YabloG! - Archive - Crônicas

Ainda bem que ela me odeia

novembro 19th, 2006 | Posted by Fábio Yabu in Crônicas - (21 Comments)

Pareceu muito legal na época.

A gente se conheceu assim, nesses momentos bem clichês. Era uma terça-feira, dia de meditação, seguida de um solitário cafézinho na padaria. Tudo o que eu não queria era conversar com alguém, e ela ainda teve a manha de perguntar, “você vem sempre aqui?”. Eu só não ri porque ela era bonitinha. Conversa vai, conversa vem, ela gostava de Lost e estava mudando de apartamento. Caminhamos até o carro dela, e tudo ficou por isso mesmo.

Na terça-feira seguinte nos encontramos de novo. Eu ainda resistia, ela parecia estar a fim, eu só queria acabar meu café e ir pra casa, mas o papinho inocente e clichê dela acabou me segurando. Ficamos.

Trocamos telefone, MSN, orkut, Deus me livre. As primeiras vezes até foi bacana, você sempre encontra algo em comum em 5 minutos de conversa com qualquer pessoa; e felizmente depois que você fica velho aprende que não é tão raro assim. Algumas semanas depois, tudo o que eu queria era voltar a tomar meu café sozinho, e sem dó nem piedade foi a minha vez de soltar um clichezão: “queria que a gente fosse só amigo”.

Rá, ela não esperava por essa. Foi o maior chororô, um tal de liga em casa, liga no celular, manda SMS, MSN, orkut, código morse, um horror. Eventualmente ela acabou desencanando, mas só por garantia passei a evitar aquela padaria onde nos conhecemos (droga, já é a segunda em SP que não posso frequentar).

Esses dias fiquei sabendo que ela me odeia.

E não tem nada mais tranquilizante do que isso.

Eu agradeço aos céus pelo ódio dela. Por cada palavra (injustificada, garanto) que ela disse sobre mim para os amigos que eu sequer conheci. Fale mesmo. Mete a boca, invente, calunie, xingue todas as gerações da minha família até chegar em Adão e Eva. Faça um bonequinho vudu de mim, perfure com espeto de churrasco, me faça assistir filme dublado, use a criatividade, arranque meus braços e me golpeie com eles.

Porque um dia o ódio passa. Um dia ela vai esquecer a mágoa, ver que a gente não tinha nada a ver, que tem gente muito mais legal do que eu por aí. Vai ver que a vida é muito mais do que um casinho de quatro semanas e meia, vai queimar meus livros e esquecer que eu existo. E finalmente vai ficar em paz. A raiva é um fardo leve pra quem tem bom coração; por pior que seja, uma hora ela passa.

O problema é quando o que sobra de um relacionamento é aquele restinho de amor. Aquela dorzinha no coração, aqueles pensamentos que invadem a nossa cabeça numa tarde de faxina, aquele “e se…?”, que muita gente carrega pro resto da vida, tudo isso multiplicado por cada vez que se amou de verdade. Sentir esse restinho que parece não acabar nunca é a pior das torturas, perto dela o ódio alheio passa a ser uma benção.

O Presente

setembro 26th, 2006 | Posted by Fábio Yabu in Crônicas - (9 Comments)

Quantas vezes uma coisa assim pode acontecer na vida?

Eu havia ido para Santos passar meu aniversário com minha família. Ao chegar ao prédio onde cresci, olhei para a janela da sala e vi um vulto acenando para mim. Meu irmão, que estava ao meu lado disse “Putz, quem é?“. Porque, convenhamos, alguém acenando para você na janela da casa dos seus pais não pode ser coisa boa. Nunca é.

Subimos apreensivos. Entrei em casa correndo, evitando a sala, e puxei minha mãe pro meu quarto. “Mãe, quem tá aí??“. “Vai lá ver!”. “Não, mãe! Não brinca com essas coisas!“. “Vai lá ver, bobo!“. “Não, mãe! Não faz isso comigo, vai que é uma tia que eu não lembro o nome, aí ela vai ficar constrangida e eu também“. Meu argumento venceu e minha mãe disse: “É a Dulcelina“.

Putz.

Meu coração desmontou na hora.

Dulcelina teve um papel fundamental no início da minha vida. Durante sete anos, ela trabalhou na casa da minha família, cuidando de mim e dos meus irmãos. Trocou fraldas, levou para a escolinha, fez comida, limpou a bagunça, viajou conosco, até que, aos  cinco anos eu a vi na cozinha dando um forte abraço na minha mãe. Não lembro se elas choravam, lembro só da minha mãe agradecendo muito e dando a ela um maço de notas da moeda vigente na época. Um pequeno agradecimento pelos anos de dedicação. Então, Dulcelina chegou para mim, abaixou-se e disse “Tchau, Fábio” e tudo o que eu pude dizer foi “Tchau“.

Eu nunca esqueci esse “tchau”. Logo depois chegou o que chamo de “Dulcelina Genérica”, tanto que se chamava “Dulcinéia” (podia ser “Dulcinérica”). Mas ela não durou nem um mês, não se adaptou e meu irmão morria de medo dela. Ela foi a última moça a trabalhar em casa. E desde então eu me perguntava, “mas cadê a Dulcelina?”

A Dulcelina estava lá aquele dia, para me ver no meu aniversário, 21 anos depois daquele “tchau”. Vinte e um anos depois, os rostos mudaram muito, e ela perguntou “Esse aí é o Fábio?”. Antes de abraçá-la as palavras saíram na frente e disseram “Eu lembro do dia em que você foi embora…“, um jeito improvisado de pedir desculpas por aquele “tchau” tão desajeitado.

Memórias desenterradas, tesouros descobertos. Dulcelina falava, ria, tirava sarro dos cabelos brancos do meu pai, contava com orgulho o quanto aqueles tempos haviam sido difíceis. Era uma época terrível para se ser professor e ter três filhos “o cabeça branca aí (meu pai) demorava mas pagava!“. Ela ainda está jovem (42 anos, começou lá em casa com 17), com a mesma energia e bom humor de sempre, e enquanto ela falava e ria eu ia vendo os primeiros anos da minha vida serem reconstruídos na minha frente.

Minha mãe estava impressionada com o quanto de memórias eu guardei daquela época. Mas como seria diferente? As crianças são ótimas em guardar no coração as coisas que realmente importam, e pelo visto a Dulcelina também. Perguntei a ela “Você não tinha um colchão cor de rosa, com flores brancas no seu quarto?” e ela fez um “sim” com a cabeça, sorrindo. Aquele colchão durou muitos anos, e sempre que eu o via lembrava dela. Um dia ele ficou manchado, provavelmente de tão velho, e pensei “mas quem sujou o colchão da Dulcelina??“.

Naquele dia, tudo naquele apartamento mudou de cor e forma. Os móveis que resistiram ao tempo ficaram muito mais altos do que eu; a mesa da cozinha ficou mais fina e mais simples, o chão cobriu-se do famigerado carpete marrom que ela tanto odiava limpar. E lá no cantinho da sala eu estava com meus irmãos, brincando e vendo os desenhos da Xuxa com ela.

Eu não sei quantas vezes um momento desses pode acontecer na vida; mas acredito que sejam poucas. Por isso mesmo são tão especiais.

Depois da “festinha”, foi a minha vez de levá-la para casa. Era o mínimo que eu podia fazer depois de ter sido levado tantas vezes por ela. Mas dessa vez ao nos despedirmos, não fui nem um pouco sucinto. Fiz questão de dizer o quanto ela havia sido especial para mim e para minha família, e que gostaria muito de vê-la em breve e conhecer sua filha adolescente. Dulcelina pos a mão no meu rosto, acariciou a barba que não existia há 21 anos e disse: “Fábio… que saudade eu senti de você, meu menino… que saudade…

Eu também, Dulcelina…

Silêncio

agosto 30th, 2006 | Posted by Fábio Yabu in Crônicas - (8 Comments)

Já reparou no cheiro do vento naqueles dias em que faz sol o dia inteiro e a noite esfria de repente? É difícil descrevê-lo, eu diria que é uma mistura de grama e terra seca com orvalho da manhã, embalados em ar seco. Talvez você se lembre desse cheiro, já eu nunca vou esquecê-lo.

Naquela noite a gente resolveu ir para a varanda, como fizemos tantas outras vezes. Pra conversar, ouvir a voz do outro, dar risadas.

Ficamos sentados lá por meia hora, quarenta minutos. Mas daquela vez foi diferente. Nenhuma palavra foi dita, nenhuma comunicação verbal foi estabelecida, enquanto o silêncio preenchia toda aquela varanda e se extendia para o mundo. E não havia incômodo, não havia urgência em falar, trocar opiniões, discutir. Tudo o que nos interessava era o silêncio; a mágica que se manifesta quando você para de falar e começa a ouvir.

Ouvir o coração. Ouvir com o coração. Não é poesia, as palavras são desajeitadas mesmo, isso é o mais próximo que se consegue com elas. Por isso é tão bom calar.

Silêncio. Bolinhas pretas cobriam o galho de uma rosa num vaso, mas naquele dia eu resolvi não tirá-las. Carros e motos passavam na rua tentando nos atrapalhar, mas nada no mundo poderia interromper uma conversa tão importante. Uma luz se acendeu numa janela próxima, e pude ver alguém sentando em frente ao computador.

O cheirinho do vento me lembrava do quanto o dia havia sido quente; a brisa geladinha trouxe alívio e virou uma lembrança gostosa daquela noite estrelada. Alguém tentou sujar o vento com um cigarro fedido, mas o cheiro logo sumiu. Vez por outra nos dávamos as mãos, quietos, e a luz da janela apagou. Nem vi o moço sair.

Uma hora o esquilo resolveu sair da sua caixinha. Ele veio até meu pé, mordeu a minha meia e dei risada. Ao ver que não tinha nada interessante, ele resolveu continuar sua ronda noturna depois de ganhar dela uma semente de girassol. Ele não agradeceu, e nem poderia, mas quem disse que precisa? Os homens é que inventaram essa tal de expectativa, que frustra e magoa quem depende dela para viver. Esperto é o esquilo, que a essa hora já juntou um monte de semente de girassol no seu cantinho. Não pediu por favor e nem disse obrigado uma só vez.

Essa foi mais uma lição que aprendi naquela noite. O silêncio continuava falando, nos dizia muitas coisas importantes. Dizem que a gente tem que encontrar pessoas com quem possamos conversar; eu acho legal, mas também é ótimo encontrar gente com quem a gente possa ficar quietinho.

Andar pela rua, sentar na varanda, viajar de carro falando pouco e aprendendo muito. “Olha“. “Legal“. “Viu?” já bastam para horas e horas de discussão silenciosa e filosófica.

Uma hora resolvemos entrar. Com um beijo geladinho no canto dos lábios, ela me disse “Obrigada por existir. Eu sempre estarei aqui” e eu respondi “Eu também“. Tudo sem uma única palavra.

O futuro

agosto 28th, 2006 | Posted by Fábio Yabu in Crônicas - (13 Comments)

Quando escrevo meus textos e livros procuro não pensar muito no que vai acontecer depois que eles forem publicados; porque as possibilidades são tão vastas que é inútil tentar prevê-las. Diria até que isso atrapalha o andamento do trabalho já que, se um livro é a visão que o escritor tem do mundo, não faz o menor sentido ele ficar olhando para os lados enquanto escreve.

É claro que tem aquela partezinha dentro de mim que espera que o livro faça o mínimo de sucesso. Que ele venda o mínimo para se manter no competitivo e canibalizado mercado literário. Que, ao final de dois anos, a modesta primeira tiragem tenha sido vendida. Mas procuro manter essa expectativa baixa, e vejo que essa prática fez muito sentido após ter publicado dois livros e vinte e tantas revistas em quadrinhos. Independente do “sucesso” de cada um, tudo sempre surgiu de uma fagulha espontânea e sincera de algo que eu queria expressar. E o resto foi consequência.

Não que meus livros sejam blockbusters, o novo Harry Potter e tal. Nem quero que sejam, na verdade. Prefiro trilhar meu caminho devagarzinho no coração das crianças, sem pressa nem grandes expectativas. Aos poucos meu plano tem dado certo.

Semana passada, estive em Aguaí, interior de SP, visitando o Colégio Deltha, que adotou meus dois livros. Sabe, quando pegam um tema e a escola inteira trabalha durante meses? Fazem cartazes com purpurina, lantejoulas, trabalhos em grupo discutindo o livro e respondendo perguntas. Eu ainda me lembro de quando tinha que fazer a mesma coisa há poucos anos e de repente, pá. Lá estou eu, no meio de um pátio vendo um mural repleto de cartolinas coloridas com desenhos, frases e lições tiradas dos meus livros. Um pouco acima, uma cartolina branca escrita a “canetão”: Bem vindo, Fábio Yabu. E dezenas de crianças no pátio olhando para mim enquanto caminho com a diretora, que me contou uma história curiosa:

“Você não imagina o que os seus livros fizeram aqui. Até mãe já teve que vir aqui na escola por causas deles! É, as crianças pegaram a mania de chamar aquelas que são mais mandonas de “Tubarina”. Aí uma menina invocou e a mãe dela teve que vir perguntar porque chamavam a filha dela de Tubarina!”

Veio então o momento de conversar com as crianças, desde o pré até a sétima série. Quietinhas, atentas, competindo por um olhar e um sinal de “positivo” que eu fazia para todas. Vieram as perguntas, sempre deliciosas, às vezes surpreendentes como “Como é o mar?“. O prézinho também me premiava com pérolas como “Fabyabu, minha mãe não leu o seu livro pra mim!” e “Fabyabu, ontem eu engoli shampoo!“.

Uma menininha de 6 anos ficava correndo pelo pátio, pulando e cantando uma musiquinha inventada na hora, cuja letra era apenas “Fabyabuuuuu… Fabyabuuuu“. Outra veio, e sem dizer uma palavra, me entregou um papel, me deu um beijo e saiu correndo. “Fábio Yabu, eu não te conheço mas sei que você é legal.” Coisa mais linda.

Foi demais. Voltei para casa com dezenas de trabalhos e cartinhas, lembranças gostosas e a maravilhosa sensação de não saber o que o futuro reserva. Melhor assim, né?

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Meu segundo livro pelos olhos de crianças da quinta série: Luana, Lucas, Ana Lívia, Tuany e Anne.
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Um presente da primeira série
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Polvina

Mártir

agosto 21st, 2006 | Posted by Fábio Yabu in Crônicas - (1 Comments)

Acho engraçado esse papo de alguns diretores que adoram dar uma de mártir e dizer que “no começo ninguém acreditava que o filme seria um sucesso”. Como no primeiro Super-Homem, de 1978. Peraí, como é que ninguém acreditava num filme que foi gravado em 5 países, tinha Gene Hackman no elenco, um Marlon Brando que ganhou 3.7 milhões de dólares por 4 minutos de fita e um Richard Donner que dirigiu por um absurdo 1 milhão de dólares para a época? Eu acreditaria até num filme do Chefe-Apache assim!

A mesma coisa acontece com Piratas do Caribe. Adoram dizer, a torto e a direito que ninguém esperava que o filme fosse um sucesso. Das duas uma: ou os produtores sabem de alguma coisa que nós não sabemos, ou então eles contrataram Jonnhy Depp sem olhar o currículo dele.

Os exemplos são tantos que o discurso chega a entediar. Matrix, X-Men, De Volta para o Futuro… parece que todo blockbuster nasceu fadado ao fracaso. Por mais que eu tente acreditar, não consigo imaginar alguém dizendo: “Tudo bem, pegue esse cheque de 100 milhões de dólares e contrate o Keanu Reeves, mas lembre-se: eu não acredito em você e no seu filme de m#@#!!”

Outra coisa que me irrita são essas histórias que autores rancorosos adoram contar sobre as editoras que negaram publicar seu best seller mundial. Como J.K. Rowling, cujo Harry Potter foi negado por 7 editoras. Oras, eu diria que ela teve muita sorte em ter levado apenas 7 “nãos”. Qualquer um que escreve livros sabe como as editoras funcionam; o fato de elas negarem esse ou aquele original muitas vezes não tem nada a ver com sua qualidade, mas N outros motivos como por exemplo; a linha editorial, seu fluxo de caixa e o planejamento da editora, muitas vezes feito com meses ou anos de antecedência. Não dá pra sair publicando qualquer coisa que aparece; por mais potencial que ela tenha.

Eu realmente não lembro quantas editoras disseram “não” para o meu livro. Sei lá, umas 10, 12? A maioria nem se pronunciou. Mas se tem alguma coisa que aprendi na vida é que ninguém é obrigado a acreditar em você senão você mesmo. O resto é consequência.

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