YabloG! - Archive - Crônicas

O outro lado do muro

março 19th, 2007 | Posted by Fábio Yabu in Crônicas - (14 Comments)

Quer saber mesmo por que eu gosto tanto de criar e escrever? Porque eu sempre quis saber o que tinha do outro lado do muro. Quando eu era criança, adorava as Aventuras de Xisto, de Lúcia Machado de Almeida. Não só de ler e reler suas aventuras, mas saber de onde ele saiu. Como era feito um livro, de onde vinham as idéias, como elas viajavam escondidas nas letras até a minha casa e o meu coração.

Como nunca houve ninguém pra me explicar esse tipo de coisa, tudo o que eu podia fazer era pular o muro. Simplesmente meter as caras e fazer meus gibis, minhas histórias, do meu jeito. Foi sempre o único jeito de aprender. As coisas foram acontecendo naturalmente. Vieram os gibis, os livros e agora o desenho animado. Já faz quase 10 anos que estou vivendo do outro lado do muro, e devo admitir que é muito legal ver as coisas do lado de cá. Brincar com as emoções das pessoas, passar meus valores, disfarçar as chagas do meu coração ou escancará-las para o mundo. Seja nos quadrinhos, no blog, nos livros ou mesmo no Big Brother Bonequinho, cada coisa que escrevo tem um pouco de tudo isso.

Com o desenho animado, as coisas atingiram um novo patamar. Como ainda não posso divulgar imagens, vou falar um pouco da produção, das alegrias e também das dificuldades do processo.

Em uma frase? É como participar ao vivo do making of de um DVD. É tanta gente envolvida, tantos nomes que é quase impossível lembrar de todos.

Tudo começa no maravilhoso e borbulhante mundo das idéias. De lá, tiro idéias, personagens e situações que envio para o roteirista da série. Eu não sou o responsável pelos roteiros propriamente ditos, apenas escrevo idéias que são desenvolvidas pelo roteirista, que por sua vez me manda o roteiro para sugestões e alterações. Às vezes escrevo umas quatro, cinco idéias de episódios e só uma acaba sendo aproveitada. Faz parte. Escrever é ter desapego. Mas é extremamente recompensador ver aquela sua idéia criando vida nas palavras de outra pessoa e virando desenhos na forma de storyboards.

Storyboard, aquela espécie de rascunho da animação, é uma das partes mais bacanas do processo. Nessa fase começam a surgir os cenários, as expressões faciais, o movimento e a magia do desenho. Então vem a dublagem, sem dúvida a parte mais divertida. Assistir a dublagem de um desenho animado é algo que todo mundo tem que fazer uma vez na vida. São horas e horas de risadas e alto astral, essencial para um trabalho como esse. Já a animação em si é coisa pra apaixonados – acho que vou chocar muita gente, mas pode me incluir fora dessa. Gosto só do resultado final, pois o processo é lento, cansativo e repetitivo.

Tem ainda uma figura que pouca gente sabe pra que serve. É o tal do produtor executivo. Muitos pensam que ele é só o cara que põe a grana e pede pro diretor colocar mais ação, sexo ou uma aranha mecânica num filme. Pode até ser em alguns casos, mas ao menos os produtores que conheço fazem das tripas coração para que tudo dê certo. Um produtor competente é o responsável por coordenar toda a galera que citei acima, aprovar roteiro, storyboard, vozes, música, firmar acordos internacionais e adequar o produto final às necessidades e demandas do mercado.

Frequentemente o produtor executivo tem opiniões divergentes do resto da equipe; do desenhista de storyboard passando pelo diretor ou por mim. Algumas vezes é possível chegar num consenso, mas em outras não. Um detalhe num personagem, um roteiro ou qualquer coisa que aparentemente não faz sentido pra mais ninguém senão pro produtor e as benditas necessidades do mercado, que geralmente acabam sendo o pivô da questão.

Conflitos resolvidos ou não, e depois da desinteressante parte da pós-produção, pulamos finalmente para o episódio prontinho em DVD ou num arquivo digital. Assistir é recompensador e ao mesmo tempo surreal. É reviver meses ou anos inteiros de trabalho em pouco mais de dez minutos, ver aqui e acolá um errinho alheio e em todo lugar um erro seu. Mas é, acima de tudo, ver a magia se manifestando e se imaginar onde ela vai parar, qual casa e qual coração do outro lado do muro ela vai encantar. É reviver a própria infância por um ângulo diferente.

O amigo oculto (ou secreto)

dezembro 26th, 2006 | Posted by Fábio Yabu in Crônicas - (3 Comments)

Tudo começou quando a gente disse adeus pela primeira vez.

Aquele incompreensível adeus e os dias que se seguiram em que você não estava lá. Os dias de espera, de lágrimas e de dor enquanto você não voltava. Sentado no canto do quarto, vendo as horas passarem como segundos quando tudo o que eu queria era que elas parassem de uma vez. Os olhares preocupados, as opiniões equivocadas de quem teima em falar sobre o coração alheio, que eu sequer ouvia por estar com aquelas últimas palavras ecoando em minha mente, turvando meu pensamento, trazendo lágrimas e destruindo sonhos, até começarem a diminuir de intensidade, até que eu pude voltar a respirar, até que no quarto dia resolvi pegar a mágoa, colocar na mochila e partir para sempre, só para aprender pela primeira vez que o para sempre está no instante.

Hoje me lembro desses quatro dias no escuro com ternura. As coisas ao meu redor começaram a se transformar e, dentro de mim, a dor virou silêncio, que virou saudade, que me tornou invisível. Pra poder ver seu novo corte de cabelo, sua nova gatinha, sua nova vida. Pra cruzar “sem querer” com suas amigas e descobrir com alegria que você continuava seguindo em frente.

Mesmo quando eu não queria, mesmo quando achava que tinha te esquecido, a vida me lembrava, me trazia pessoas que eu jamais achei que conheceria, só pra descobrir que elas também eram suas amigas. Elas se tornaram meus olhos e ouvidos pra ver sua formatura, suas viagens e quando você foi muito além. Invisível, torci por cada passo seu, orei pra que cada tombo não machucasse muito e, quando isso acontecia, corria novamente para te ajudar a se levantar, nos poucos momentos em que sua mão geladinha tocou a minha em tantos anos.

Adeus? Nunca serviu pra nada. Eu estava lá sempre, e Deus, como foi precioso pra mim saber que você também estava. Para sempre juntos, para sempre amigos, ainda que meus amigos mais próximos sequer sabem como é o seu rosto e vice-versa. Não era isso que a gente queria? O mundo deu tantas voltas, giramos junto com ele e fomos parar tão longe, atravessando oceanos, dizendo tantos outros adeuses inúteis, girando e girando só pra cair onde estamos agora: você aí e eu aqui. Como sempre.

Talvez eu seja meio Poliana mesmo, meio Mr. Brightside, mas de todos os presentes que eu poderia receber nesse fim de ano, não tem nada mais maravilhoso do que saber que você está bem e tem quem cuide de você.

Ano Novo

dezembro 9th, 2006 | Posted by Fábio Yabu in Crônicas - (8 Comments)

O ano era 1996.

Eu entrei naquela escola como quem estava sendo mandado para a cadeia. Em fila, de uniforme e cabeça baixa, fazia questão de odiar cada detalhe: os ladrilhos amarelo e marrom do chão, os muros cinzas e as grades verdes, a inspetora histéria, o professor de história afeminado, o de matemática bêbado, a diretora gorda, sem dentes e careca (pior que é verdade). Para mim o Inferno de Dante era a riviera francesa perto daquela prisão para onde eu estava sendo mandado pelo crime de não ter falado pra Lígia que eu gostava dela desde a sexta-série e fugido com ela para um país distante.

Logo no primeiro dia de aula, veio a surpresa, de nome Liliane. Ruivinha, cabelos longos e ondulados, o topo de linha em 94. Ainda me recuperando dos estragos pós-Lígia, numa dessas caminhadas até o ponto de ônibus a chamei pra sair. E adivinhe, ela aceitou! Fomos ao cinema, onde os Deuses mandaram aumentar o ar condicionado e ela disse que estava com frio, me dando a desculpa perfeita para pegar na sua mão (que já devia estar gangrenando, tamanha a minha indecisão). E a gente ficou. Uma ou duas semanas depois, ela mudou de cidade, de país, não lembro. Na verdade mal lembro do rosto dela, se é que ela tinha um.

Mas então eu vi que talvez ser mandado para aquela prisão não era de todo ruim. Coisas boas podiam acontecer. Com a atenção dividida entre os hormônios escorrendo pelo canto da boca e a vontade de entender como aquele sistema carcerário funcionava, logo dominei suas regras. Era só conhecer as pessoas certas, jogar o joguinho de poder, aprender a negociar e pronto. Logo eu era o rei da turma. Amigo dos professores, campeão no STOP e passador oficial de cola de metade da sala, eu era intocável. Nesse primeiro ano que passou no colegial, meu coração teve várias senhoras, mas não me atrevo a falar delas aqui porque ao contrário de Lígia e Liliane elas estão no meu orkut.

Quando o ano acabou, o ciclo de poder se inverteu completamente. Fui mandado para o horário diurno, onde não conhecia ninguém. De repente perdi meu poder, que agora pertencia àqueles que já o dominavam naquele horário desde o ano anterior. E o nível intelectual da classe era melhorzinho, o que me dava menos poder de barganha. Se não se pode vencê-los, junte-se a eles. Peguei meu material e mudei para o fundo, e, naquele dia, minha vida mudou.

A turma do fundão no segundo colegial era bem diferente dos tradicionais arruaceiros adolescentes. Éramos como gênios do crime, sabíamos jogar o jogo do sistema, matar aula, jogar truco, fazer guerrinha de papel, clips, latas de lixo e cadeiras, inventar cumprimentos e gritos de guerra sem que nossa devassidão se mostrasse nos boletins. Éramos como aqueles mafiosos que possuem a ficha criminal impecável, contra os quais tudo o que a polícia pode fazer é esperar um deslize na declaração do imposto de renda.

Cada dia era uma festa. O respeito entre os senhores do crime foi crescendo e nos tornamos amigos, irmãos e irmãs. O tempo na sala de aula já não era suficiente e precisávamos nos ver nos fins de semana, feriados e férias, que eu aguardava ansiosamente que passassem logo para que eu pudesse voltar à minha cela e rever meus comparsas.

No último e derradeiro ano, nos tornamos mais unidos do que jamais fui com alguém na vida. A morte havia assombrado um de nós, que reencontrou em nosso grupo uma razão de sorrir novamente. Se não podíamos reparar sua perda, fazíamos o melhor para sermos novos irmãos e irmãs.

E assim o ano foi passando, sem que ninguém tivesse a menor vontade que ele terminasse. Em meio às músicas da Legião Urbana que ouvíamos em nossas fitas cassete, aos planos cada vez menos diabólicos e a uma ou duas novas senhoras de meu coração, 1996 passou como o melhor ano da minha adolescência. Que eu sabia que iria acabar em breve, que precisava ser guardado e lembrado como um tesouro precioso, por isso em segredo registrei junto a um de meus amigos todas as memórias num livro que entregamos ao resto do grupo no dia da formatura. Recebido com lágrimas, gratidão, saudade e a promessa de jamais nos separarmos.

Dez anos me separam do final feliz daquela epopéia adolescente, que mais lembrava um seriado americano mas que, ao contrário deles, acabou na hora certa. Como você deve imaginar, nunca mais nos vimos.

Feliz 1997!

O Clube dos Velhinhos

novembro 28th, 2006 | Posted by Fábio Yabu in Crônicas - (9 Comments)

Esse foi um ano estranho.

Em todo o lugar que eu ia, encontrava um velhinho. Na padaria, no café, na livraria, no restaurante, no avião, no templo. Quando fui pra Paris fiquei 10 dias e não conheci ninguém a não ser… uma velhinha. Americana, muito simpática por sinal, havia ganhado a passagem dos filhos, o mais novo de 40 anos. Foi a minha melhor amiga durante a viagem.

Outro dia me meti a fazer uma aula de Tai Chi. É, eu e a Associação das Professoras de Geografia Aposentadas. No meu curso de filosofia sou o caçulinha da turma… a média de idade da sala é de 60 anos. Outro dia só por curiosidade resolvi ir na outra turma, e sabe o que vejo? Jovenzinhos na casa dos 35. Descobri que tinha algo errado. Alguém estava me mandando sinais.

Hoje fui cortar o cabelo, e o mais bizarro não foi ter levado uma cantada federal do cabeleireiro (“nossa, acho japonês tão liiiindo…”), mas o fato de, no meio dos cabelos que caíam no meu colo, tinha um diferente.

Branco.

YEEEEEEES!

Estou feliz em entrar para o Clube dos Velhinhos. Eu estava ansioso pra esse dia chegar, como uma pré-adolescente ansiosa pelo seu primeiro sutiã. A terceira idade me aguarda, e pode crer que eu vou com tudo!!

Chega de balada. Chega do carinha sem segundo grau na porta olhando pra minha roupa julgando se eu posso entrar ou não, chega das baladas de gente descolada com suas roupinhas descoladas e cabelos que lembram a adolescência mal resolvida, chega dos revivals dos anos 80, Deus, eu sinto vergonha de quem vai nesses lugares, chega dos cigarros que impregnam até minhas meias, do maldito cheiro de maconha, chega de gente suando, pulando, fedendo, se esfregando. Chega das jovenzinhas com pouca roupa, das trintonas desesperadas, dos moleques de 20 e poucos salivantes, dos quarentões mortos de fome. Chega dos barzinhos, repetitivos, sem graça, iguais. Em São Paulo pode-se ir a um bar por dia, sem repetir, durante 8 meses. Deus me livre, eu quero é voltar pra Birigui! Chega das bandas que tocam nas quintas à noite e não deixam a gente conversar, chega de pagar 5, 6, 10 reais numa cerveja que tem gosto de água suja, chega de bêbados no meu caminho para o banheiro, chega de uma porção de fritas com cheddar numa sexta à noite (gordura saturada, tô fora), chega dos “aniversários” em barzinhos em que você só vê o aniversariante quando chega e quando vai, e no meio disso fica com um sorriso amarelo e a cara de bunda a cada convidado que você não conhece e ainda tem que apertar a mão e dar beijinho. Aliás, aperto de mão e beijinho, chega disso também, coisa mais anti-higiênica. “Oi, beleza” já tá ótimo, se não quiser, passar bem!

Chega dessa necessidade desenfreada que as pessoas têm de espalhar sua saliva e seu DNA noite a fora, Deus, o que eles querem, colonizar Júpiter? Chega do xaveco furado pra levar a menina pro motel, chega de levar amigo bêbado pra casa, chega do outro amigo que ficou de levar todo mundo pra casa mas está sem roupa no estacionamento ao lado, chega das mensagens “Onde vocês estão?” no celular, chega de música eletrônica no carro, eu não suporto mais isso, mal ouço heavy metal, só quero saber de jazz e rock com mais de 15 anos. Chega de MPB, chega daquela porra daquele Armandinho, chega da 89, tão decadente, chega desses fenômenos e ondas adolescentes que varrem o mundo universitário e chegam incólumes até a mim, que só quero paz nos meus 27 anos. CHEGA!

Agora, no Clube dos Velhinhos, eu só quero saber de bons restaurantes (acho que vou ficar por São Paulo mesmo) e das sessões de cinema sem adolescentes. De passear com meus sobrinhos, trazer as crianças para dormir em casa, fazer o almoço, obrigar a comer tudo. De jantar na casa dos amigos, ajudar a lavar a louça e fazer fofoca enquanto isso. De comer bolo com biscoitos e café num domingo à tarde, de andar devagar, dormir com a barriga pra cima, falar e ser ouvido, se não, falar de novo e de novo até funcionar. De ouvir música velha, de fazer buracos no CD ou no iPod (sou um velho moderno), de usar o celular ultramoderno como calculadora de troco. Quero pegar ônibus de graça e celebrar cada novo cabelo branco, a conquista de ter passado pelos 20 e poucos sem ter feito nada de que eu me arrependesse. Quero só me preocupar com as coisas que realmente importam, como por exemplo, o que falta pra aprender, pra aproveitar, pra viver? Que idiomas eu não falo, que países quero visitar, que pensadores eu não conheço (todos velhinhos também, pode crer). E o melhor de tudo: sem nenhuma velha chata pra me encher o saco!

Profissão: Menino

novembro 27th, 2006 | Posted by Fábio Yabu in Crônicas - (16 Comments)

Eu não era do tipo de criança que queria ser astronauta, jogador de futebol, ator de Hollywood, super-herói e presidente quando crescesse. Me lembro da primeira vez que me fizeram a infame pergunta: “O que você vai ser quando crescer?”. O negócio me pegou de sopetão, mas que pergunta idiota, então respondi com a lógica de uma criança de 5 anos: “Vou ser menino, ué!”. Alguém riu, meu pai deve ter respirado aliviado, e a vida seguiu em frente.

Os anos foram passando e vez por outra vinham me perguntar de novo. O que tinha de errado em querer ser só um menino? Parecia que todo mundo queria que eu fosse alguma coisa, então resolvi pensar a respeito. Como o tal do “quando crescer” parecia muito subjetivo, aos oito anos fiz as contas e descobri que no ano 2000 eu já seria gente grande, o que me deu com o que trabalhar pelos anos vindouros. Até teria funcionado se eu não estivesse ocupado demais jogando Alex Kidd e vendo Changeman.

Nas vésperas do colegial, no longínquo 1994, a pressão começou a aumentar, porque o “crescer” já estava chegando. “Já sabe o que vai fazer?”, “Vai dar pra passar no vestibular?” perguntavam os engraçadinhos. E eu ficava puto da vida. Como assim, escolher profissão? Eu nunca peguei um ônibus sozinho na vida e vocês querem que eu escolha uma profissão?

Empurrei a questão com a barriga que eu ainda não tinha até o final do colegial. Prestei uns 2 ou 3 vestibulares, nem lembro mais do que, passei em todos mas não me matriculei em nenhum curso. Ainda não havia decidido o que queria. Numa sexta-feira à noite minha mãe me disse: “Vi uma faixa na rua, amanhã tem vestibular pra Publicidade na faculdade aí do lado, quer ir?”. Aí eu falei “Por que não?”.

(Não é à toa que a faculdade de PUBLICIDADE era ruim, veja como a minha mãe ficou sabendo do vestibular)

Fui. Dormi na prova. E passei. Fiquei um ano e meio e depois já havia largado o curso. Estava em casa de novo perguntando o que eu queria fazer da minha vida maledeta. Tentei de novo, entrei na faculdade de Desenho Industrial em São Paulo e em seis meses já havia trancado a matrícula e jogado a chave fora.

(Acredite, até hoje tenho sonhos em que estou na sala de aula da faculdade me perguntando três coisas: como fui parar ali, como faço para escapar e do que era a prova mesmo? A última vez foi semana passada.)

Ano passado eu fui padrinho em um casamento civil e o juiz me perguntou “Profissão do padrinho?” eu olhei pro noivo, pra noiva, pro juiz e falei desesperado “EU NÃO SEEEI!”. Ficou aquele silêncio, alguém falou “ele faz gibi”, “não faço mais”, “ele tem uma empresa”, “fechei”, “você não escreve livros? então é escritor!”, “mas só lancei um livro, não sei se conta”, “claro que conta”, “Augusto dos Anjos também só escreveu um livro”, “ah, é?”, “aham, profissão do padrinho..?”, “põe escritor aí”, “você desenha também, né?”.

E ficou por isso mesmo. Virei escritor. Mas na verdade até hoje não sei direito o que sou, não consigo me rotular de nada. Nem escritor, nem desenhista, nem roteirista, nem vegetariano, nem budista, nem esquerda, nem direita. Na real eu tenho um pouco de medo dessas pessoas que se rotulam tão facilmente sobre o que são e o que querem ser, e esquecem das infinitas possibilidades que a vida oferece. No final das contas, estou satisfeito em ser apenas um menino, exatamente como queria aos cinco anos.

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