YabloG! - Archive - Crônicas

O monstro da gaveta

julho 30th, 2007 | Posted by Fábio Yabu in Crônicas - (15 Comments)

De vez em quando as pessoas comentam que me admiram por eu nunca desistir. Bom, não vou dizer que não sou teimoso (no ranking da minha mãe, eu ainda fico em terceiro lugar na família, perdendo pro meu irmão e pro Seu Eiji, invictos campeões mundiais), mas acho que o que me ajudou a concretizar meus planos foi jamais colocá-los na gaveta, pois há alguns anos, descobri que minha gaveta não era uma gaveta comum! Ela tinha vida!! E era um monstro!

O monstro da gaveta, como eu o apelidei, é cruel e insaciável. Não perdoa nem mesmo a mais brilhante das idéias, uma vez que você a coloca lá dentro, é como se estivesse colocando no cesto de lixo. Eu pelo menos só ouço falar de gente que tem projetos na gaveta, nunca de quem os tirou de lá e com eles mudou o mundo.

Eu sempre achei melhor dar a cara pra bater, nem que fosse pra depois apanhar e contar tudo pra minha mãe, do que ver o monstro devorar minhas idéias. Porém, já fui vítima dele várias vezes, e o vi estraçalhar vorazmente livros e histórias que escrevi, um palito premiado da Kibon e até um voucher de 500 dólares que esqueci de apresentar na cia. aérea e acabou expirando. Enfim, o negócio aqui não é chorar pelo leite derramado (ai, meus quinhentos dólares…), e sim fazer um alerta público sobre essa perigosa ameaça, que todos os dias torna as pessoas frustradas e suas lamentações ainda mais insuportáveis (ai meu palito premiado…).

Nesse exato momento ele está aí, bem ao seu lado, disfarçado como um Decepticon e esperando como Chuck Norris. Lembra daquele sonho, daquela viagem, daquele conto, que você inocentemente pôs na gaveta pra talvez deixar a mesa mais organizada? Pode olhar, não está mais lá. No máximo virou uma lembrança, quando não uma triste mágoa por algo que nem mesmo aconteceu. É assim que o monstro age. Devora com gosto os seus apetitosos planos, pra que você nunca saia da sua entediante e repetitiva vida e continue a alimentá-lo dia após dia, réveillon após réveillon.

A forma de combatê-lo é um tanto óbvia… basta não dar a ele o que comer. Então, quando tiver uma idéia ou um plano genial, como tantos que a gente vive tendo e perdendo na ensurdecedora entropia do dia-a-dia, arregace as mangas e simplesmente faça. O máximo que pode acontecer é você descobrir que a idéia não era tão boa assim, mas o importante é que, sem ter o que comer, o monstro morre e acaba virando uma simples gaveta, onde você só vai deixar as coisas que não quer ver ou não quer que os outros vejam. É pra isso que ela serve, não? ;)

… e dos sonhos da Vitória

julho 22nd, 2007 | Posted by Fábio Yabu in Crônicas - (19 Comments)

Já disseram aqui no blog que parece que tem alguém lá em cima escrevendo o roteiro da minha vida. Se é verdade, hoje, no lançamento do meu terceiro livro, foi escrito um dos capítulos mais bonitos, que começou com a Ayumi, de sete anos, pulando de alegria quando me viu.

Ela começou a falar o quanto gostava dos meus livros, ficou nervosa, disse que não sabia como devia me chamar, que achava que eu fosse baixinho, tudo isso sem parar de pular. Meus amigos choraram de emoção ao ver a alegria da menina, eu não sabia o que fazer, então resolvi pular também, e ficamos nós dois, pulando no meio da livraria, como se tivéssemos inventado a linguagem internacional do pulo, dizendo coisas que as palavras, tão desajeitadas jamais conseguiriam, assim como esse parágrafo.

Desde que tudo isso começou, conheci pessoas e lugares que jamais imaginei, mas acho que nunca estarei preparado para coisas como as que vi hoje, como a Ayumi ou a pequena Vitória, de cinco aninhos, que veio de Campinas pra me ver e trouxe consigo a fantasia da Tubarina que ela usou em seu último aniversário. Cinco anos. Tem desenhos da Tubarina no meu caderno mais velhos do que ela. Aí eu penso em tudo o aconteceu com esses desenhos enquanto a Vitória crescia, aprendia a andar, a falar e a sonhar, até que num dia mágico os sonhos dela se encontraram com os meus.

Aí, tudo mudou. Os meus sonhos passaram a ser dela, e de criador virei criatura, um polvinho simpático com um japonês na cabeça que se disfarçou de gente só pra fazer um desenho no livro dela. Eu não sei quanto a vocês, mas pra mim esse é o melhor trabalho que existe – e a melhor maneira de ser criança para sempre.

Muito obrigado a todos que compartilharam esses e outros momentos mágicos, que quase fizeram aquela livraria transbordar de amor. Foi inacreditável e além de qualquer expectativa. Obrigado papai, mamãe, família, amigos, leitores do blog (que compareceram em massa!), por todo o carinho e amizade. Prometo que vou continuar tentando ser digno desses sentimentos,  dos pulinhos da Ayumi e dos sonhos da Vitória.

Ah, e obrigado também aos fãs de Harry Potter que compraram o último livro pela Internet e assim me deixaram usar a livraria sossegado! :)

O outro lado do muro

março 19th, 2007 | Posted by Fábio Yabu in Crônicas - (14 Comments)

Quer saber mesmo por que eu gosto tanto de criar e escrever? Porque eu sempre quis saber o que tinha do outro lado do muro. Quando eu era criança, adorava as Aventuras de Xisto, de Lúcia Machado de Almeida. Não só de ler e reler suas aventuras, mas saber de onde ele saiu. Como era feito um livro, de onde vinham as idéias, como elas viajavam escondidas nas letras até a minha casa e o meu coração.

Como nunca houve ninguém pra me explicar esse tipo de coisa, tudo o que eu podia fazer era pular o muro. Simplesmente meter as caras e fazer meus gibis, minhas histórias, do meu jeito. Foi sempre o único jeito de aprender. As coisas foram acontecendo naturalmente. Vieram os gibis, os livros e agora o desenho animado. Já faz quase 10 anos que estou vivendo do outro lado do muro, e devo admitir que é muito legal ver as coisas do lado de cá. Brincar com as emoções das pessoas, passar meus valores, disfarçar as chagas do meu coração ou escancará-las para o mundo. Seja nos quadrinhos, no blog, nos livros ou mesmo no Big Brother Bonequinho, cada coisa que escrevo tem um pouco de tudo isso.

Com o desenho animado, as coisas atingiram um novo patamar. Como ainda não posso divulgar imagens, vou falar um pouco da produção, das alegrias e também das dificuldades do processo.

Em uma frase? É como participar ao vivo do making of de um DVD. É tanta gente envolvida, tantos nomes que é quase impossível lembrar de todos.

Tudo começa no maravilhoso e borbulhante mundo das idéias. De lá, tiro idéias, personagens e situações que envio para o roteirista da série. Eu não sou o responsável pelos roteiros propriamente ditos, apenas escrevo idéias que são desenvolvidas pelo roteirista, que por sua vez me manda o roteiro para sugestões e alterações. Às vezes escrevo umas quatro, cinco idéias de episódios e só uma acaba sendo aproveitada. Faz parte. Escrever é ter desapego. Mas é extremamente recompensador ver aquela sua idéia criando vida nas palavras de outra pessoa e virando desenhos na forma de storyboards.

Storyboard, aquela espécie de rascunho da animação, é uma das partes mais bacanas do processo. Nessa fase começam a surgir os cenários, as expressões faciais, o movimento e a magia do desenho. Então vem a dublagem, sem dúvida a parte mais divertida. Assistir a dublagem de um desenho animado é algo que todo mundo tem que fazer uma vez na vida. São horas e horas de risadas e alto astral, essencial para um trabalho como esse. Já a animação em si é coisa pra apaixonados – acho que vou chocar muita gente, mas pode me incluir fora dessa. Gosto só do resultado final, pois o processo é lento, cansativo e repetitivo.

Tem ainda uma figura que pouca gente sabe pra que serve. É o tal do produtor executivo. Muitos pensam que ele é só o cara que põe a grana e pede pro diretor colocar mais ação, sexo ou uma aranha mecânica num filme. Pode até ser em alguns casos, mas ao menos os produtores que conheço fazem das tripas coração para que tudo dê certo. Um produtor competente é o responsável por coordenar toda a galera que citei acima, aprovar roteiro, storyboard, vozes, música, firmar acordos internacionais e adequar o produto final às necessidades e demandas do mercado.

Frequentemente o produtor executivo tem opiniões divergentes do resto da equipe; do desenhista de storyboard passando pelo diretor ou por mim. Algumas vezes é possível chegar num consenso, mas em outras não. Um detalhe num personagem, um roteiro ou qualquer coisa que aparentemente não faz sentido pra mais ninguém senão pro produtor e as benditas necessidades do mercado, que geralmente acabam sendo o pivô da questão.

Conflitos resolvidos ou não, e depois da desinteressante parte da pós-produção, pulamos finalmente para o episódio prontinho em DVD ou num arquivo digital. Assistir é recompensador e ao mesmo tempo surreal. É reviver meses ou anos inteiros de trabalho em pouco mais de dez minutos, ver aqui e acolá um errinho alheio e em todo lugar um erro seu. Mas é, acima de tudo, ver a magia se manifestando e se imaginar onde ela vai parar, qual casa e qual coração do outro lado do muro ela vai encantar. É reviver a própria infância por um ângulo diferente.

O amigo oculto (ou secreto)

dezembro 26th, 2006 | Posted by Fábio Yabu in Crônicas - (3 Comments)

Tudo começou quando a gente disse adeus pela primeira vez.

Aquele incompreensível adeus e os dias que se seguiram em que você não estava lá. Os dias de espera, de lágrimas e de dor enquanto você não voltava. Sentado no canto do quarto, vendo as horas passarem como segundos quando tudo o que eu queria era que elas parassem de uma vez. Os olhares preocupados, as opiniões equivocadas de quem teima em falar sobre o coração alheio, que eu sequer ouvia por estar com aquelas últimas palavras ecoando em minha mente, turvando meu pensamento, trazendo lágrimas e destruindo sonhos, até começarem a diminuir de intensidade, até que eu pude voltar a respirar, até que no quarto dia resolvi pegar a mágoa, colocar na mochila e partir para sempre, só para aprender pela primeira vez que o para sempre está no instante.

Hoje me lembro desses quatro dias no escuro com ternura. As coisas ao meu redor começaram a se transformar e, dentro de mim, a dor virou silêncio, que virou saudade, que me tornou invisível. Pra poder ver seu novo corte de cabelo, sua nova gatinha, sua nova vida. Pra cruzar “sem querer” com suas amigas e descobrir com alegria que você continuava seguindo em frente.

Mesmo quando eu não queria, mesmo quando achava que tinha te esquecido, a vida me lembrava, me trazia pessoas que eu jamais achei que conheceria, só pra descobrir que elas também eram suas amigas. Elas se tornaram meus olhos e ouvidos pra ver sua formatura, suas viagens e quando você foi muito além. Invisível, torci por cada passo seu, orei pra que cada tombo não machucasse muito e, quando isso acontecia, corria novamente para te ajudar a se levantar, nos poucos momentos em que sua mão geladinha tocou a minha em tantos anos.

Adeus? Nunca serviu pra nada. Eu estava lá sempre, e Deus, como foi precioso pra mim saber que você também estava. Para sempre juntos, para sempre amigos, ainda que meus amigos mais próximos sequer sabem como é o seu rosto e vice-versa. Não era isso que a gente queria? O mundo deu tantas voltas, giramos junto com ele e fomos parar tão longe, atravessando oceanos, dizendo tantos outros adeuses inúteis, girando e girando só pra cair onde estamos agora: você aí e eu aqui. Como sempre.

Talvez eu seja meio Poliana mesmo, meio Mr. Brightside, mas de todos os presentes que eu poderia receber nesse fim de ano, não tem nada mais maravilhoso do que saber que você está bem e tem quem cuide de você.

Ano Novo

dezembro 9th, 2006 | Posted by Fábio Yabu in Crônicas - (8 Comments)

O ano era 1996.

Eu entrei naquela escola como quem estava sendo mandado para a cadeia. Em fila, de uniforme e cabeça baixa, fazia questão de odiar cada detalhe: os ladrilhos amarelo e marrom do chão, os muros cinzas e as grades verdes, a inspetora histéria, o professor de história afeminado, o de matemática bêbado, a diretora gorda, sem dentes e careca (pior que é verdade). Para mim o Inferno de Dante era a riviera francesa perto daquela prisão para onde eu estava sendo mandado pelo crime de não ter falado pra Lígia que eu gostava dela desde a sexta-série e fugido com ela para um país distante.

Logo no primeiro dia de aula, veio a surpresa, de nome Liliane. Ruivinha, cabelos longos e ondulados, o topo de linha em 94. Ainda me recuperando dos estragos pós-Lígia, numa dessas caminhadas até o ponto de ônibus a chamei pra sair. E adivinhe, ela aceitou! Fomos ao cinema, onde os Deuses mandaram aumentar o ar condicionado e ela disse que estava com frio, me dando a desculpa perfeita para pegar na sua mão (que já devia estar gangrenando, tamanha a minha indecisão). E a gente ficou. Uma ou duas semanas depois, ela mudou de cidade, de país, não lembro. Na verdade mal lembro do rosto dela, se é que ela tinha um.

Mas então eu vi que talvez ser mandado para aquela prisão não era de todo ruim. Coisas boas podiam acontecer. Com a atenção dividida entre os hormônios escorrendo pelo canto da boca e a vontade de entender como aquele sistema carcerário funcionava, logo dominei suas regras. Era só conhecer as pessoas certas, jogar o joguinho de poder, aprender a negociar e pronto. Logo eu era o rei da turma. Amigo dos professores, campeão no STOP e passador oficial de cola de metade da sala, eu era intocável. Nesse primeiro ano que passou no colegial, meu coração teve várias senhoras, mas não me atrevo a falar delas aqui porque ao contrário de Lígia e Liliane elas estão no meu orkut.

Quando o ano acabou, o ciclo de poder se inverteu completamente. Fui mandado para o horário diurno, onde não conhecia ninguém. De repente perdi meu poder, que agora pertencia àqueles que já o dominavam naquele horário desde o ano anterior. E o nível intelectual da classe era melhorzinho, o que me dava menos poder de barganha. Se não se pode vencê-los, junte-se a eles. Peguei meu material e mudei para o fundo, e, naquele dia, minha vida mudou.

A turma do fundão no segundo colegial era bem diferente dos tradicionais arruaceiros adolescentes. Éramos como gênios do crime, sabíamos jogar o jogo do sistema, matar aula, jogar truco, fazer guerrinha de papel, clips, latas de lixo e cadeiras, inventar cumprimentos e gritos de guerra sem que nossa devassidão se mostrasse nos boletins. Éramos como aqueles mafiosos que possuem a ficha criminal impecável, contra os quais tudo o que a polícia pode fazer é esperar um deslize na declaração do imposto de renda.

Cada dia era uma festa. O respeito entre os senhores do crime foi crescendo e nos tornamos amigos, irmãos e irmãs. O tempo na sala de aula já não era suficiente e precisávamos nos ver nos fins de semana, feriados e férias, que eu aguardava ansiosamente que passassem logo para que eu pudesse voltar à minha cela e rever meus comparsas.

No último e derradeiro ano, nos tornamos mais unidos do que jamais fui com alguém na vida. A morte havia assombrado um de nós, que reencontrou em nosso grupo uma razão de sorrir novamente. Se não podíamos reparar sua perda, fazíamos o melhor para sermos novos irmãos e irmãs.

E assim o ano foi passando, sem que ninguém tivesse a menor vontade que ele terminasse. Em meio às músicas da Legião Urbana que ouvíamos em nossas fitas cassete, aos planos cada vez menos diabólicos e a uma ou duas novas senhoras de meu coração, 1996 passou como o melhor ano da minha adolescência. Que eu sabia que iria acabar em breve, que precisava ser guardado e lembrado como um tesouro precioso, por isso em segredo registrei junto a um de meus amigos todas as memórias num livro que entregamos ao resto do grupo no dia da formatura. Recebido com lágrimas, gratidão, saudade e a promessa de jamais nos separarmos.

Dez anos me separam do final feliz daquela epopéia adolescente, que mais lembrava um seriado americano mas que, ao contrário deles, acabou na hora certa. Como você deve imaginar, nunca mais nos vimos.

Feliz 1997!

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