YabloG! - Archive - Crônicas

Teve uma ideia? Problema seu!

março 13th, 2013 | Posted by Fábio Yabu in Crônicas - (10 Comments)

As pessoas têm uma noção fantasiosa da verdadeira natureza das ideias. Graças a essa noção, diariamente sonhos morrem e vidas se perdem. Este texto é a minha tentativa desesperada em ajudar aspirantes a escritores, desenhistas e artistas em geral. Poderia ser resumido à próxima frase, mas embora eu ache que só atrapalhe, vou tentar decupar um pouco seu conteúdo nos parágrafos seguintes. Se você não tiver 5 minutos para ler todo o resto, memorize somente isso:

UMA IDEIA É UM PROBLEMA DISFARÇADO DE SOLUÇÃO.

Se você teve uma ideia para um quadro, um livro, uma série de TV ou uma empresa de internet, você está entrando num mundo de problemas. Acredite, eu já tive todos. E assim como a maioria das pessoas, eu também já senti o entusiasmo contagiante que uma nova ideia traz, aquela vontade de sair falando, de mostrar pra mãe, arrastar meio mundo, registrar domínio, fazer um novo cartão de visita e jogar tudo para o alto. E já senti aquela mesma energia se esvair de mim como uma ressaca, esperando a euforia da próxima ideia, muitas vezes com uma certa depressão.

Não cabem adjetivos numa ideia, simplesmente por não existir ideia boa ou ruim. Ter uma ideia é como fazer a matrícula numa academia. É algo totalmente isento de valor. Quando você se matricula, pode até pedir que alguém te acompanhe durante os treinos. Mas o ato de ir – e continuar frequentando – é algo que só você pode fazer. Não há glória, não há vitória, não há nada enquanto não houver execução, frequência e disciplina empregados diariamente.

Seguindo este mesmo raciocínio, a ideia de “copiar” uma ideia se torna paradoxal. Ideias de como de fazer um carro, um blend de café, um romance, estão aí pelo ar. São livres, gratuitas, não é proibido fazer nada disso. Então por que tão pouca gente faz, e menos gente ainda o faz direito? Porque, na minha opinião, as pessoas têm uma certa tendência a se focar nas coisas erradas. Perdem tempo demais tentando copiar algo insípido e de valor quase zero que é uma ideia, e esquecem-se totalmente do grande quebra-cabeças que é a execução.

E é nisso que a maioria dos artistas que conheço pecam. Eles acham que, imediatamente ao ter uma ideia, o mundo lhes deve algo. E pior: tentam transferir para outras pessoas o ônus da ideia. Não é assim que funciona. Se você teve a ideia para um livro, ela só será de algum valor quando você tiver terminado de escrever. Não culpe a editora por não “acreditar em você”.

Nem eu, que escrevi isso tudo só pra te ajudar, acredito até ter o seu manuscrito pronto. Se você teve uma ideia para uma história em quadrinhos, olha, boa sorte, viu. Dá um trabalho danado, saiba ou não você desenhar. Uma ideia para um filme? Ai, ai, ai. Em tempo, lendas sobre gente que teve uma ideia mirabolante de uma empresa de internet e ficou milionária da noite para o dia são tão reais quanto a noção que este texto tenta desmistificar.

Livre-se dessas fantasias. Arranje um problema. E vá criar algo incrível.

Publicado originalmente no Brainstorm#9 em setembro de 2012. 

São Paulo é uma cidade doente

março 11th, 2013 | Posted by Fábio Yabu in Crônicas - (3 Comments)

7h59 da manhã. O ciclista atravessando a faixa de pedestres na Avenida Santo Amaro aparenta ser experiente: utiliza capacete e luvas e, no assento infantil da garupa, traz a filha de dois ou três anos vestindo um capacete rosa. Eu e minha Luna estamos na calçada a poucos metros, seguindo para uma outra escola da região.

Luna aponta para a mochila da Branca de Neve, nas costas do ciclista. “Olha, papai!”. O sinal abre. A saveiro avança, como se o pai e a filha tivessem sido banidos da existência. O ciclista inclina a bicicleta, vira-a quase 90 graus e se coloca entre a saveiro, que segue seu caminho buzinando em protesto, e um segundo carro que também avança, incólume. Um terceiro, que vem atrás, para. E a menina do capacete rosa e mochila da Branca de Neve, vive.

São Paulo é uma cidade doente. Uma cidade onde cenas como essa são corriqueiras. Onde as pessoas começam as conversas falando da “correria”. Onde se vive uma grande ilusão coletiva de auto-importância, onde o agora não basta, é tudo para ontem, todo mundo é importante e precisa resolver alguma coisa com urgência.

Estamos todos doentes. Deliramos, ao dar aos nossos problemas uma proporção maior que a vida humana. Ao acharmos que um carro é um sinal de status, mobilidade, proteção e poder – tal qual os cavaleiros medievais pensavam de seus cavalos.

Nossa prefeitura está doente. Na tentativa de educar a população sobre uma lei que é solenemente ignorada há anos, a gestão anterior levou mímicos para a mesma avenida Paulista onde duas ciclistas morreram ano passado e um acabou de perder o braço. Pensando bem, mímicos até que fariam sentido, já que nessa cidade todo mundo grita e ninguém se ouve. Mas São Paulo não faz sentido. E as pessoas continuam morrendo na Paulista.

O embate entre ciclistas e motoristas pelo espaço urbano já tem contornos de guerra. Só que ao dividir o mundo entre “nós” e “eles”, está sendo criada uma gigantesca bolha de ectoplasma esquizofrênico que traz para as nossas ruas o fundamentalismo cego cujo único propósito é servir de desculpa para o ódio. Eu já vi gente de bem, amigos meus, dizendo que “ciclista é folgado”. Amigos motoqueiros já quebraram retrovisores por aí. Sem falar, é claro, dos comentários em blogs e reportagens, verdadeiras fendas na realidade por onde o ódio pastoso, quase sólido, flui livremente. E assim seguimos, olho por olho, retrovisor por retrovisor, até que entre as estações Paraíso e Consolação reste somente uma enorme cratera fumegante.

Estamos todos doentes. Temos todos uma parcela de culpa na tragédia do domingo. Quem acha que um carro é sinal de status, quem não para na faixa de pedestres, quem não dá sinal e atravessa displicentemente, quem bebe uma cervejinha antes de dirigir, quem segue e divulga no Twitter as blitze da Lei Seca. Quem separa o mundo entre “nós” e “eles”. Nossa prefeitura, nossos governantes. Estamos cegos, surdos e loucos. O único inocente dessa história é o pobre ciclista, que só estava indo trabalhar – e nem de São Paulo era.

Em respeito a David Santos de Souza, que perdeu o braço na Avenida Paulista, os comentários estão fechados.

 

Um sonho de dez verões

janeiro 4th, 2013 | Posted by Fábio Yabu in Crônicas - (12 Comments)

(Ou: “Como previ meu próprio futuro numa história dos Combo Rangers)

Em 2001, eu escrevi uma das minhas histórias favoritas dos Combo Rangers: “Um sonho de dez verões“, em que o vilão Cardman rouba os sonhos de todas as pessoas do mundo, incluindo os dos nossos heróis. Surge então uma nova realidade, em que todos, incluindo os Combo Rangers, seguem os sonhos de outras pessoas e vivem sofrendo por conta disso.

Com esse terrível plano, o vilão consegue aquilo que nenhum outro havia conseguido até então: derrotar os Combo Rangers. Ele parte da Terra, vitorioso, e deixa os heróis completamente sem rumo e sem lugar no mundo.

Eis que eles então elaboram um plano para trazer a realidade de volta ao normal. A equipe se vê pela última vez em 2001 e se despede. Durante os 10 anos seguintes, os Combo Rangers deixam de lado os supervilões e percorrem o mundo, levando sua mensagem de otimismo e esperança, lembrando as pessoas do quanto é importante não desistir de seus sonhos. E depois de exatos 10 anos, eles finalmente se reencontram, mais velhos e experientes, de cabeça erguida, concluindo:

“Levou muito tempo. Dez anos. Dez verões. Quando tudo começou, a gente tinha vivido um pouco mais que isso. Depois de tanto tempo, depois de dez anos… nós podemos voltar a sonhar!”

Eu nunca imaginei que, de certa forma, estivesse escrevendo meu próprio futuro.

Dois anos depois, em 2003, sem ter como pagar o aluguel do apartamento muito menos os salários dos desenhistas, e ainda estar devendo mais de 20 paus no banco (20 paus de 2003, que na época devia equivaler a tipo 2 milhões de dólares), tomei uma das decisões mais difíceis da minha vida, a de aposentar os Combo Rangers, depois de tanto tempo de luta e sacrifícios. Nos dez anos seguintes, me reinventei, cresci e cai várias vezes. Rodei o mundo. Escrevi 15 livros, fiquei meio famosinho com as Princesas do Mar. Daí tentaram roubar meu sonho igualzinho o vilão dos Combo Rangers. Me levantei. De novo. Encontrei a mulher da minha vida, a Gica. E hoje temos a Luna, minha pequena princesa que adora desenhar e contar histórias.

Levou dez anos, dez verões. Hoje, graças à ajuda dos fãs que ainda se lembram da mensagem dos Combo Rangers… “nós podemos voltar a sonhar!“. A história (em duas partes) está abaixo, na íntegra. Esse papo maluco de prever o próprio futuro está bem no começo na parte 2. Veja – e ouça – por si mesmo (a) e me diga que não estou delirando.

P.S.: os botões para acessar outros episódios ou links não funcionam.
P.S.2: MUITO obrigado a todos que contribuíram. Se você ainda não ajudou, não tem problema: ainda dá tempo de participar da campanha e garantir seu exemplar. Vai lá: http://catarse.me/comborangers

Um sonho de dez verões, parte 1. Publicado em junho de 2001.


Um sonho de dez verões, parte 2. Publicado em junho de 2001.

 

 


Ilustração © Michel Borges.

Brasileiro não gosta de ler?

Durante a minha vida inteira, ouvi que brasileiro não gosta de ler. Mas por algum motivo, ao menos no microcosmo em que vivi a infância e a adolescência – com pai e mãe professores – aquilo não parecia verdade. Por isso, sempre encarei a afirmação com certa cautela, como uma criança que vê um Papai Noel magrelo distribuindo pirulitos em frente a uma loja de móveis no verão.

De tanto gostar de livros, em 2004 lancei o meu. Aquilo foi tão bom que em 2006 lancei o segundo, depois não parei mais. E mesmo não sendo nenhum best-seller, ano após ano vi meus lançamentos receberem mais gente e mais abraços, em livrarias cada vez mais lotadas. Se brasileiro não gosta de ler, o que toda essa galera estava fazendo lá?

Hoje, às vésperas de lançar meu 13º livro, acho que entendo um pouco melhor as complicadas estatísticas do mercado editorial brasileiro. Um mar de achismos e nenhuma auditoria que, segundo a FIPE, cresceu 150% na última década. Será mesmo que brasileiro não gosta de ler? Ou será que o velho mantra é a justificativa dos empedernidos para a própria iletralidade?

De acordo com o Insituto Pró-Livro, o Brasil tem cerca de 77 milhões de pessoas que não leem – e ponto. Nem Turma da Mônica. Não leem porque não gostam, não têm tempo, dinheiro ou mesmo por não saberem como. Em compensação, há 95 milhões de pessoas que leem, em média, 4 livros por ano, até 6 no sul do país. Aparentemente são números modestos, ou até vergonhosos para alguns, frente aos países mais ricos (nem tanto hoje em dia). E é aí que o preconceito começa a disfarçar-se de lógica.

Pobre não gosta de ler?

A primeira e precipitada conclusão é que, se a pessoa é mais rica, ela lê mais, certo? Mais ou menos. Segundo o mesmo estudo, embora a classe A consuma mais livros per capita, ela é responsável por somente 5% (!) do total das vendas no país. É a classe C – em especial, suas mães – quem leva para a estante de casa nada menos que 47% dos livros vendidos. Se você está lendo esse texto, é provável que tenha o hábito de atualizar seu Twitter num smartphone enquanto aprecia um cappuccino ao som da Adele numa Fnac da vida, antes de dar uma olhadinha nos novos modelos de TV 3D. Talvez você tenha em casa a edição encadernada de “O Senhor dos Anéis”. Mas as chances são de que, nesse universo de megastores, boxes luxuosos e leitores digitais, seja justamente você a puxar a média nacional pra baixo.

Porque a classe C gosta sim de ler. Basta ir a uma Bienal do Livro para testemunhar filas infindáveis em praticamente todos os stands. No da Ciranda Cultural, cujos preços começam na casa dos R$ 5, ouvi do presidente da editora: “Não estamos mais aceitando cartões nos pagamentos porque não dá tempo de processar.” – enquanto devolvia troco para uma nota de 10, tentando agilizar uma fila que já invadia os stands vizinhos.

Por incrível que pareça, ainda tem gente que torce o nariz para livro “barato”. Eu bato palmas. Porque, ao contrário de todos os outros bens de consumo, o livro não é segmentado por critérios econômicos ou sociais. Dá para comprar Machado de Assis por R$ 1,00 em qualquer sebo, dá para baixar de graça (e legalmente) na Internet e dá pra comprar exatamente o mesmo livro por R$ 50,00 na mais esnobe livraria. Mas a partir do momento em que o livro é aberto, não existem mais páginas amareladas, telas brilhantes ou cheirinho de novo. O objeto torna-se invisível e seu dono torna-se um leitor.

Jovem não gosta de ler?

Muito difundido também é o mito de que “jovem não lê”. Chega a ser redundante refutar essa afirmação, frente a fenômenos como Stephanie Meyer, Suzanne Collins e Meg Cabot, tão frequentes que já deixaram de ser exceção e posicionaram os jovens de até 24 anos como o maior público leitor do país. E não é só de autor importado que os jovens gostam. Pergunte a Thalita Rebouças, que já passa de 1 milhão de exemplares vendidos. Ou então à jovem Paula Pimenta. Mineirinha que é, segue os passos de Thalita e vai conquistando de mansinho os adolescentes com seus calhamaços de 400 páginas que já venderam mais de 50 mil cópias. Sem falar em Eduardo Spohr, cujo “A Batalha do Apocalipse” surgiu como produto de nicho na Internet e hoje pode ser encontrado em caixas de supermercado e catálogos de vendedoras da Avon. Essas simpáticas senhoras, como a sua Tia Sueli, que complementam o orçamento revendendo perfumes e cosméticos, disputam com a Saraiva o posto de maiores vendedoras de livros do Brasil, com faturamento bruto anual na casa dos R$ 360 milhões. É, a Tia Sueli.

Quem gosta de ler, afinal!?

Como veem, “brasileiro não gosta de ler” é uma oração cheia de vírgulas, interpretações e sujeitos ocultos. A generalização burra de um universo composto por exceções, repleto de oportunidades para editoras, autores e leitores.

Tem brasileiro que gosta de ler, tem brasileiro que não gosta. Eu gosto. E você?


Foto por Azaghal

Acho estranho quando pessoas do bem – com curso superior e de boa família – de repente vestem carapuças brancas, assustam seus pais e filhos, montam em alazões negros e saem às ruas com tochas à caça de vítimas que sequer sabem o motivo de sua perseguição. Num minuto, estão enxugando a louça, no outro, açoitam seus vizinhos, sob o pretexto de que estão combatendo pragas, tão terríveis que mereceriam capítulos à parte em qualquer livro sagrado.

O pobre gerúndio, por exemplo. Esses dias vi na Internet a foto da fachada de um restaurante, com um simples e eficiente aviso de que “estamos atendendo”. Fui direto para os comentários da foto para confirmar uma certeza: lá estava a inevitável acusação de “gerundismo”. Alheio às tochas erguidas por inquisitores internet afora, o gerente – Armando – estava atendendo seus clientes, e, se Deus quiser, está atendendo a uma hora dessas e também vai estar atendendo amanhã, SIM, em horário comercial e com o português im-pe-cá-vel.

Vítimas de semelhante perseguição são as padarias, pet shops e pequenas pizzarias de bairro que OUSAM usar Comic Sans em seus logotipos e cardápios. Designers e diretores de arte ficam de cabelo em pé ao ver tamanha aberração, tamanho atentado à estética perpetrado por esses criminosos que sequer têm grana para pagar uma fonte melhor e não entendem coisa alguma de ”designer! Nem sei como esse tipo de gente consegue fazer pãozinho quente, dar banho no meu cachorro e entregar a minha pizza.

E aquele outro tipo de gente, que não vê graça em piada sobre assuntos “leves” como estupro, homofobia e pedofilia? E são acusados pelos inquisitores de serem “politicamente corretos”, praga que, segundo afirmam, está tornando as coisas chatas e acabando com o mundo. É só olhar pela janela e ver a zona que esses malucos estão fazendo: a essa hora, tem alguém “politicamente correto” parando o carro para um pedestre, recolhendo o cocô do cachorro, não bebendo porque vai dirigir e, valha-me Deus, comprando alimentos orgânicos. Talvez devêssemos voltar agora mesmo para o mundo dos crioulos, das bichas, dos mongolóides, dos pediatras fumantes. Com cocô de cachorro petrificado na rua e sem cinto de segurança. Tudo bem que era mais fácil morrer, mas pelo que dizem os detratores do “politicamente correto”, era menos chato viver.

Assim, a verdadeira – e mais terrível – das pragas vai se espalhando, com métodos vis e amplamente difundidos. Disfarçada de um comentário jocoso ou exposta na reação exarcebada a um deslize cotidiano, a discriminação vai encontrando o seu caminho nos corações das pessoas de bem como eu e você.

Nunca foi tão fácil.

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