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Justiça

Publicado em Dezembro 30th, 2006 in Budismo by Fábio Yabu

Não sou muito de postar historinhas aqui, mas essa realmente mexeu comigo. Transcrevo o que ouvi na última palestra do ano da Monja Coen sensei:

“Havia um rei conhecido pela sua bondade e seu forte senso de justiça. Um dia, esse rei decidiu distribuir sementes a seus 10 empregados, mas em suas mãos ele tinha 11 sementes. Sem saber como fazer uma partilha justa, ele voltou-se para os deuses e pediu que fizessem a divisão por ele.

Então, os deuses realizaram seu desejo e distribuíram as sementes de forma totalmente desigual. Um empregado recebeu 3 sementes, outro 2, alguns uma e alguns nenhuma.”

Pra pensar durante o reveillón! :P

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Lançamento: Sempre Zen, de Monja Coen

Publicado em Dezembro 15th, 2006 in Budismo by Fábio Yabu

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Neste domingo, será lançado Sempre Zen - Aprender, Ensinar, Ser, o segundo livro de Monja Coen Sensei, na Livraria da Vila, em São Paulo. Quem puder prestigiar vai poder ver porque ela é a monja budista mais importante e conhecida do Brasil, e quiçá aprender um pouquinho com sua presença iluminada.

O livro traz uma série de reflexões da Monja sobre o cotidiano. Vida, morte, meditação, paz, entre outros temas, são abordados sob a ótica budista, ao mesmo estilo de seu livro anterior, Viva Zen. Tenho a felicidade de poder acompanhar seus ensinamentos regularmente, por isso recomendo de coração seus livros, para pessoas de todas as religiões.
Anote aí:

Livraria da Vila
Rua Fradique Coutinho, 915 - Vila Madalena
Domingo, 17 de dezembro
Das 15 às 17h

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O significado de “Dharma”

Publicado em Setembro 18th, 2006 in Budismo by Fábio Yabu

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(Esse texto pode conter spoilers sobre a segunda temporada de Lost)

Continuando a série de explicações sobre os termos orientais em Lost, a palavra Dharma dá nome à sinistra iniciativa que parece estar por trás dos mistérios da ilha.

Assim como todas as palavras originárias da Índia, Dharma não tem apenas uma tradução, sendo adotada em diversas linhagens religiosas, notadamente o budismo, que por sua vez também tem suas subdivisões. De uma maneira genérica pode-se dizer que o Dharma é o “caminho iluminado”, a verdade suprema, cujas interpretações podem variar de uma cultura para outra. Como o seriado não deixa claro sob qual ótica a palavra é vista, darei aqui algumas explicações um pouco mais focadas no zen budismo japonês, pelo qual tenho maior interesse e conhecimento.

Para o budismo, o Dharma é uma das três jóias sagradas. As outras duas são Buda e Sangha. Buda representa o ser iluminado, e é aí que as tradições budistas conflitam. No zen-budismo, a palavra Buda não se refere a um ser de natureza divina ou superior (como ocorre por exemplo no Budismo Tibetano, linhagem do Dalai Lama), e sim ao “ser iluminado” que existe em cada um de nós. Sangha representa a comunidade praticante, budistas que se apóiam e meditam juntos, sejam monges ou leigos (e numa análise mais aprofundada, todos os seres da Terra). E Dharma é o conjunto de ensinamentos do Buda histórico, transmitidos há mais de 2500 anos que representam o “caminho iluminado”.

Assim como seu contemporâneo Sócrates, o Buda histórico não deixou ensinamentos escritos. Todos os seus ensinamentos (dizem que mais de 84.000) foram documentados por seus discípulos e transmitidos a partir de então. Se fosse possível resumí-los de uma maneira simples, eu me arriscaria a dizer que o Dharma é a percepção da grande verdade, superior à bondade e maldade, e até mesmo a verdade e a mentira. É a percepção de que tudo está interconectado, ser humano, animal, pedra, espaço, que não existe um eu individual separado do divino. Esse é o caminho iluminado.

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Namastê

Publicado em Agosto 28th, 2006 in Budismo, Lost by Fábio Yabu

Quem acompanha Lost já deve ter reparado que o Dr. Marvin Candle (e o misterioso Mark Wickund), bem como todos os associados à Dharma Initiative costumam se despedir dizendo “Namastê”. Mas o que essa palavra significa?

Namastê é um cumprimento originário da Índia. Numa tradução do sânscrito bem ao pé da letra, nama significa “reverenciar” e “te”, você. Entretanto, seu verdadeiro significado é muito mais profundo, escondido na simplicidade de apenas duas sílabas. A “tradução” mais frequente seria “O Deus que habita em mim saúda o Deus que habita em você“. O gesto não apenas virou um cumprimento tipicamente budista mas também resume claramente a filosofia criada pelo Buda histórico.

É um cumprimento completamente diferente de um “Olá, adeus, Deus te abençoe“. Namastê traz o sagrado para dentro de cada ser humano, e como a filosofia budista afirma, Deus não está no céu, num templo ou mesmo na natureza. Deus está em tudo, em cada um de nós e qualquer dissociação da imagem do divino da nossa é inútil. Ao fazer namastê, afirma-se que todos somos filhos e partes do sagrado, indissociáveis e iguais.

No Namastê, as mãos se encontram na altura do coração, simbolizando a união das polaridades, esquerda e direita, bem e mal. É mais uma lembrança da nossa unidade com Deus e o universo. Frequentemente fecha-se os olhos, para então curvar-se a coluna, em sinal de respeito à divindade que preenche todos os espaços do universo. A coluna retorna à posição ereta mais lentamente do que quando abaixou, também simbolizando respeito à outra pessoa.

Agora, todo mundo aqui já pode fazer Namastê! :D

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“A cada 108 minutos, você deve digitar… peraí, começa de novo! Gravando!”

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Publicado em Maio 3rd, 2006 in Budismo by Fábio Yabu

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Avalokitesvara

Quanto mais se aprende, mais fácil fica de se enxergar o extraordinário.

Como se eu já não estivesse ficado radiante com a aura de compaixão que o Dalai Lama emana, hoje fiquei aprendi mais uma lição que trouxe um sorriso ao meu rosto.

Segundo a Monja Coen Sensei, Avalokitesvara é como é conhecido o bodhisattva da compaixão, representado na figura terrena do Dalai Lama. Avalokitesvara tem 33 manifestações diferentes.

O discurso do Dalai Lama na Catedral da Sé teve exatos 33 minutos. :)

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Como foi a visita do Dalai Lama

Publicado em Maio 1st, 2006 in Budismo by Fábio Yabu

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Foto: Dalailama.org
Tive a imensa felicidade de ver Sua Santidade o Dalai Lama em dois dias durante sua visita na semana passada, por isso vou compartilhar com vocês alguns ensinamentos aprendidos e também as minhas impressões sobre essa figura histórica.

Sexta, dia 28
Sessão 1: Mente e coração abertos
Sessão 2: Ciência e espiritualidade

O primeiro seminário, realizado no dia 28 de abril, estava marcado para começar às 9:30 da manhã no Palácio de Convenções do Anhembi. O evento teve grande adesão dos professores da Unifesp e de muitos profissionais da saúde, mas por pouco não começou conturbado com gente brigando pela falta de lugares, reação elegantemente contida pelo locutor com a frase “gostaria de lembrar a todos que esse é um evento de paz”. No final, todos conseguiram se sentar para ouvir um longo, inexpressivo, e totalmente sem pé nem cabeça discurso de José Gregori, ministro da justiça do governo FHC.

Finalmente pudemos ouvir à Sua Santidade, que abriu o dia dizendo que se alguém estava lá procurando por um ser milagroso com poderes de cura, ele próprio também procurava há anos, para curar uma coceira em sua nuca. Sempre muito espirituoso, o Dalai Lama fez piadas e ria sozinho o tempo todo. “Ele é um fofo”, foi o que se ouvia por todo o Palácio de Convenções.

Basicamente, o Dalai Lama falou sobre a compaixão, e em nenhum momento levantou bandeiras quanto à causa tibetana ou à religião budista. Apresentou dados e fatos sobre o uso da compaixão na recuperação de doentes ou feridos, e disse ter uma profunda fé que a evolução da humanidade está em curso. “Há 50 anos, os países costumavam entrar em guerra e eram apoiados por seus cidadãos. Isso começou a mudar na década de 70, e hoje, dificilmente um governo entra em guerra com o apoio da população. A humanidade está evoluindo, mas precisamos fazer muito esforço para que a mudança aconteça.”, concluiu, otimista.

A educação também foi um tema abordado: “Devemos ensinar o uso da compaixão desde cedo para que se construa uma sociedade melhor. Do jardim da infância à universidade.” Ele próprio um profundo admirador da ciência, também defendeu a integração entre ciência e religião, dando o exemplo dos monges tibetanos que hoje têm aulas de física. O tempo todo mostrou-se desarmado e aberto à novas opiniões: “Eu acho que a ciência pode responder a muitas questões que a religião não pode. Mas não me pergunte como começou o mundo, eu não sei e ninguém pode provar nada a respeito disso.”

Sua Santidade também esclareceu um mito budista que diz que todo o desejo é ruim. “Nem todo o desejo é ruim, isso é uma interpretação errada do budismo. Podemos desejar as coisas que precisamos. Facilidades materiais podem ser desejadas. Precisamos desejar um mundo melhor. O que não podemos ter é apego, o sentimento de desejo por coisas que não necessitamos e carregado de preconceito”.

Discursando em inglês, que facilitou muito a compreensão tanto de suas palavras quanto de seu espírito brincalhão, ele começava a defesa de cada ponto de vista com a frase “I think…” (”eu acho…”), e terminou o dia dizendo que tudo o que ele falou eram apenas impressões pessoais, com as quais ninguém era obrigado a concordar, da mesma forma que Buda costumava dizer.

Ao final das duas sessões, o Dalai Lama abriu para perguntas elaboradas por profissionais da saúde. Perguntas que, devo dizer, fizeram a platéia regurgitar, de tão bobas e primárias, estranhamente repetindo temas falados durante o dia todo por Sua Santidade. Mas ele não perdeu a compostura, e encerrou o dia fazendo uma brilhante analogia:

“Eu acredito que o ser humano tem a natureza gentil. Não temos garras ou dentes afiados como os tigres. Nesse aspecto, somos muito mais parecidos com os coelhos. Nossas mãos não foram feitas para dar socos, pois se fosse assim, elas viriam fechadas e não teriam os dedos que usamos para acolher.”

Sexta, dia 29: O poder da compaixão
O evento do sábado foi realizado para um número bem maior de pessoas, aproximadamente seis mil que lotaram o Ginásio do Ibirapuera. Recebido com a irritante reação do público que o tratou como popstar, Sua Santidade teve que pedir para maneirarem nas palmas e assobios.

O Dalai Lama discursou em inglês durante duas horas, acompanhado sem grandes problemas pela platéia que ria e batia palmas antes mesmo da tradução. Como no dia anterior, ele falou muito sobre o poder da compaixão e novamente abriu para perguntas, dessa vez com a participação do público. Algumas perguntas vieram de crianças de 5 e 10 anos e, como era de se esperar, foram muito mais profundas do que as feitas no dia anterior pelos profissionais da saúde e da Unifesp.

“O senhor tem raiva? Por que?” perguntou uma menina. Com um sorriso no rosto o mestre respondeu “Sim, às vezes eu perco meu temperamento. Não gosto quando as coisas dão errado. Sinto raiva porque sou um ser humano! Porém, eu procuro não guardar isso, não me apegar a essa raiva.”

Como no dia anterior, Sua Santidade não tentou fazer nenhuma imposição e encerrou o dia convidando todos à reflexão: “Bom, isso era o que eu tinha para dizer. Se vocês acham que faz sentido, pratiquem, se não, tudo bem, não faz mal! Eu vou embora amanhã mesmo…”

Aparecidos ou não
Me causou estranheza e repúdia a faixa colocada por um vereador na entrada do Anhembi: “O vereador Sbrubbles saúda Sua Santidade o Dalai Lama”. Enquanto alguns tentavam aparecer demais, nosso presidente Lula, assim como FHC fez anteriormente, não se deu ao trabalho de receber Sua Santidade. Uma verdadeira gafe frente a uma das figuras mais importantes para a divulgação da paz e tolerância entre os povos no último século, ainda que o Brasil faça vista grossa para a questão tibetana e não reconheça o Dalai Lama como líder do Tibet. Mais uma bola fora do nosso presidente, que notoriamente não leva lá muito jeito com lideranças mundiais…

Cobertura da Folha de S. Paulo
Muito triste a atitude da Folha de S. Paulo, que trouxe matérias carregadas de preconceito e achismos dos repórteres a respeito do budismo e do próprio Dalai Lama:

Dalai-lama reúne público hippie chique
LAURA CAPRIGLIONE
DA REPORTAGEM LOCAL

Só a gente é assim, hippie e chique; um pouco Daslu, um pouco Woodstock.” Foi dessa forma que a publicitária paulistana Ana Carolina Vieira Lustosa, 47, definiu a platéia que o dalai-lama reuniu ontem em Cotia, na Grande São Paulo. Praticante do budismo há cinco anos, Ana Carolina vestia uma saia reta transpassada até o tornozelo em seda marrom, o look arrematado por “sandalinhas” Prada. Nos pulsos, voltas de colares de pérolas. A blusinha, simples, era de algodão da GAP.
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2804200617.htm

“Já que nossa vida começa e termina com a necessidade de afeto e cuidados, não é sensato praticarmos o amor e a compaixão enquanto podemos?”
Tenzin Gyatso, o 14º Dalai Lama.

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Dalai Lama

Publicado em Abril 27th, 2006 in Budismo by Fábio Yabu

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Como todos já devem estar carecas (trocadilho acidental) de saber, hoje chega ao Brasil Sua Santidade o décimo quarto Dalai Lama. Junto com a massiva cobertura da mídia, foram divulgados também diversos equívocos não só quanto à Sua Santidade mas também sobre a filosofia budista. Vou esclarecer alguns aqui:

1. Pra começar: quem é o Dalai Lama e por quê “décimo quarto”?

Dalai Lama é como é chamado o líder político e religioso do Tibet, hoje sob o domínio da China. Diz a lenda que a rigor um Dalai Lama é a reencarnação do anterior, um bhodisatwa: um ser iluminado cuja única função é ajudar os outros.

2. Como é escolhido o Dalai Lama?

No caso do atual Dalai Lama, o cadáver de seu antecessor teria virado o rosto para o leste, onde havia uma curiosa formação de nuvens e um fungo em forma de estrela. Segundo os tibetanos, essa foi a forma do Dalai Lama indicar onde ele renasceria. Iniciou-se então uma rigorosa busca, finalizada quando o menino Tenzin Gyatso, de apenas 2 anos foi encontrado.

Para os leigos, a busca pelo Dalai Lama pode parecer um tanto fantasiosa. Mas uma pesquisa um pouco mais aprofundada do processo e da belíssima cultura tibetana revela aspectos fascinantes, como a rigorosa bateria de testes e entrevistas que exigem que os “candidatos”, meninos de 2 anos de idade, revelem nomes, lugares e localizações de tesouros que somente o Dalai Lama anterior conhecia.

3. O Dalai Lama é a reencarnação de Buda?

Não, definitivamente não. Essa afirmação soa quase ofensiva para qualquer estudioso do budismo.

Existem inúmeras escolas budistas pelo mundo, que seguem os ensinamentos do Príncipe Sidarta Gautama, fundador do budismo há 2600 anos. Entretanto, o buda “histórico” foi muito mais um filósofo do que uma figura religiosa, um cientista do corpo e da mente humana. Suas descobertas deram origem a diversas escolas budistas no oriente, sendo que cada uma o via de uma forma diferente, daí surgiu sua imagem lendária e mística.

Independente da escola, em NENHUMA delas Buda é um Deus. Buda significa “o ser iluminado“, mas não trata-se apenas do Príncipe Sidarta que viveu na Índia, e é aí que surgem muitos dos equívocos ocidentais sobre a filosofia budista: Buda na verdade é o ser iluminado que existe em cada um de nós. Ao olhar, venerar ou orar para Buda, estamos olhando para nós mesmos, e nunca para um Ser Supremo ou superior. Segundo a filosofia budista, todos somos seres iluminados, budas, que possuem a capacidade de ter compaixão e ajudar o próximo.

Por isso, dizer que o Dalai Lama é a reencarnação de Buda é um grande contrasenso.

4. O Dalai Lama é o “Papa” do budismo?

Jamais! O budismo é uma religião descentralizada, com inúmeras escolas e tradições diferentes e muitas vezes, contraditórias em alguns pontos. O Dalai Lama é o líder de apenas uma delas, o budismo tibetano. Entretanto, nunca se teve notícia de conflitos entre as diferentes escolas budistas, já que a compaixão e a compreensão são pedras fundamentais de todas elas.

Apesar da descentralização, as mais de 300 viagens ao redor do mundo feitas pelo Dalai Lama disseminando os ensinamentos de Buda são apoiadas por todas as diferentes tradições, inclusive no Brasil.

5. Por que o budismo é uma religião tão “pop”?

Existem várias respostas para a expansão do budismo no mundo ocidental.:

  • O próprio Dalai Lama: com seu carisma e os meios de comunicação do século XX levou o budismo tibetano para os quatro cantos do mundo.
  • A meditação: A principal prática budista, estudada tanto por leigos quanto por cientistas, intrigados com seus efeitos sobre o corpo e a mente. Alguns monges em estado meditativo conseguem façanhas como elevar a temperatura do corpo em até 10 graus ou então reduzir os batimentos cardíacos para impressionantes 3 por minuto (!!).
  • Contexto sócio econômico: uma teoria interessante de Osho diz que o budismo é uma religião de ricos e bem informados, e faz sucesso entre eles ao pregar o desapego aos bens materiais por eles já conquistados e experimentados. Essa teoria encontra ressonância com a própria figura do Buda histórico, que teve tantos seguidores justamente por ser um príncipe e ter pertencido à mais elevada casta social.
  • Budismo como “segunda religião”: O budismo não precisa ser necessariamente considerado uma religião. Qualquer um pode seguir seus ensinamentos e manter sua religião atual sem que elas conflitem, uma vez que o budismo não tem Deus. Trata-se, essencialmente, de um conjunto de práticas que busca equilibrar corpo mente e meio ambiente.

6. Religião sem Deus? Então não é religião.

Para muitos, não. Por isso, é equivocada também a comparação das figuras, mesmo que históricas, de Buda e Jesus. O primeiro era um filósofo, humano, falho, que morreu de disenteria após comer carne de porco, que dizia que não queria ser venerado e que não sabia o que aconteceria depois que ele morresse. Já Jesus é a figura do Messias e Salvador da humanidade, humano e divino ao mesmo tempo, sobre o qual não é necessária muita explicação.

Entretanto, há muitos paralelos nos ensinamentos de ambos, especialmente nos Evangelhos Apócrifos e outras descobertas sobre a bíblia feitas em anos recentes. Discussão que fica para outro dia.

7. O que é carma? É tipo um programa de milhagem budista?

Não! A “Lei do Carma” é simples e idêntica à Terceira Lei de Newton, o princípio da Ação e Reação. “Para toda ação há uma reação oposta e de igual intensidade.”

Para entender o carma é preciso esquecer um pouco o conceito cristão de castigo e recompensa divinos. Não se trata de justiça divina, e sim de lógica: se você der um soco numa parede, sua mão ficará doendo e poderá quebrar. Se se acabar com aquela feijoada no sábado, terá dor de barriga e vai engordar. Se der amor, receberá amor e assim por diante. Ação e reação, totalmente independentes de qualquer conceito divino.

É basicamente o mesmo conceito do carma espírita.

Bibliografia:
Minha Terra e Meu Povo - A autobiografia de Sua Santidade, o Dalai Lama, Ed. Sextante
Buda, Caco de Paula
Palestras com Monja Coen Sensei

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Dalai Lama no Brasil

Publicado em Abril 9th, 2006 in Budismo by Fábio Yabu

O mundo muda muito quando você tenta ver as coisas de um ângulo mais aberto. Através do “olhar de Buda”, vendo todos os seres da Terra como um grande organismo vivo. Fronteiras desaparecem, enquanto as diferenças e as cores dos povos se tornam parte de uma belíssima pintura.

A filosofia budista não fala de salvação das almas, não fala em catequização dos povos, de conversa com os mortos, não “prega”. Nada contra nenhuma das religiões que faz essas coisas, pelo contrário, acho todas as religiões fascinantes e belas cada uma a seu modo. As religiões transmitem às pessoas retidão de caráter, princípios e, com seus avatares, inspiram os seres humanos ao melhor que eles podem ser. “Você pode ser bom“, é o que disseram Budas, Jesuses, Maomés através da história humana. E eu acredito. Você pode ser bom.

Mas a filosofia budista tem uma característica que acho tão bonita… é uma de suas pedras fundamentais, que fala que, ao atingir a iluminação, Buda teria dito: “Eu e todos os seres nos tornamos iluminados“. A bela e correta percepção, de 2600 anos, de que todos os seres da Terra são conectados, interdependentes e iluminados. Cada um à sua maneira, cada um ao seu tempo. Segundo o budismo, todos os seres humanos um dia atingirão a iluminação. Ou seja, o jogo já está ganho.

Acredito que por isso os povos e praticantes budistas sejam tão pacifistas e, de certo modo, otimistas. Porque a crença em um mundo melhor não é apenas um objetivo a ser seguido, mas uma realidade prestes a ser alcançada, de certo modo, já vivenciada por alguns. Pessoas como o 14º Dalai Lama, que este mês visita o Brasil pela terceira vez.

Esse menino, que aos dois anos foi identificado como a encarnação do Dalai Lama anterior, e após dois anos de rigorosos (e fascinantes) testes, foi reconhecido como tal. Aos cinco iniciou os estudos monásticos e aos quinze já era o líder político de um país. Cuja própria definição pode soar tão estranha para os céticos, mas que há 14 gerações manteve uma nação andando em paz e prosperidade: um Dalai Lama é um Bhodhisattva: alguém que renasce constantemente para ajudar as outras pessoas a alcançarem a felicidade. Essa é sua única função, inquestionavelmente nobre, que inspira tantos ao redor do mundo a não escolherem por essa ou aquela religião, mas por aquele caminho tão desejado por todos: a paz.

A presença do Dalai Lama no Brasil é um acontecimento muito especial. É uma oportunidade rara de presenciarmos alguém que deixou de ser homem para se tornar causa, lenda. Vencedor do Prêmio Nobel da Paz e de dezenas de outros títulos de mantenedor da paz, ele continua sua incansável luta pacífica por um mundo melhor.

Infelizmente, as inscrições para a maioria dos eventos que sua Santidade participará estão esgotadas. Somente há ingressos disponíveis para a palestra do dia 29 de abril, no Ginásio do Ibirapuera, além dos eventos gratuitos no mesmo dia. Abaixo, a programação ainda disponível:

29 de abril - sábado

O poder da compaixão

“A compaixão é uma atitude fundada na aspiração de que os outros se livrem do sofrimento. Está vinculada ao compromisso, responsabilidade e respeito para com o outro que, como nós, não quer sofrer e tem o direito à felicidade. Cultivar um sentimento de proximidade e de calor humano compassivo pelos outros, gera em nós um estado de paz. Esta é a causa mais poderosa de sucesso na vida.”

Horário: 10h às 12h
Local: Ginásio do Ibirapuera
Rua Manoel da Nóbrega, 1.361
04001-004, São Paulo - SP
Inscrição: R$ 20

Inauguração do Espaço Gandhi na Praça Túlio Fontoura

A praça foi revitalizada para acolher atividades recreativas inspiradas na Cultura de Paz.

Horário: 12h15 às 12h45
Local: Esquina da Av. Pedro Álvares Cabral com Rua Abílio Soares
Em frente ao Parque do Ibirapuera
Vagas ilimitadas com entrada franca

Co-realização: Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo; Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente; Comissão Municipal de Direitos Humanos; Subprefeitura de Vila Mariana

Celebração inter-religiosa pelo entendimento entre os povos

“Todas as religiões têm essencialmente a mesma mensagem, cujo objetivo é tornar seus praticantes melhores seres humanos mais pacíficos, generosos, compreensivos e sábios. Os avanços alcançados nessas últimas décadas pelo diálogo inter-religioso permitiram desenvolver confiança e respeito mútuo, o que sem dúvida contribui para aprofundar a compreensão de que a humanidade é uma só, e este pequeno planeta a nossa única casa.”

Horário: 14h30 às 16h30
Local: Catedral da Sé
Praça da Sé, s/nº
São Paulo, SP

Vagas ilimitadas com entrada franca
Co-realização: Arquidiocese de São Paulo

Onde quer que eu vá, sempre aconselho as pessoas a serem altruístas e bondosas. Tento concentrar toda a minha energia e força espiritual na disseminação da bondade. É o que há de mais essencial.
Tenzin Gyatso, o 14° Dalai Lama

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A barata diz que é zen

Publicado em Fevereiro 1st, 2006 in Budismo by Fábio Yabu

Era um dia de meditação e aprendizado budista como qualquer outro. Sentados em flor de lótus, ouvíamos a voz tenra da monja, tão baixa que precisava ser amplificada por um microfone dentro daquela sala onde cabiam pouco mais de quarenta pessoas.Ela falava da experiência de Sidarta Gautama debaixo da figueira, onde ele meditou por muitos dias (alguns dizem sete, outros quarenta e nove) até atingir a iluminação e se transformar em Shakiamuni Buda, o “ser iluminado”. Independente das controvérsias históricas, a experiência de Buda tem transformado metade dos seres humanos planeta há mais de 2500 anos.

Por mais cercada de misticismo que possa parecer, na verdade a iluminação é uma experiência simples de ser explicada: é a percepção de que não existe um “eu” individual separado de todas as outras coisas e formas de vida. Que todos somos apenas um grande organismo vivo e pulsante, atemporal, supremo.

Eu não sou eu. Sou árvore, cachorro, grama, barata.

Eis que, como se fosse um gesto ensaiado, me aparece uma barata no meio do templo. Daquelas enormes, quase do tamanho de um bife. Para não estragar a meditação de todos, só olhei de rabo de olho e fechei os olhos.

Mas é claro que uma barata daquele tamanho não podia passar despercebida. Então as pessoas começaram a interromper suas meditações, a se levantar um tanto quanto confusos, afinal, estávamos falando de respeito à todas as formas de vida, não?

Ninguém sabia o que fazer. Mata, não mata? Assusta pra longe? Convida para um chá?

Então um rapaz levantou e disse com uma irritante ternura: “Deixa que eu pego ela… e levo ela lá pra fora!”. Como se a coitada fosse deixar aquele ser humano de 1,70m pegá-la em suas mãos cheias de dedos.

A barata obviamente fugiu, e após algumas risadas, a monja continuou seu discurso, não se esquecendo de dizer que a barata deve sim, ser respeitada como forma de vida, que essa era a experiência da iluminação que atravessou milênios para transformar aquele momento numa lição de vida.

Bom. Acabou a palestra. Todos se levantaram. Algumas moças e rapazes passavam as mãos pelo corpo e pertences perguntando “Ai, credo! Ela passou por aqui? Ela passou por aqui?”

E em algum lugar do cosmo, Buda pôs a mão no rosto e disse “putz”.

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