas, e precisam que outras lhes digam o que fazer. Agora, os “formadores de opinião” resolveram que o gerúndio tem sido superutilizado, e as ovelhinhas não sabem discernir o porquê. O mais fácil então é atacar todos os usos.
Paciência. Entre essas pessoas também existem aquelas que sabem fazer pão, dar banho no seu cachorro e entregar pizza. Como todos eles, os politicamente corretos tem seu papel, e os politicamente incorretos também. Quem eu acho que atrapalha essa história toda são, como sempre, os idiotas.
Mas foi bom ver alguém defendendo uma idéia polêmica (hoje ser politicamente correto é polêmico) com fundamento, pra variar.
Praising Comic Sans! http://memebaseafterdark.com/2011/10/01/naughty-memes-u-mad-bro/?utm_source=feedburner&utm_medium=feed&utm_campaign=Feed%3A+memesafterdark+%28Memebase+After+Dark%29
Finalmente alguém concorda comigo! O politicamente correto, chato ou não, é o que impulsiona a sociedade a evoluir.
olha, realmente, até para mim, que me considero boa de interpretação de texto, seu ponto de vista não ficou exatamente claro. se o que você quis dizer foi pra desencanar de tudo isso e viver de boa, sem se preocupar com esses detalhes, então eu entendi e concordo!
rsrsrs
acho engraçado como muita gente acha que, por antigamente isso ou aquilo ser algo normal, deveria continuar assim até hoje.
somos uma sociedade em constante evolução, e decobrir que atitudes ou conceitos estavam errados faz parte disso. oras, antigamente era normal escravizar outro ser humano, mas hoje não é mais permitido. por que, então, continuarmos ofendendo e humilhando outros seres humanos, que têm sentimentos assim como todos nós?
“People have lost their sense of humor. In former times we constantly made jokes about different races. You can only tell them today with one hand over your mouth or you will be insulted as a racist. I find that ridiculous. In those earlier days every friendly clique had a ‘Sam the Jew’ or ‘Jose the Mexican’ – but we didn’t think anything of it or have a racist thought. It was just normal that we made jokes based on our nationality or ethnicity. That was never a problem. I don’t want to be politically correct. We’re all spending too much time and energy trying to be politically correct about everything.”
Clint Eastwood
Por mais que um dos meus “mestres” diga isso, eu concordo muito mais com você.
Yabu?… Sei não, meu caro, mas acho que o pessoal não entendeu muito bem o seu texto
Seja como for, gostei muitíssimo do que acredito “estar entendendo”. realmente você foi bastante loquaz (no sentido politicamente correto) mesmo com o sarcasmo que, impressionantemente, consegue ludibriar alguns!
Parabéns!
Correto ou incorreto, o pessoal anda se ofendendo fácil demais ultimamente e achando que ser protegido de ficar ofendido deve ser um direito básico do cidadão.
Querem “pelo sim, pelo não” proibir algo que um dia poderá vir a ser ofensivo pra alguém, talvez.
Eu acho o politicamente correto das palavras idiota. Palavras são poderosas mas, no fim, são só palavras. O uso delas é que é o que faz diferença.
Um bom exemplo é IDOSO. A palavra “incorreta” é VELHO, o PC é “idoso”. Só que todo mundo passou a falar idoso e não mudar absolutamente nenhuma outra atitude. Então eis que idoso virou pejorativo e agora o lance é falar “melhor idade”. Na boa, não fodam.
Ai o sarcasmo, confundindo pessoas desde o principio dos tempos.
Odiar o politicamente correto está virando senso comum, e sendo assim pessoas estão achando normal coisas horríveis só porque não as criticariam antigamente.
Adorei o texto, abraço.
Não sei se entendi direito. O texto é contra ou a favor ao Politicamente Correto?
Ou você tenta apresentar dois tipos diferentes de politicamente correto?
E mano, “antigamente o mundo era muito melhor” é mimimi de velho que vivia numa bolha ideológica nos anos 80.
Daniel, o texto não está criticando quem faz isso – e sim quem acha que ser “politicamente correto” é algo errado.
Achei o texto MUITO legal, mas parei de concordar na parte que ele critica quem para o carro para um pedestre, pega o cocô do cachorro e derivados. Acho que isso são atitudes educadas e que ajudam o próximo e difere totalmente dos exemplos anteriores que seriam as pessoas que enchem o saco das outras quando não estão fazendo nada de errado.
Se esqueceu dos bonequinhos com componentes toxicos com chumbo…!
Todos querem ser o exemplo hoje ta uma merda foda.
O mundo continua o que sempre foi e pelo que vejo continuará o mesmo por muito tempo. Só mudou a fachada para “politicamente correto”, mas a corrosão do preconceito continua em sua estrutura. Num mundo onde a imagem impera, não há necessidade de bastidores,
Ótima reflexão sobre o cotidiano, Fábio Yabu.
Abração!
Texto MA-RA-VI-LHO-SO!! O “politicamente correto” está acabando com a alegria da vida, a ponto de irem com tochas contra os “pôneis malditos” e afins. Cadeirões para crianças no carro, alarmes em casa, promoção de celulares para o dia das crianças… cadê os riscos da ingenuidade de antigamente?