YabloG! - Archive - Crônicas

Ser roteirista/escritor

janeiro 9th, 2005 | Posted by Fábio Yabu in Crônicas - (1 Comments)

Eu queria ser matemático.

Seria bem mais fácil. O problema de ser escritor é que você fica o dia inteiro pensando numa história. Brincando com seus próprios sentimentos e frustrações, escondendo seu amor e sua dor nas suas palavras, numa terapia estranha e pra lá de dolorosa.

Não é fácil escrever, principalmente se você faz isso com o coração. Quantas vezes eu já fui o Fox, a Lisa, o Ken, e repetia para mim mesmo que as coisas tinham sim, que dar certo no final. Quantas histórias de dor foram disfarçadas de situações engraçadas envolvendo os Combo Rangers e agora, as Princesas do Mar.

Escrever é como uma doença. Aquilo começa pequeno, depois vai se espalhando. Pelo seu corpo, pela sua casa, pela sua vida.

Estou de saco cheio de me pegar na desagradável situação de estar roteirizando a minha própria vida… geralmente, sem um motivo aparente, sem um ganho real, motivado apenas pela estúpida força do hábito. Soltando frases de efeito, discutindo com palavras que não são minhas, fazendo conscientemente com que conversas evoluam para um sorriso e então um abraço apertado, ao som de uma baladinha adolescente.

É por isso que eu queria ser matemático. Ao invés de frases de efeito, eu comprovaria tudo com cálculos. Ao invés de narrações, eu faria gráficos. A vida seria muito mais fácil, eu não seria tão chato e talvez eu fosse um bocadinho mais sincero.

Meu jeito de escrever

outubro 28th, 2004 | Posted by Fábio Yabu in Crônicas - (Comentários desativados)

Não sou muito de seguir manuais, guias ou mesmo cursos. Mas costumo “ler o mapa mesmo que eu não vá seguí-lo”. Acho que o aprendizado, principalmente na minha área de atuação é algo muito pessoal, quase sublime. Por isso, não faça como eu se você quer construir pontes ou operar tiróide. Um livro muito bacana que estou devorando chama-se “Picture Writing: a new approach to writing for kids and teens”, sem em edição em português. Se tiver interesse de ler em inglês, procure na Amazon. O livro compara o processo criativo de diversos autores, e foi o que achei mais próximo do meu, que vou tentar elucidar um pouco aqui. Mas cuidado, a primeira regra para se alcançar a “inspiração” é justamente não buscá-la, a segunda é não se prender a fórmulas.Antes de começar a escrever qualquer coisa, eu fujo do papel ou do computador. Tento levar minha mente para outros lugares, sintonizar outras estações. Leio, medito, jogo videogame, vou ao cinema, vou caminhar, durmo. É como se eu estivesse me preparando para uma maratona para a qual meus músculos devem estar descansados.

Quando eu consigo fazer isso, pensar em outras coisas – ou então não pensar em nada – é que a brincadeira realmente começa. Por isso que eu sempre digo, não adianta ficar procurando um estalo mágico ou algo do gênero. Esse estalo mágico, a inspiração propriamente dita na verdade começou lá atrás, quando eu não estava muito preocupado com nada disso.

É como a história em que Isaac Newton descobriu a gravidade. Ele estava sentado ao pé de uma macieira quando uma maçã caiu em sua cabeça, o que o fez concluir que ela havia sido puxado pela força gravitacional. Mas não é que a maçã fez com que ele tivesse feito a descoberta, ela apenas serviu como estopim para todo o conhecimento prévio, estudos e teorias que ele já tinha anteriormente. Nesse caso, a maçã é a tal da misteriosa inspiração. Como vêem, uma coisa não funciona sem a outra.

Bom, no meu caso, as idéias começam a surgir na minha cabeça através de conceitos, formas, antes de virar palavras. Quando as palavras vêm, muitas vezes já aparecem parágrafos inteiros, ou mesmo posts no blog. Eu só chego no computador e digito tal qual está na minha cabeça. Como o corredor, que antes de entrar na pista, já a percorreu centenas de vezes mentalmente.

Então, começo a passar as coisas para o papel ou para o computador. Ao escrever um pouco, páro e volto ao estágio inicial. E esse processo de escreve – para – escreve – para se repete várias vezes até que o trabalho esteja pronto. Às vezes, estou MUITO inspirado, e vejo que tenho gás para escrever 10, 20 páginas. Mas quando isso acontece, escrevo 5 ou 8 e então paro novamente. Meio que pra não “quebrar o encanto”.

Uma pessoa que faz algo parecido é meu amigo Marcelo Duarte, do Guia dos Curiosos. Ele me disse que muitas vezes deixa o texto “dormir” por três dias. E é assim mesmo que funciona.

Escrever é uma atividade atemporal, na qual você usa o lado direito do cérebro, também atemporal. Escrever um livro pode levar anos. Nada mais justo, já que bons textos são lidos e lembrados por décadas, ou séculos.

Bom, já estou me preparando para o meu próximo livro. Adivinha o que vou fazer agora? Qualquer coisa, menos escrever. ^_~

Lições de uma parede laranja

julho 28th, 2004 | Posted by Fábio Yabu in Crônicas - (5 Comments)

A pedido da Diana, que sei lá como lembrou desse capítulo infeliz da minha vida.

Esses dias resolvi pintar o apartamento. Foi uma experiência MUITO legal e enriquecedora, de verdade. Acho que dá pra aprender coisas legais em cada ato humano… vou tentar partilhar com vocês alguma coisa do que aprendi, mas primeiro, deixa eu contar das cores que escolhi: a sala pintei de uma cor meio salmão, meio creme. Ficou bem legal. O banheiro pintei a parede do espelho de ROXO, hahaha. E ainda coloquei um tapede azul com flores coloridas, e uma lata de lixo roxa. Tá, tá, ficou meio “Queer eye for the straight guy”, confesso. Meu escritório ficou o mais estáile, pintei três paredes de azul claro e uma de azul marinho, para que eu fique literalmente imerso nos meus novos personagens, que como você já deve saber, vivem no fundo do mar… ou não.

Bom, tudo ia bem, até que resolvi pintar uma das paredes da sala de… laranja, o que eu defino como a maior estupidez que já fiz na vida.

Pois é, ficou HORRÍVEL! Mas, como eu aprendi no programa “Minha casa, sua casa”, sobre dicas de decoração, resolvi pintar uma parede inteira e esperar secar, pra ver qual que era…

Putz… sabe um outdoor do Terra? Pois é, minha sala ficou parecendo isso.

Daí, corre pra lavar a parede antes que a tinta seque totalmente. Limpa daqui, lixa dali, repinta tudo de branco, e consegui reverter a CAGADA com 5 horas de lavagem e umas 10 demãos de tinta branca. Mas foi uma experiência MUITO legal. Vamos as lições que aprendi:

1. “Há uma diferença entre saber o caminho e trilhar o caminho.” Não dá pra comparar o que os decoradores do “Minha casa, sua casa” fazem com soluções domésticas mambembes. Quando estiver na dúvida sobre que cor pintar sua sala, chame alguém mais experiente. O que não quer necessariamente dizer que você mesmo não possa fazê-lo, aliás, quebrar a cara é a melhor forma de aprender QUALQUER coisa.

2. “Lixar parede é lixar parede.” E, como TUDO, requer concentração e FOCO. Quando eu estava lixando a parede, resolvi fazer que nem o Daniel-san em Karate Kid, com movimentos circulares com a mão, tentando me concentrar ao máximo para não me distrair. Não consegui muito bem, às vezes pensava numa música, numa pessoa especial ou mesmo em bobagens. NESSAS HORAS, a tinta saía com mais dificuldade. No final, ao olhar para a parede, eu soube dizer EXATAMENTE em quais partes eu estava realmente concentrado naquilo, ou não. E foi muito bacana perceber isso. Você sabia que você tem em média 60.000 pensamentos inúteis por dia? Pois é!

3. E, o mais importante: a não ser que você seja dono do Terra ou da Nickelodeon, NÃO PINTE SUA PAREDE DE LARANJA. É ESTÚPIDO, DE PÉSSIMO GOSTO E DÁ UM TRABALHÃO PRA TIRAR!!!!!

Minha casa da madrinha

janeiro 28th, 2004 | Posted by Fábio Yabu in Crônicas - (2 Comments)

A Casa da Madrinha, de Lygia Bojunga Nunes é um livro que conheci tarde, quando muito do meu pensamento já havia sido atrasado e cristalizado pelo mundo em que vivemos e pela vida adulta que veio tão de repente.

Mas felizmente, ainda há algo em mim capaz de entender pelo menos uma parte dessa obra tão importante e complexa.

A história fala de um menino, Alexandre, e seu pavão, que partem em busca da casa da madrinha, um lugar mágico, onde todos os seus sonhos podem ser realizados. Não quero falar muito do livro, pois só mesmo lendo para entender.

Me perguntei como seria a minha casa da madrinha… como seria um lugar mágico de onde eu não precisaria sair nunca mais.

É uma casa, não muito grande, não. É maior em comprimento do que em largura, e tem quatro quartos, uma sala grande, uma cozinha e um quintal enorme, com uma parte coberta e uma descoberta. Nesse quintal, apelidado de “barracão”, tem bicicletas, alguns quartinhos para guardar tranqueiras e um onde ficam livros e gibis de todo tipo. É pequeno, mas lá cabe tudo o que já foi escrito e o que ainda não foi.

No barracão também tem uma árvore, alta e formosa, que dá frutas de todo tipo. É. É só subir e pegar. Bom pra dias em que você está indeciso sobre o que comer. Debaixo dessa árvore, fica a casinha do cachorro, que não tem nome. É um filhote de pastor alemão, lindo, que nunca cresce, nunca deixa de brincar e nunca fica doente.

Os quartos são confortáveis, com camas macias e quentinhas, perfeitas para aconchegar quem a gente ama e quer bem. Parece que é o seu coração que esquenta a cama, pro seu pai, pra sua mãe. É legal.

A cozinha é como qualquer outra, com fogão, panelas e tal. Os armários estão sempre cheios, você nunca precisa fazer supermercado.

Na sala, tem uma mesa grande, que não é muito usada, porque se come no sofá mesmo, a não ser quando tem visita. A mesa é mais usada por mim mesmo, para desenhar e escrever. Se bem que, quando estou a fim, pego o notebook e vou escrever no quarto, ou no barracão.

Mas o mais legal da minha casa da madrinha, é que, apesar de você nunca precisar sair de lá. de vez em quando você pode ir dar uma volta num ENORME campo com um lago que fica bem em frente à casa. Lá é um lugar lindo, ensolarado, onde bate um vento geladinho. Dá pra ler, brincar, correr, nadar, pescar. Dá pra fazer quem você ama feliz. Quando não tem ninguém na casa, estão todos lá. E vice versa.

Você sempre sabe que eles estarão lá. Sempre.

E todos os dias são felizes, na minha casa da madrinha.

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