YabloG! - Archive - Crônicas

Quando o pirateado é você

fevereiro 18th, 2010 | Posted by Fábio Yabu in Crônicas | Criações - (50 Comments)


Foto por @fagnerfey

E eis que a pirataria chega ao Mundo de Salácia. Minhas queridas Princesas do Mar já estão sendo vistas em camelôs Brasil afora, sob a forma de produtos de qualidade duvidosa.

Mas não são todos, visse? Alguns produtinhos até são simpáticos, como peças artesanais que eu nem considero pirataria. Já outros têm escala industrial, e até peça de teatro rolou no Rio de Janeiro. E num típico clichê de como a vida imita a arte, vieram risadinhas de todos os cantos dizendo: “Ah, tu baixou LOST, agora toma!“.

Pra começo de conversa, como diz a minha sábia avó: “Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa!“. Baixar um seriado da internet (cujas razões já elucidei aqui) e produzir bonequinhos na China e mandar pra cá por container são coisas bem  diferentes.

Mas, se quer mesmo saber, eu pouco me importo com qualquer uma das duas.

Não, eu não acho pirataria uma coisa ruim, não estou muito preocupado se estão me copiando na Alemanha ou na 25 de março.

Dizem que a pirataria tira empregos. Deve tirar, mesmo. Mas pra mim, o que é muito mais perigoso que a pirataria e que realmente tira empregos é gente morrendo de medo de perder o seu. Gerentes, diretores e produtores escondidos atrás de planilhas e livros de auto-ajuda empresarial, que não arriscam, não criam, não vivem, enquanto as massas fogem de seus produtos e métodos de distribuição engessados e preguiçosos. Emburrados, fazem bico e nos chamam de criminosos porque assistimos nossas séries de TV pela internet.

Veja os DVDs de Princesas do Mar. Alguns podem achar que, onde tem DVD tem pirataria – mas é justamente o contrário! Os únicos países que pirateiam os episódios de Princesas do Mar são aqueles onde NÃO tem o DVD: Alemanha e Austrália. Na França, já estamos no sexto volume, encontrado facilmente em qualquer loja. A América Latina, o temor dos donos de copyright, tem o DVD há mais de 2 anos, vendido baratinho em bancas na Argentina e no México e até agora, não tem nem sinal de DVD pirata. Uma hora vai chegar? É provável, mas o original vai ganhar de lavada, seja em qualidade ou distribuição.

“A pirataria é sinal de sucesso”, diz o senso comum polianesco. Não exatamente. A pirataria é sinal de que alguém não está trabalhando tão bem quanto deveria. Alguns dos produtos piratas de Princesas do Mar chegaram ao mercado meses ou até ANOS DEPOIS de muitas fábricas terem se negado a produzí-los. A pirataria não é algo mágico que simplesmente brota nos semáforos da cidade em forma de um balão gigante do Barney, muito menos algo que acontece debaixo dos panos.

De um lado, temos o pirata: um cara que não é bem informado, não é um gênio com bola de cristal. Ele é mais lento, tem menos instrução, muito menos recursos e valha-me Deus, tem muito mal gosto. Mas ele simplesmente escuta o que o público quer, corre atrás e lança o produto. Do outro lado, temos o executivo que fica enfurnado numa sala fazendo powerpoint, tirando caquinha do nariz, esperando a próxima feira ou seminário da firma. Que perde oportunidades, engessa e, lentamente, mata a indústria por medo de mudar. A pirataria tira empregos? Graças a Deus!

Em tempo, você pode comprar os produtos de Princesas do Mar, todos lindos e originais, aqui. :)

Lost e a salvação da TV

fevereiro 3rd, 2010 | Posted by Fábio Yabu in Crônicas | Resenhas - (14 Comments)

TEXTO SEM SPOILERS SOBRE A SEXTA TEMPORADA DE LOST -
Aguarde um review completo para essa semana

Nunca antes na história desse país uma temporada foi tão aguardada! A contagem regressiva começou ainda na terceira temporada, quando os produtores anunciaram que Lost chegaria ao fim em 2010. Agora, depois de ver os dois primeiros episódios dessa jornada final, e refletir sobre o caminho já trilhado, deixo aqui algumas impressões.

A nova temporada começou com a mesma dinâmica das anteriores – acontecimentos passados, que pareciam pivotais, agora são tão importantes quanto a bombinha de asma da Shannon. Trata-se de uma temporada completamente diferente, com sua pergunta central e as consequências que ela traz aos personagens. Sim, algumas respostas são dadas – mas não espere nenhuma revelação a là Sexto Sentido. Mistérios que pareciam milenares são respondidos de maneira quase trivial – como um guarda de trânsito fazendo transeuntes curiosos desviar de um acidente, circulando, circulando!

Mas quem se importa? As perguntas de Lost sempre foram mais importantes do que as respostas, então qual a diferença se elas são verdadeiras ou falsas, se é que elas existem? Em seu emocionate depoimento ao TED, o criador JJ Abrams conta um pouco como funciona sua mente, e o quanto o mistério de uma caixa deixada pelo seu avô é mais importante do que o conteúdo em si. É provável que até essa história seja inventada – um homem não tem o direito de escrever a sua própria? – mas a metáfora não deixa de ser inspiradora.

Um dos aspectos mais importantes sobre Lost, que deveria ser analisado por toda a indústria, é como o fenômeno mudou a cara do entretenimento em apenas seis anos. Como num legítimo embate ciência vs. fé, de um lado tivemos os canais se reinventando, à beira do desespero, vendo toda uma geração deixar de lado a TV e aderir aos sites de compartilhamento, torrents e megauploads da vida. Do outro, temos essa mesma geração, acusada de pirataria, ameaçada de multas e prisão a cada DVD ou Blu-Ray assistido, sedenta por conteúdo de qualidade, por TV inteligente. No meio dessa guerra, a natureza humana nos faz procurar um Messias, como o Avatar, de James Cameron, e sua promessa de “salvar” o cinema. Mas que cinema, que TV são esses que precisam tanto ser salvos do desinteresse de seu séquito?

Nos últimos seis anos, assisti a Lost das mais diversas formas, talvez algumas até extintas agora. Na TV a cabo, TV aberta, via CDs gravados por amigos e distribuídos “na firma”, pendrives, aluguei, comprei, baixei, joguei o jogo (horroroso), vi no avião (deu medo), assisti no exterior, baixei no exterior, fiz o diabo. Nas últimas semanas revi as temporadas em blu-ray, experiência que supera de longe todas as anteriores. A TV? Vai muito bem, obrigado. Pago via débito automático uma cacetada de canais que chegam por um conversor que foi desconectado da tomada por falta de espaço: tem que concorrer com a própria TV, o subwoofer, o DVD, o Wii, PS3, o modem, o roteador e um abajur. E AINDA ASSIM, vi religiosamente todos os episódios, muitos deles repetidas vezes. Agora, me responda: quem é que precisa ser salvo?

A Dança do Ciclope

abril 17th, 2009 | Posted by Fábio Yabu in Crônicas - (28 Comments)

cyclops

Às vezes eu acho que tenho a melhor profissão do mundo. Escrever para crianças é mais que um privilégio, é uma dádiva. Só que ela não me ajuda muito a me dar bem na balada: “Oi, eu sou o Fábio e escrevo livros para crianças“. Sério. Não tente, porque o máximo que vai ouvir é “Aaai que bonitinho!“. Também nunca fui de ficar contando vantagem na hora de chegar nas meninas. Acho isso bem patético. Mas enfim, como não posso ficar falando muito do meu trabalho, não sou de contar vantagem, e dizer como eu me dou bem com a minha mãe está fora de cogitação, eu acabo tendo que improvisar.

Naquela noite eu estava no último lugar onde você me encontraria numa sexta à noite – uma fila de balada. O segurança me revistou que nem o nariz dele, a hostess conferiu meu nome na lista e me deu uma pulseirinha de neon vermelho. Tipo um mini-sabre de luz que você enrola no pulso – coisa que gente descolada gosta, sei lá por quê.

Cumprimentei os amigos enquanto procurava minha máscara de oxigênio, pra me proteger da fumaça de cigarro que até hoje impregna minha cueca. E ela estava também… conversando animadamente com outro cara. O que foi meio triste, porque eu bem que era a fim dela, viu. Já nos conhecíamos da casa da nossa amiga Baunilha, mas nunca tínhamos conversado com mais profundidade.

Ela ficou lá, ouvindo o xaveco daquele corno desgraçado dos infernos rapaz simpático, e eu fiquei do outro lado da pista de dança, meio sem ter o que fazer. Foi quando vi a pulseirinha de neon que eu havia ganhado na entrada e comecei a pensar numa música. Ficou engraçada até. Cantei pra galera “meu, escuta essa música, acabei de inventar, chama Dança do Ciclope!” – e todo mundo morria de rir enquanto eu inventava as estrofes.

Olhei de longe e vi que ela também estava rindo, só que não era de mim, mas de alguma piada sem graça daquele outro mané. O papo parecia estar interessante, e antes que ficasse interessante demais, resolvi fazer meu movimento. Sabe como é, virar o macho alfa, brigar pela fêmea, mostrar quem é que manda na matilha. Bufei nervosamente, e meus feromônios fizeram a fumaça dos cigarros desejar que ali houvesse uma janela. Tomei um gole de vodka, amassei a garrafa (de vidro) com as mãos e lambi o sangue que escorreu por entre meus dedos. Eu era um homem das cavernas, um Clive Owen, um fóckin caveman, e ia mostrar isso nem que tivesse que dar uma tacapada na cuca dela. Cheguei chegando e disse:

- Oi, Gica. Quer ouvir a Dança do Ciclope? Acabei de inventar.

Ela sorriu. Queria. E eu comecei a cantar aquela música, misturando funk com os X-Men.

Ela riu alto. Eu não sei se foi da minha cara, ou da minha dancinha ridícula, segurando um bastão de neon na altura dos olhos. Só sei esse foi o primeiro momento bonito que tivemos nos últimos seis meses, é desse momento que a gente sempre fala quando nos perguntam como tudo começou. Foram seis lindos meses, os seis melhores meses, que começaram na balada com a Dança do Ciclope. Seis meses em que a gente escreveu, desenhou, dançou e viajou juntos, seis meses que passaram voando. Seis meses em que aprendi a gostar de Björk, ela de PS3, desaprendemos a dormir sozinhos e esquecemos como era não ter um ao outro. Até hoje tem gente que diz que estamos indo “rápido demais”, mas eu não sei o que esse povo aprendeu nas aulas de física, não sabem que o tempo é relativo? Nesses seis meses, precisei de apenas 1 dia pra ver que estava apaixonado, 3 para dizê-lo e, no décimo, ela resolveu passar o Ano Novo comigo na Argentina, levando na mala um presente: a cópia da chave do nosso apartamento. Faça as contas, e verá que foram 180 dias, que podem ser resumidos em uma única frase de três palavras, ao som de uma música que improvisei durante aquela balada:

Na dança do Ciclope
Você vai arrasar
Com seu poder mutante
Uma rajada ocular

Nessa dança muito louca
Entra homem e mulher
Fera, Tempestade, DJ Charles Xavier

Em Terra de Cego
quem tem um olho é rei
Já chega abalando
Na gostosa da Jean Grey…

cyclops_jean_grey1

Caneta Bic & Caderninho Spiral

setembro 3rd, 2008 | Posted by Fábio Yabu in Crônicas - (16 Comments)

De vez em quando desenhistas iniciantes me mandam seus portfólios e cadernos de desenho para que eu avalie e dê a minha opinião. Honestamente, não gosto muito de fazer isso. É meio chato e desconfortável ficar palpitando no desenho alheio, e confesso que eu também não sou lá muito delicado com as minhas críticas. Acho que tapa na cara é o melhor jeito de se aprender a desenhar. De se aprender quase tudo, aliás.

Esses dias peguei o caderno de desenhos de um rapaz, que devia ter seus 22, 23 anos, sei lá. Eu já tive essa idade e sei que, por mais que os comerciais de bancos insistam, é uma fase tenebrosa da vida. O pós-faculdade é muito cruel com algumas pessoas: seus amigos, se é que você ainda tem algum após o trabalho de conclusão, somem. Vão trabalhar, vão casar ou tentar repovoar a Europa, sei lá, e você, meu filho, fica lá. Morando na confortável prisão dos seus pais ou na sufocante masmorra que é seu primeiro apartamento alugado.

Você finalmente aprende o valor do dinheiro e a velocidade com que ele some de sua carteira ou miguelada conta corrente. Que trabalho e independência financeira são coisas a anos-luz de distância e que, se ser adolescente era difícil, ser adulto é pior ainda! É conta pra pagar, é chefe mala, é gente que te sacaneia, é namorada que dá chilique. Não vai me arranjar filho ainda pelamordedeus!

Enfim. Com a maior condescendência do mundo, peguei os desenhos desse rapaz pra dar uma olhada e quiçá uma palavra de apoio. Sabe, eu queria falar pra ele que ele tinha potencial, que deveria acreditar nos sonhos dele e tal…

… mas o cara, ele não desenhava lá muito bem, não.

Ele queria fazer desenhos para publicidade, a desilusão de todo jovem indeciso no vestibular.  Mas o traço era meio tosco, primário. Se o conteúdo não era bom, a forma também não ajudava muito. Era tudo feito à caneta BIC, num diacho dum caderninho de desenho genérico da Spiral.

Continuei folheando o caderninho e dali foi ladeira abaixo. Mais desenhos feitos à caneta BIC, no máximo algumas páginas eram rabiscadas por uma Futura Preta. Não que eu ache que a ferramenta seja lá muito importante, mas peralá, né? O cara me faz um raio dum desenho à caneta BIC, chega se achando e pensa que alguém tem a obrigação de gostar daquilo?

Aconteceu o que tinha que acontecer: ninguém gostou.

(mais…)

Batman Versus Super-Homem

julho 18th, 2008 | Posted by Fábio Yabu in Crônicas | Resenhas - (15 Comments)



Todos conhecem bem a história que é quase uma mitologia moderna. Um garoto inocente perde sua família. Cercado por um ambiente hostil, ele faz da tragédia a origem de sua força e se torna o maior defensor de seu mundo. Se estou falando do Batman ou do Super-Homem, é você quem decide.

É interessante refletir sobre os dois personagens. Uma análise equivocada é achar que ambos são opostos. À primeira vista, pode até parecer, já que o Batman é um avatar da escuridão e faz da noite o sua maior arma, enquanto o Super-Homem recebe seus poderes do sol. O Batman tem apenas seu treinamento físico e intelecto para lutar contra o crime, o Super-Homem desconhece a verdadeira extensão de seus poderes mitológicos. O Batman sempre foi rico, o Super-Homem foi criado numa fazenda. A identidade secreta do Batman é um empresário mulherengo, a do Super-Homem, um repórter atrapalhado.

Indo um pouco além das primeiras impressões, começam a surgir semelhanças interessantes. Dizem que a história do Batman é muito mais trágica já que ele perdeu os pais, mas o Super-Homem perdeu não só a família mas o seu planeta inteiro! Gotham, onde o jovem Bruce Wayne cresceu é fétida e corrupta, mas a Terra onde o jovem Kal-El foi criado é um inferno dantesco perto da sociedade superavançada de Krypton. Ambos são frutos de dores que não podem ser mensuradas ou comparadas, profundas até o infinito. Crianças desorientadas, foram reconfortados pelos braços de pais adotivos; o Batman pelo fiel mordomo Alfred e o Super-Homem pelo gentil casal Kent. E, ainda que salvem a mocinha no final, nenhum dos dois pode encontrar a ternura em seus braços após um dia de luta pelo bem.

Enfim, numa terceira meditação, é possível ver como quem tem visão de raio-x, além das roupas colantes, dos cintos de utilidade e identidades secretas. Por baixo dos músculos, está o propósito, a razão de ser de cada um, junto com a supreendente, simples e inexorável verdade: a vida é uma tremenda duma sacana.

Essa danada distribui de maneira igualmente injusta anos, cores, super-poderes, felicidade, Amor, grana, gordura, bunda. Tem gente que recebe demais, outros de menos, muitos nada. Ninguém recebe opção senão viver tudo e com tudo isso. E não adianta nem reclamar, pode levar o código do consumidor, o segredo ou os 9 passos para a felicidade que for.

As pessoas acabam achando ruim – normal – e sempre olham pro prato alheio, pra grama do vizinho, mas o que tem debaixo dela? Acho que, no fundo no fundo, todos recebem na sua cumbuca uma porção de miséria, sejam de Gotham City ou Krypton. Só que, independente de quanto e do quê distribuiu, a maior sacanagem da vida é justamente o que a torna uma grande aventura. No final das contas, com poderes ou sem, com tudo que lhes foi dado de bom e de ruim, o Batman e o Super-Homem precisam simplesmente salvar o mundo.



P.S.: É, era para eu ter escrito uma crítica sobre Batman – O Cavaleiro das Trevas, mas achei que ia ser redundante dizer o quanto o filme é espetacular. Então resolvi partilhar esses pensamentos que sigo como filosofia de vida. ;)

P.S.2: Semana que vem tem Comic-Con! Aguarde toneladas de novidades direto de San Diego, California sobre nossas séries, quadrinhos, filmes e games favoritos, escritas com esse meu jeitinho todo especial. :P

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