“Brasileiro não gosta de ler” e outras lendas do nosso foclore
janeiro 30th, 2012 | Por em CrônicasBrasileiro não gosta de ler?
Durante a minha vida inteira, ouvi que brasileiro não gosta de ler. Mas por algum motivo, ao menos no microcosmo em que vivi a infância e a adolescência – com pai e mãe professores – aquilo não parecia verdade. Por isso, sempre encarei a afirmação com certa cautela, como uma criança que vê um Papai Noel magrelo distribuindo pirulitos em frente a uma loja de móveis no verão.
De tanto gostar de livros, em 2004 lancei o meu. Aquilo foi tão bom que em 2006 lancei o segundo, depois não parei mais. E mesmo não sendo nenhum best-seller, ano após ano vi meus lançamentos receberem mais gente e mais abraços, em livrarias cada vez mais lotadas. Se brasileiro não gosta de ler, o que toda essa galera estava fazendo lá?
Hoje, à s vésperas de lançar meu 13º livro, acho que entendo um pouco melhor as complicadas estatÃsticas do mercado editorial brasileiro. Um mar de achismos e nenhuma auditoria que, segundo a FIPE, cresceu 150% na última década. Será mesmo que brasileiro não gosta de ler? Ou será que o velho mantra é a justificativa dos empedernidos para a própria iletralidade?
De acordo com o Insituto Pró-Livro, o Brasil tem cerca de 77 milhões de pessoas que não leem – e ponto. Nem Turma da Mônica. Não leem porque não gostam, não têm tempo, dinheiro ou mesmo por não saberem como. Em compensação, há 95 milhões de pessoas que leem, em média, 4 livros por ano, até 6 no sul do paÃs. Aparentemente são números modestos, ou até vergonhosos para alguns, frente aos paÃses mais ricos (nem tanto hoje em dia). E é aà que o preconceito começa a disfarçar-se de lógica.
Pobre não gosta de ler?
A primeira e precipitada conclusão é que, se a pessoa é mais rica, ela lê mais, certo? Mais ou menos. Segundo o mesmo estudo, embora a classe A consuma mais livros per capita, ela é responsável por somente 5% (!) do total das vendas no paÃs. É a classe C – em especial, suas mães – quem leva para a estante de casa nada menos que 47% dos livros vendidos. Se você está lendo esse texto, é provável que tenha o hábito de atualizar seu Twitter num smartphone enquanto aprecia um cappuccino ao som da Adele numa Fnac da vida, antes de dar uma olhadinha nos novos modelos de TV 3D. Talvez você tenha em casa a edição encadernada de “O Senhor dos Anéis”. Mas as chances são de que, nesse universo de megastores, boxes luxuosos e leitores digitais, seja justamente você a puxar a média nacional pra baixo.
Porque a classe C gosta sim de ler. Basta ir a uma Bienal do Livro para testemunhar filas infindáveis em praticamente todos os stands. No da Ciranda Cultural, cujos preços começam na casa dos R$ 5, ouvi do presidente da editora: “Não estamos mais aceitando cartões nos pagamentos porque não dá tempo de processar.” – enquanto devolvia troco para uma nota de 10, tentando agilizar uma fila que já invadia os stands vizinhos.
Por incrÃvel que pareça, ainda tem gente que torce o nariz para livro “barato”. Eu bato palmas. Porque, ao contrário de todos os outros bens de consumo, o livro não é segmentado por critérios econômicos ou sociais. Dá para comprar Machado de Assis por R$ 1,00 em qualquer sebo, dá para baixar de graça (e legalmente) na Internet e dá pra comprar exatamente o mesmo livro por R$ 50,00 na mais esnobe livraria. Mas a partir do momento em que o livro é aberto, não existem mais páginas amareladas, telas brilhantes ou cheirinho de novo. O objeto torna-se invisÃvel e seu dono torna-se um leitor.
Jovem não gosta de ler?
Muito difundido também é o mito de que “jovem não lê”. Chega a ser redundante refutar essa afirmação, frente a fenômenos como Stephanie Meyer, Suzanne Collins e Meg Cabot, tão frequentes que já deixaram de ser exceção e posicionaram os jovens de até 24 anos como o maior público leitor do paÃs. E não é só de autor importado que os jovens gostam. Pergunte a Thalita Rebouças, que já passa de 1 milhão de exemplares vendidos. Ou então à jovem Paula Pimenta. Mineirinha que é, segue os passos de Thalita e vai conquistando de mansinho os adolescentes com seus calhamaços de 400 páginas que já venderam mais de 50 mil cópias. Sem falar em Eduardo Spohr, cujo “A Batalha do Apocalipse” surgiu como produto de nicho na Internet e hoje pode ser encontrado em caixas de supermercado e catálogos de vendedoras da Avon. Essas simpáticas senhoras, como a sua Tia Sueli, que complementam o orçamento revendendo perfumes e cosméticos, disputam com a Saraiva o posto de maiores vendedoras de livros do Brasil, com faturamento bruto anual na casa dos R$ 360 milhões. É, a Tia Sueli.
Quem gosta de ler, afinal!?
Como veem, “brasileiro não gosta de ler” é uma oração cheia de vÃrgulas, interpretações e sujeitos ocultos. A generalização burra de um universo composto por exceções, repleto de oportunidades para editoras, autores e leitores.
Tem brasileiro que gosta de ler, tem brasileiro que não gosta. Eu gosto. E você?
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Fato acontecido há poucos dias, na feira do livro da minha cidade, e noticiado pelo jornal local. A filha se interessou por um livro, mas a mãe disse que ela teria de escolher entre compra-lo ou pagar o ingresso do show do Michel Teló, que estará na cidade no próximo sábado. A filha escolheu ir no show.
Fui uma criança e um adolescente que lia a contragosto apenas os livros obrigatórios da escola (Machado de Assis é um tiozinho muito pentelho para um moleque de 12 anos!). Aprendi a gostar de ler na internet. Ao contrário do que dizem certos analistas, acredito que a internet tem sido uma forma importante de incentivo à leitura (e à escrita) que passa ao largo das estatísticas de vendas das livrarias.
É estupidez tomar uma generalização ao pé da letra. É vidente que há muitos leitores no país, mas numa proporção menor do que na maior parte dos outros. Estatisticamente lemos muito menos livros, e pior, a maior parte é porcaria. E não estou comparando com a França, que vive outra realidade, nos coloque ao lado da Argentina, país em situação ainda pior no sentido econômico.
Citar a cozinheira ou a sobrinha que lê, ou constatar que a livraria está cheia é um método muito pouco científico. Ou mesmo citar o exorbitante faturamento de livrarias sem colocar isso em perspectiva, ao mesmo tempo em que se ignora nesse valor os DVD’s ou tablets vendidos, caso da Saraiva (citada), Livraria Cultura, Fnac e outras.
4 livros por ano é a média que inclui livros didáticos e técnicos que a pessoa é obrigada a ler, ou ao menos, passar o olho! Quando se questiona sobre a média de livros lidos por espontânea vontade, a média cai para menos de 2 livros por ano!!! É um número absolutamente ridículo. Os países platinos tem uma média maior que o dobro disso. Não to falando de EUA, to falando do Uruguai, Argentina!
Sem contar a análise qualitativa dos títulos lidos. É piada citar Machado de Assis nos livros de bolso, como se esse fosse o padrão de leitura da classe C que puxa a fila do consumo. A diferença da França ou da Argentina para o Brasil não está apenas no volume de livros, mas na qualidade desses números. Nossas listas de mais vendidos não costumam ter um único livro melhor (melhor em aspectos técnicos mesmo). E não estou criticando as pessoas que lêem o Chico Xavier ou a auto-ajuda de banca, o ataque é ao sistema educativo do país que não estimula a demanda.
Há outras formas indiretas de se verificar o volume rasteiro de bons livros consumidos no país. Basta olhar o preço dos livros. Baixa demanda, alto custo por volume. Um livro de literatura japonesa ou alemã custa 60, 70 reais (enquanto um best seller com mais folhas como O Código da Vinci ou algum livro sobre o Steve Jobs sai por menos de 30, já que o maior volume dilui custos e sai mais barato)
O resultado se vê na prática. Alcançamos sempre, de três em três anos, uma das piores médias nos testes internacionais de linguagem (Pisa).
É evidente que o Brasil não vive na Idiocracy, mas estamos muito mal SIM quando o assunto é leitura!
Eu adoro ler. Sempre gostei e lembro de ter lido quase todos os livros da série vaga-lume e também trocava cartas com o autor Marcos Rei, pois é, em uma época que não existia twitter, facebook e essas coisas era na carta mesmo. E eu ficava super feliz quando ele respondia com uma letra horrível que eu não entendia, tenho as cartas guardadas até hoje. Mas durante a minha infância eu era a unica do meu grupo que gostava de ler e já ouvi uma pessoa falar que tinha nojo de livro, pra mim é uma questão de estilo e é só você encontrar aquele que te agrada. Atualmente devo ler mais de 15 livros por ano e ainda é muito pouco perto do que eu gostaria.
Eu amo ler, procure ler todos os dias, com isto leio em média 15 livros por ano, se não mais =D
Excelente texto, Yabu. Como sempre.
Sempre cresci ouvindo que brasileiro não gosta de ler, e confesso que já acreditei nisso. Hoje em dia, me parece apenas uma desculpa dos que, de fato, não gostam; uma maneira de culpar a nacionalidade por sua própria limitação. Quanto mais acreditarmos que brasileiro tem SIM capacidade e gosto pela leitura, mais incentivo as próximas gerações terão para se envolverem no mundo da palavra escrita.
Um dia esse mito bobo deixa de existir.
Yabu,
Quanto é a tiragem dos seus livros? Vamos extrapolar, digamos que você venda 1.000.000 de livros. Você acha que 1.000.000 de livros vendidos representam o Brasil?
Seu livro, assim como o do Eduardo Spohr (apesar do público distinto) são livro de nicho. Vocês pegam a ‘nata’ dos leitores. Não dá pra comparar achando que seus leitores representam a média.
Você cita Thalita Rebouças, com suas tiragens de 50.000, novamente eu pergunto, 50.000 adolescentes representam o Brasil?
Você não considera esses números pequenos?
A Bienal do Livro há muito tempo deixou de ser um local para compra e descoberta de livros para se tornar um passeio da classe média. Mesmo porque os preços praticados na bienal, normalmente, são exatamente os mesmos das lojas.
Por fim, sou estudante de Biblioteconomia e trabalho em bibliotecas, posso te dizer com dor que é visivel, mesmo numa biblioteca universitária aberta a comunidade, que não, brasileiro infelizmente ainda não descobriu o amor pela leitura.
Esse quadro está mudando, mas muito devagar. Acredito existirem diversos fatores pra isso , o preço dos livros como um dos principais fatores – mas não o único como disse, mesmo em bibliotecas não existe tanto interesse por parte da população.
Pra fechar, não é preguiça não, mas é legal ao citar dados, linkar as fontes. Não só pra facilitar a vida do leitor, mas pra dar credibilidade. Digo isso não com motivo de invalidar seus pontos nem nada disso, longe de mim, mas como crítica construtiva mesmo.
Belo texto, Yabu! Fui introduzido ao maravilhoso mundo dos livros há uns 10 anos, quando fui presenteado com o primeiro Harry Potter pela minha mãe. De lá para cá, não parei mais. Recentemente dei uma pausa na leitura por conta do vestibular que prestei ano passado, mas já estou recuperando o tempo perdido!
Esse amor por livros acabou criando em mim um amor pela escrita. Escrevo no meu blog por hobby há 4 anos, mês que vem começo a faculdade de Jornalismo, e sonho em um dia ter um livro publicado!
Você, Eduardo Spohr, Paula Pimenta entre tantos outros me influenciam, e me fazem acreditar que um dia esse sonho se tornará realidade. Faço parte do Brasil que lê, um Brasil com imenso potencial!!
Eu gosto! E tenho orgulho em fazer parte dos 95 milhões e de ter incluido minhas filhas nesta lista!
Sou professor de ensino fundamental e posso ilustrar essa panorama com os “bastidores” da escola na qual trabalho: a merendeira está sempre comentando suas leituras, e seus livros ficam pelos cantos do refeitório, enquanto alguns professores já comentaram bem baixinho durante as reuniões: “eu não gosto de ler”.
Respondendo à pergunta: Gosto muito!
Acho que tudo depende da pessoa encontrar o tipo de leitura que a agrade, além de algum empurrão dos pais, professores, avós, etc.
Meu filho foi acostumado com livros desde muito cedo e lê praticamente de tudo. Livros sempre foram “presente” para ele e ir à Livraria Cultura era tão divertido quanto ir à Playland. Aos 13 anos, está terminando o segundo livro de As Crônicas de Gelo e Fogo.
Já minha sobrinha, dois anos mais velha que ele, não foi criada com livros até que minha cunhada casasse com meu irmão, quando ela tinha por volta de 6 anos. Mas depois que ela descobriu os livros com histórias de vampiros adolescentes, está sempre com um exemplar por perto. Já deixou a Meyer para trás e começou a ler algumas coisas mais “sérias”. Um livro sempre puxa outro livro…
Cara só posso dizer parabéns, não é todo mundo que gosta de falar sobre esse tema, infelizmente no Brasil eu acho que a leitura é deixada em segundo plano, mas com certeza muita gente lê.
No meu caso odiava leitura na infância e adolescência, pois achava um saco ler Machado de Assis e José de Alencar. E o que contribuía mais era que meus pais não tinham o hábito de ler, o que me restringia apenas aos livros de escola.
Hoje leio em media 5 livros por ano, e a leitura passou a ser parte do meu dia a dia.
Mais uma vez parabéns pelo texto e pelo seu sucesso.