YabloG! - Author Archives

Author Archives: Fábio Yabu

Sonic

setembro 8th, 2005 | Posted by Fábio Yabu in Crônicas - (2 Comments)

Um clichê que as pessoas adoram repetir é o quanto as crianças podem nos ensinar coisas. Eu acho essa afirmação equivocada e um tanto quanto ilógica, já que ensinar é transmitir conhecimento e é justamente a falta de conhecimento que torna as crianças tão encantadoras e seus sonhos tão reais.O que as crianças fazem, nem tanto pela natureza dos seus atos em si, e mais pela obviedade da coisa é nos desensinar. Elas nos desensinam a ser sérios, a falar, a andar, a brincar. Nos lembram de como nos éramos antes de sermos contaminados pelo conhecimento e todas as suas consequências ruins como os preconceitos, que aliás, rapidamente se alastram entre a molecada criando seus grupos e panelinhas desde o jardim da infância.

Uma das coisas mais importantes que uma criança faz, e que todos deveríamos fazer mas com o passar dos anos nos esquecemos é perguntar “Por que?”. Repare que não adianta dar uma resposta nas coxas para uma criança. Ela quer saber o porque. A explicação, racional para aquela questão, apoiada firmemente na lógica, seja ela qual for.

Era como na minha infância, quando me disseram que existia um “Papai do Céu” que morava nas nuvens. Aquilo simplesmente não fazia sentido pra mim, não tinha lógica já que as nuvens eram feitas de algodão doce e algodão doce é mole e melado, oras. Como um velhinho barbudo vai passar a vida dormindo em cima de algodão doce? Ninguém merece!

Ou então a minha amiga Cínthya, que quando era criança quebrou o braço bricando de Mulher-Maravilha. Levaram a danada pro hospital mas ela não queria engessar de jeito nenhum porque… bem, ela era a Mulher-Maravilha e ninguém podia saber que ela tinha quebrado o braço. Foi então que o médico teve um lampejo de genialidade e sussurrou no ouvido dela “Eu vou te contar um segredo, Mulher-Maravilha. Eu sou o Homem-Invisível. Eu vou colocar um gesso invisível em você e ninguém vai ver!”. Ele engessou nossa super-heroína e ela saiu, feliz da vida do hospital, com a certeza de que ninguém descobriria que ela tinha quebrado o braço.

Mas isso não quer dizer que esse velho desenhista não tenha nada para ensinar para as crianças. Estávamos lá, eu e mais meia dúzia de pré-escolares jogando videogame quando alguém resolve jogar Sonic, o primeiro, que considero um dos jogos mais bonitos de todos os tempos. Todos já sabem de cor e salteado como passar das fases e chutar a bunda do Dr. Robotnik. Mas o maior segredo de todos ainda estava para ser descoberto. Com a autoridade de quem veio da geração 8 bits, perguntei em voz alta:

“Quem aí sabe escolher fase no Sonic?”

Eles me olharam com aqueles olhinhos arregalados, brilhantes. O Caio já se adiantou:

“Põe na última fase!!”

Peguei o controle. Lembrei das aventuras que vivi ao lado do Sonic na minha infância. Então fiz a mágica: PARA CIMA. PARA BAIXO. ESQUERDA. DIREITA. A. START.

Braços para o alto, gritos histéricos de alegria:

“O TIO SABE ESCOLHER FASE!! O TIO SABE ESCOLHER FASE!!”

Perdi a manhã inteira de trabalho, ensinando um a um como fazer o truque. Nos divertimos horrores passeando livremente por todas as fases do jogo. E agora eu tenho uma moral que “tio” nenhum tem com aquelas crianças! =D

2 filhos de Francisco

agosto 18th, 2005 | Posted by Fábio Yabu in Resenhas - (Comentários desativados)

O que faz um bom filme? Um roteiro inteligente? Direção e atores competentes? Personagens interessantes e uma história cativante, cheia de surpresas e reviravoltas? Uma trilha sonora decente com certeza não faz mal a ninguém, né?

Acredite: 2 filhos de Francisco – A história de Zezé di Camargo e Luciano (2005) tem tudo isso e mais um pouco.

O “acredite” da frase acima se faz necessário pois há um compreensível “pé-atrás” de boa parte do público em relação ao filme. Culpa do atual sistema que combina celebridades nacionais com cinema de baixa qualidade e que, logicamente, não dá uma boa liga – vide filmes da Xuxa, Padre Marcelo, Didi e Eliana Dedinhos.

É justamente nesse ponto que o roteiro esmerado de Patrícia Andrade e Carolina Kotscho se destaca. As duas utilizam a consagrada dupla sertaneja apenas como uma ponte para na verdade contar a história do pai dos cantores, Francisco Camargo, um trabalhador rural apaixonado por música e que sonhava com a carreira musical dos filhos. Interpretado brilhantemente por Angelo Antonio, Francisco é um típico brasileiro como tantos e, ao mesmo tempo, tão poucos. Sem instrução, dinheiro e, muitas vezes, comida, mas dono de uma ingenuidade que viria a ser seu maior trunfo, Seu Francisco jamais desistiu deste sonho. Ao preço de uma vida de sacrifícios, hoje pode contar sua história, que começa no nascimento do primeiro filho, Mirosmar (Zezé di Camargo), e vem até um emocionante show da dupla, não sem antes mostrar a construção do mega-hit que lançou os dois: “É o amor”.

Mesmo que essa história tenha sofrido “poetizações”, seus elementos mais importantes são retratados de maneira bastante realista, com fome, frio, deslumbramentos, decepções e até uma paralisia infantil de um dos filhos de Francisco, que também teve de lidar com uma tragédia ainda maior – mostrada lá pelo meio do filme. Os momentos alegres na infância e a vida adulta dos personagens existem, mas são mostrados de maneira honesta e bastante crível. Dos conhecidos contos de fada, a história só tem mesmo o final feliz.

Contudo, o filme também tem seus deméritos. Apesar da assustadora semelhança com Zezé di Camargo, Marcio Kieling deixa muito a desejar em sua atuação, e traz uma certa quebra no ritmo do filme que, até a fase adulta dos cantores, flui perfeitamente. Outro detalhe que incomoda são os excessivos e intrusivos merchandisings, incluindo a aparição da atual logomarca do Bradesco (criada em 1997) perdida numa cena ambientada no comecinho da década de 90. Um detalhe pequeno, mas que podia ser evitado.

Dirigido pelo premiado diretor de fotografia Breno Silveira, 2 filhos de Francisco cai na estrada com o pé direito. Vencer preconceitos, pelo menos da crítica, foi sua maior vitória até agora. Resta torcer para que em sua estréia o filme também ganhe o merecido respeito do público.

2 filhos de Francisco – A história de Zezé di Camargo e Luciano
Brasil – 2005
Drama, 132 min

Direção: Breno Silveira
Roteiro: Patrícia Andrade e Carolina Kotscho

Elenco: Márcio Kierling, Thiago Mendonça, Ângelo Antônio, Dira Paes, Paloma Duarte, Dablio Moreira, Wigor Lima, Marco Henrique, Maria Flor, Natália Lage, Jackson Antunes, Pedro, Thiago, Lima Duarte, José Dumont

Frio

agosto 7th, 2005 | Posted by Fábio Yabu in Crônicas - (1 Comments)

E eu me lembro do frio.

Tarde de domingo tranquila em minha casa, resolvi sair para comprar Coca Light na padaria em frente ao prédio. Antes, tomei banho.

Ao sair do elevador, vestido casualmente e despreparado para o vento geladinho que me atingiu, lembrei-me de como é delicioso andar no frio com os cabelos molhados. É uma sensação única. Priceless.

Como toda sensação, ela começou a despertar memórias, ocasiões diferentes em que senti aquele mesmo ventinho gelado.

Minha mãe tinha acabado de me agasalhar. Estávamos de férias no camping, era final de tarde e eu vivia no auge da independência aos 7 anos de idade. Resolvi andar no jardim. Eu tinha luvas. Um agasalho, meias de lã, talvez estivesse até com duas calças. Mas minha mãe disse para eu não ir muito longe, por causa do sereno.

“Sereno?”

Minha mãe me explicou que eram gotinhas bem fininhas que caíam do céu à noite, aquelas que cobriam o carro e o deixavam esbranquiçado. Mas até aí, eu era invencível e não iam ser umas gotinhas de “sereno” que iriam impedir minha exploração. A não ser que…

“Mas mãe… se cair em mim, eu congelo?”

“Hmm… é. Congela.”

Olhei para o lado e vi um pequeno arbusto com algumas flores. Cheguei perto delas, olhei e vi pequenas gotinhas cobrindo-as. Elas estavam paradinhas… congeladas!

Era verdade!

Ainda que com a minha confiança abalada, resolvi continuar a exploração e não ir muito longe conforme as recomendações maternas. Minha motivação havia mudado: o que eu mais queria era andar pelo camping e descobrir quantos trouxas desavisados pelas suas mães haviam congelado e virado estátuas de gelo.

Não encontrei nenhum. Mas devem estar lá, congelados, até hoje.

Mais tarde, com mais ou menos uns 12 anos, participei de uma excursão para Campos do Jordão, juntamente com todos os amiguinhos da minha turma da natação. Voltávamos para Santos à noite, de banho devidamente tomado e acompanhados de nossas respectivas mães.

O pessoal era gente boa, viu. Não lembro o nome de nenhum deles. Mas eu lembro das musiquinhas no ônibus.

“Eu tava na janela
Passou um urubu
Tomando Coca-Cola
Arrotando pelo cu…”

Essa era uma das mais leves. Acho que as mães nem ligaram muito, porque me lembro que o repertório de músicas era enorme. Eu ria muito, quando minha mãe me chamou a atenção para um relógio numa rua indicando a temperatura: 2 graus positivos. O que certamente seria motivo para deseducados adjetivos vindos de um adulto, para mim e meus amiguinhos acabou lembrando mais uma canção:

“Eu tava na cozinha
Tomando um sorvete
O sorvete escorregou
E caiu no meu cacete…”

Alguns anos mais tarde, a sensação do vento gelado nos cabelos molhados contiuava tão boa quanto na época em que o sereno congelava as pessoas no camping. Mas não era apenas o vento que tocava meus cabelos naquela noite. Era a mão dela.

O frio condensava meu hálito, gelava minhas bochechas e meu nariz, e me dava um motivo a mais para abraçá-la e nunca mais deixá-la ir. Devia estar mais ou menos uns 9 graus naquela noite. Mesmo que ela tenha teimado em ir embora tantas vezes, eu continuo sentindo o frio. Com um pouquinho de vontade, também dá pra sentir o calor.

Previsão para 08/08 – By Climatempo.com.br
A frente fria chega em São Paulo nesta segunda-feira e muda o tempo. Todas as regiões paulistas terão um dia de sol e muitas nuvens. Há previsão de chuva à tarde no sul e no leste do Estado. A temperatura entra em declínio.

Grey’s Anatomy

julho 31st, 2005 | Posted by Fábio Yabu in Resenhas - (1 Comments)

Taí uma série que estou gostando de acompanhar. Inteligente, leve e divertida, Grey’s Anatomy conta a história da Dra. Meredith Grey e seus amigos como residentes de um hospital em Seattle. É, mais uma série que se passa em um hospital. Apesar do tema não ser muito original, os personagens são divertidos e as histórias muito bem escritas, além do elenco super competente. Destaque para a nova queridinha da mídia americana, Sandra Oh (de Sideways), considerada por mim a mulher feia mais bonita do mundo. Ou a mulher bonita mais feia do mundo? Ourévah!
Onde? Quinta, às nove da noite, no Sony Entertéinmentê Televíjion, como dizem seus “hosts” Lívia Prestes e Sidney Santiago (que em matéria de dislexia só perdem para a Jéssica e o Cauê, do SBT).

Kung-Fusão

julho 29th, 2005 | Posted by Fábio Yabu in Resenhas - (Comentários desativados)

Sabe aquele filme que você não dá nada, mas que depois de assistir você sente como se tivesse descoberto uma jóia rara? É como aconteceu comigo com filmes como Pequenos Espiões, O chamado, Escola do Rock, Um drink no Inferno… filmes que eu considero excelentes apesar das premissas serem aparentemente bobas ou exclusivamente comerciais.Kung-Fusão é mais um que entra honrosamente nessa categoria.

Gente, o filme é bobo. As piadas são bobas. As lutas são hilárias. Tem cenas tão inocentes que remetem a um humor quase primário.

Mas não se deixe enganar. Se você olhar por trás dos dentes voando, da velha com bobs na cabeça mestra em kung-fu, no alfaiate afeminado que também é mestre, vai ver uma história sensível, delicada, belíssima, com dezenas de referências a cultura oriental, artes marciais, ensinamentos budistas e mais um monte de coisas que eu simplesmente não consegui pegar da primeira vez que vi porque estava embriagado pela MARAVILHOSA direção de arte do filme, especialmente seus últimos 20 minutos.

Por trás do non-sense, das cenas e dos personagens totalmente imprevisíveis, é possível ver o crescimento de seu protagonista Sing mesmo que ele simplesmente suma no meio do filme! O jeito em que o roteiro é construído e os personagens são introduzidos beira o genial. É um tipo novo de comédia, que deve redefinir o gênero assim como O Chamado fez com o terror.

Uma aula, viu. De quando se deve rir de si mesmo, de quando se deve se levar a sério. Sinceramente, se o mesmo filme fosse feito sem as piadas, Kung-Fusão seria facilmente considerado filme “de arte”. Assista e supreenda-se!

(Ah: e se você puder, assista a Shaolin Soccer (Kung-Fu Futebol Clube) antes. Também é absurdamente divertido, e te prepara um pouco para o que vem a seguir)

  • Twitter
  • Facebook
  • YouTube