YabloG! - Archive - Crônicas

Um ano de alegrias

julho 11th, 2008 | Posted by Fábio Yabu in Crônicas - (21 Comments)

Eu lembro como se fosse ontem. Eu e o Marcelo chegamos juntos na casa do Érico. Orgulhoso, ele abriu a porta com um sorriso desse tamanho. “Ele chegou?” – eu perguntei – e ele apenas sorriu, virou levemente o corpo e, lá na sala, vi sua esposa Silmara e todo mundo em volta daquela coisinha fofa. Dei um forte abraço no casal – “Parabéns, parabéns!” e corri para vê-lo pela primeira vez.

Todo mundo dizia como ele era lindo. Mas as minhas palavras simplesmente sumiram na hora. Incrível como essas coisas mudam a vida de uma pessoa, de uma casa. Todos estavam transbordando de felicidade. Aquela coisinha frágil e delicada no meio da sala fez com que desavenças se tornassem sorrisos. Todo mundo quis pegar, brincar, tirar foto.

Então lá pelas tantas o Marcelo virou pra mim e disse: “Vamos ter um também?

Confesso que na hora fiquei em dúvida. Quer dizer, a gente já se conhecia há anos. Tínhamos uma história juntos e um carinho muito grande um pelo outro. Os dois tinham uma condição estável, não devíamos nada para ninguém e não íamos fazer nada de ilegal. Ainda assim, deu um medinho. Até hoje muita gente tem preconceito com essas coisas. O novo choca, assusta. Tanto que não me atrevo a contar nada disso para a minha avó. Ela nunca entenderia. Nunca.

Pedi um tempo pra pensar. Conversei com alguns amigos, com meu irmão, e graças a Deus todos me deram o maior apoio. Pensei em como minha vida seria diferente se aceitasse a proposta. Me senti meio egoísta, mas pensei sim nas coisas que teria que abrir mão. Não ia mais poder sair toda hora, balada até tarde então nem pensar. Teria que passar muitas noites em claro, encarar muitos sacrifícios, choros e lágrimas. Mas então lembrei da minha própria infância e percebi o quanto tudo isso é pequeno perto de um único sorriso de criança.

Dane-se o que os outros poderiam pensar. Aceitei a proposta com um “sim”, e, de todas as coisas que o Marcelo poderia ter falado, ele disse apenas “Legal”. Eu disse “Legal” também, mas por dentro, estava gritando de alegria os nomes de todos os deuses do cosmo. Nossa vida iria mudar.

É claro que não foi só decidir. Muita gente faz as coisas assim e acaba sofrendo depois. Conversamos com algumas pessoas, nos planejamos, fizemos as contas dos gastos que teríamos, como dividiríamos as responsabilidades.

Então, aconteceu. Ao voltar das suas férias nos Estados Unidos com a esposa, meu amigo e irmão Marcelo Forlani trouxe nosso amado Nintendo Wii.

Já faz um ano que dividimos o Wii. Nesse ano, tive experiências magníficas com The Legend of Zelda – Twilight Princess, Metroid Prime 3, Super Smash Bros. Brawl, Super Paper Mario, Mario Kart Wii, Mario Party, Wario Smooth Moves, Guitar Hero 3 e Okami. Todos jogaços. Também matei a saudade de jogos antigos como Sonic, Super Mario World e Super Street Fighter ll Turbo. E até hoje ainda jogo Wii Sports com meus amigos, como se fosse a primeira vez na casa do Érico e da Silmara. Ah, Wii… obrigado por esse ano de alegrias!

A boa crítica

junho 10th, 2008 | Posted by Fábio Yabu in Crônicas - (17 Comments)

Esse ano, faz exatamente 10 (!) anos que resolvi dar a cara pra bater e sair por aí, mostrando quem eu era e o que eu tinha a dizer, através dos meus desenhos e histórias. Nunca foi fácil, não é fácil e eu não quero parar tão cedo. Nesses 10 anos, aprendi a lidar com a crítica alheia, ainda que eu tenha recebido poucas construtivas. Dá pra contar nos dedos da mão de um Teletubbie. No começo eu ficava chateado, depois comecei a perceber um estranho padrão nas críticas, que traziam sempre mais ou menos os mesmos ataques com igual falta de embasamento.

Uma das mais disparatadas (e repetitivas) que eu recebi ao longo dos anos é que meu trabalho não gera empregos no Brasil. Primeiro, com Combo Rangers, que foi publicada por uma editora japonesa (JBC), depois uma italiana (Panini). Agora, com Princesas do Mar, que é co-produzida por uma produtora australiana (Southern Star) e uma espanhola (Neptuno Films).

Essa falácia soa como se meus personagens fossem máquinas a vapor tirando o emprego de operários oprimidos na revolução industrial. Mas, apesar de precipitada e quase caluniosa se a verdade não fosse tão evidente, eu a considero essa uma boa crítica, algo que eu gosto de ler/ouvir.

Eu comecei com 17 para 18 anos. Como o sucesso veio cedo, tive que me virar como podia e dar uma de empresário. Manja? Alugar escritório, contratar gente, lidar com contabilidade, pagamento de salários, etc. Pra pagar as contas, que não fechavam só com os quadrinhos que eu produzia, comecei a vender meu trabalho, fazendo quadrinhos, desenhos, personagens, sites, embalagens e ainda trazia de volta a pessoa amada em sete dias. Por algum tempo deu certo, eu ganhei um dinheirinho, gerei os empregos que tanto cobram de mim, paguei impostos pro governo, que viraram as escolas e hospitais dos quais nos orgulhamos tanto.

Mas depois encheu o saco. Sabe, é bem legal ter a sua própria empresa, ser seu próprio chefe e tal, mas com o passar do tempo eu vi que aquilo não era bem o que eu sabia fazer. Não sei liderar, eu nem sequer me levo a sério o suficiente pra isso. Outra coisa pra qual eu não tenho o menor talento é lidar com clientes. Não quero, não gosto, me mata. Hoje não faço, mas já fiz muito, já vi meus desenhos em anúncios de revistas, comerciais de TV e bandejas do Mc Donald’s, e esse é um dos motivos pelos quais eu não virei publicitário: às vezes eu sentia um certo asco em ver aquilo. Na minha antiga empresa, a gente tinha uma piada interna sempre que o cliente dava uma sugestão (ordem) descabida: “o cliente mandou dar uma ‘excrementada’ no trabalho…”.

É claro que o negócio fechou. Nenhum negócio vai pra frente sem paixão. E eu não só acho bom, como dou graças a Deus. Tem gente que acha feio perder ou falhar, eu acho que foi lindo. Não, não estou tentando passar um pano e dar um lustro em momentos difíceis. Não estou dizendo: “valeu a pena, eu faria tudo de novo”. Faria o cacete! Eu FALIA tudo de novo, isso sim! Mas é nas derrotas que a gente aprende quem realmente é.

Nada contra quem vende seus desenhos, cria campanhas publicitárias ou escreve anúncios engraçadinhos. Mas eu descobri que eu não sou esse cara. E é isso nos traz ao ponto da crítica infundada de que eu não gero empregos no país. Ao ouvir isso, por incrível que pareça eu sinto um alívio, quase um êxtase.

Cada um é o que é, cada um tem a sua contribuição a dar pra esse mundo. Quem tem que gerar empregos não sou eu, é o governo. Eu tenho é que votar com consciência, viver de acordo com o que eu acredito, pagar meus impostos, investir bem meu dinheirinho, comprar de empresas sócio-ambientalmente responsáveis, dar passagem pro pedestre, andar a pé ou de ônibus, economizar energia, comer verduras e vegetais folhosos, cuidar de quem eu amo e ter a coragem pra dizer isso. Além, é claro, de escrever minhas histórias e desenhar meus personagens, que geram empregos sim,  em vários países no mundo inteiro. Mas eu não estou muito preocupado com quantos e nem onde, e sim em fazer a minha parte. Não é o que todo mundo deveria fazer? ;)

A prima do Super-Homem

dezembro 17th, 2007 | Posted by Fábio Yabu in Crônicas - (11 Comments)

supergirl.jpg

Tenho mais em comum com o Super-Homem do que a absoluta falta de jeito com o sexo oposto e a capacidade de ouvir tudo o que não quero. Esses dias estava passando o desenho da Liga da Justiça em que ele confidenciava para o Arqueiro Verde o quanto ele se orgulhava de sua prima, a Supergirl, que completou 21 anos antes de viajar para o futuro em busca de seu lugar no universo.

Tipo assim, eu sempre achei primo um negócio esquisito. Primo não é irmão, não é alguém que você é necessariamente obrigado a ver, amar ou odiar. Primo é como você seria se tivesse sido criado por outra família, é a sua versão que deu mais certo, ou mais errado. Minha família sempre pareceu meio desesperada para espalhar nossos genes pelo planeta, já que tenho 19 (!) primos de primeiro grau, alguns eu nunca vi, e outros só vejo em enterros.

Minha prima caçula tem a mesma idade da Supergirl. Andamos meio afastados durante alguns anos, essas coisas que acontecem entre primos, sabe? Você passa as férias juntos mas de repente vem a adolescência, o vestibular e quando você vai ver, páaaa, aquela coisinha fofa que brincava de andar de cavalinho nas suas costas é uma mulher feita.

Os rostos mudaram, os caminhos se desencontraram mas por algum motivo, dentre tantos primos que nunca mais vi, a minha “Supergirl” sempre ocupou um lugar especial no meu coração, onde eu quis mantê-la aquecida e protegida, principalmente de vagabundo que só quer passar a mão nela. Acho que ela sempre soube, e por isso, um dia enquanto lavávamos a louça ela me contou em segredo que em breve a família iria aumentar. Como de praxe, ela morria de medo da reação dos pais (que estavam no Japão), dos amigos, o que vão falar, puta que pariu, e agora, o que eu vou fazer, tô fodida, eu tentei acalmá-la, calma, vai dar tudo certo, isso deve ter acontecido por algum motivo. Pode ser a mãe de todos os clichês, mas eu não fazia idéia do quanto estava certo.

A notícia do novo membro da família caiu como um meteoro no meio de Smallville. Foi aquele chororô danado, mas ela é tão novinha, o que vai fazer, quem vai cuidar, todo mundo desesperado enquanto eu só pensava em brincar com o moleque, trocar fralda, dar banho, levar pra passear, desenhar junto, ler historinha. O dia mais feliz da minha vida foi quando a Supergirl me ligou para dizer “hoje eu ouvi o coraçãozinho dele”, eu perguntei, “como foi” e ela disse “foi lindo”.

Foi lindo.

Meus tios voltaram do Japão para dar à Supergirl todo o apoio, carinho e puxões de orelha de que ela precisava, e também para tratar de uma estranha dor que meu tio sentia. Ele estava magro e abatido, e me disse com uma ternura que nunca vou esquecer, “obrigado por ter cuidado da minha filha enquanto eu não estava aqui”. Poucos meses depois, ele já havia ido embora. Foi em paz, feliz por ter pegado o netinho no colo. Hoje, Supergirl e seu filhinho voam juntos em direção ao futuro, trazendo alegria para a família e enchendo esse primo coruja de orgulho.

super.jpg

Vou estar inventando pessoas

outubro 24th, 2007 | Posted by Fábio Yabu in Crônicas - (54 Comments)

Sei lá sabe, eu sempre gostei de inventar histórias. Quando eu era criança, ia dormir pensando no que o Zé Colméia fazia à noite, já que o desenho só se passava de dia. O que os Superamigos faziam quando não estavam socando a Legião do Mal, quanto o Chaves conseguia ganhar vendendo churros e fazendo seus bicos na vila. O que era uma preocupação acabou virando boas notas nas aulas de redação, bilhetinhos, cartas de amor, frases de efeito e independência financeira.

(mais…)

O beijo

outubro 3rd, 2007 | Posted by Fábio Yabu in Crônicas - (21 Comments)

Eu posso falar sobre os beijos que dei por aí. Começou com aquele que dei na minha amiguinha da sexta série, só pra fazer ciúmes na outra que era razão de meu afeto e meus hormônios. Depois desse fiasco, teve muitos outros; alguns doces, outros amargos, muitos sem sal. Beijos que dei no carro ou no ônibus, nunca beijei num avião, mas teve aquele que dei quando estava a pé, esperando o sinal abrir. O bonequinho mudou de cor, ficou verde, vermelho, as línguas dançavam, verde, vermelho, as pessoas desviavam, verde, vermelho, os motoristas corriam, verde, vermelho, o bonequinho ainda não se decidiu o que vai ser e o beijo ainda está lá, há quase sete anos. Os beijos que dei em meus sonhos e aquele que durante um pesadelo, tirava a enfermidade dela e soprava vida em seu corpo que não queria mais viver. O beijo de alívio que dei ao acordar. Os beijos que dei no banho e aquele molhado de lágrimas que sabiam que aquela seria a primeira de tantas últimas vezes. O beijo que dei pra dizer que não iria embora, os que dei pra dizer que ficaria só mais um pouquinho. O beijo errado que dei porque era a coisa certa a se fazer. O beijo que roubei no estacionamento do shopping; eu sei que é cafona, mas ninguém podia ver e foi tão bom. Os beijos que dei em público ou em lugares escondidos, à luz do dia ou no meio de um filme. Os beijos que dei no metrô que deveriam dar direito a assentos especiais, beijos que viraram histórias, posts, que curaram e que hoje são machucados cujas casquinhas eu insisto em arrancar. Beijos com abraços, amassos, mãos bobas e os melhores, aqueles em que elas se entendem e apenas se seguram. Beijos que hoje me deixam feliz, me deixam emo, me deixam em póz. Beijos que posso separar em ordem alfabética, cronológica ou classificação periódica. Dê-me qualquer palavra, qualquer motivo, e eu escreverei sobre o beijo correspondente, talvez até com uma rima pobre e fremente, escancarado em praça pública e via RSS. Falaria de tudo e de todas, com ternura, sem vergonha, mas peralá, acontece que eu nunca, jamais, nevah, falaria do beijo, daquele beijo, que não compartilho com você e nem com ninguém e que é meu, só meu. Foi o beijo que guardei e aguardei, o beijo que eu precisava, Deus, nós, o mundo precisava daquele beijo, que poderia encerrar guerras e colonizar planetas, aquele beijo, maldito beijo, talvez você tenha um parecido no livro da sua vida, todo mundo tem, mas nenhum foi igual àquele, que mudou tudo, que abriu meu coração e meus eager eyes, ainda que eu nunca o tenha dado, eu o sinto até hoje.

  • Twitter
  • Facebook
  • YouTube