YabloG! - Archive - Crônicas

Neverland

maio 22nd, 2006 | Posted by Fábio Yabu in Crônicas - (10 Comments)

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Quando a gente deixa de ser criança?

Após quase vinte e sete anos, ainda não sei a resposta. Veja bem, não quero descrever aqui o quanto sinto saudades da minha infância nos anos 80, do quanto ela foi maravilhosa e o quanto os desenhos eram mais legais. Porque sinceramente, isso é coisa de desocupado.

Quero falar é disso que sinto quase diariamente e que me faz sorrir. Essa sensação que tenho que de certo modo, nada disso passou. Que tanto eu quanto meus contemporâneos estamos é fazendo um belo trabalho em enganar o resto do mundo em nossa pinta de homens e mulheres adultos, mas na verdade, somos as mesmas crianças de sempre, com a diferença de que hoje temos dinheiro para comprar todos os doces que conseguirmos comer. As únicas pessoas que sabem de nosso plano são nossas mães, mas elas guardam segredo, compartilhado silenciosamente a cada abraço quando as visitamos nas casas em que costumávamos brincar.

Hoje brincamos em outros lugares, nossos carros e naves nos levam mais longe, mas continuamos querendo a mesma coisa: novas brincadeiras. Tanto que ninguém estranha (na verdade, acham o máximo) quando a gente resolve ir para a Disney.

Não é necessário sentir saudades de uma infância feliz (na verdade isso é meio deprê) quando se percebe que 20, 30 anos não significam nada quando a alma continua achando graça das coisas. Que atire a primeira pedra quem nunca pediu um McLanche Feliz depois dos 20 e comeu rapidinho, olhando hipnotizado para o brinquedo que veio de brinde. Esse mesmo brinquedo que hoje está aí, no seu quarto ou na mesa do trabalho.

Meninos são bobos. Meus amiguinhos beirando os 30 me chamam de “moleque”. Até hoje não aprendi a gostar de futebol, e acho graça quando vejo o esmero com que todos eles colam em seus álbuns as figurinhas da copa do mundo. Ao contrário dos outros meninos menores, eles podem gastar 50 reais em pacotinhos sem levar bronca de ninguém.

E as meninas, você pensa que são diferentes? Que nada. Tudo umas criancinhas. A gente vive saindo pra comer doce! DOCE! Ficamos babando no vidro, escolhendo cuidadosamente o mais colorido, mais cheiroso, mais bonito. As meninas podem crescer mais cedo que os meninos, mas não se engane, elas continuam as mesmas bobonas de sempre, sonhando em casar com um príncipe encantado! Em arrumar a casa, cozinhar, tomar chá com as amigas. Usam rosa, bolsas e carteiras de gosto duvidoso da Hello Kitty e calcinhas com carinhas engraçadas! E continuam deixando os meninos encabulados, que fingem não ligar para elas. Ah, mas nós ligamos, mesmo com as brincadeiras bobas que fazemos de vez em quando.

Um dia os meninos se declaram para as meninas, e sabe o que ela acham? “Bonitinho!”. E depois de algum embaraço, eles vão brincar juntos, descobrir coisas novas juntos, e não importa quantos meninos ou meninas passaram pela vida deles, cada novo momento é uma nova memória. Às vezes eles voltam a falar como crianças, se dão apelidos de duas sílabas. As meninas vestem os meninos com roupas dos astros da TV e os meninos, sempre tão pouco criativos, lhes dão os mesmos ursinhos de pelúcia, chocolates ou brinquinhos, previsíveis, infalíveis.

E assim os anos vão passando. Rápido e sem pressa. As descobertas nunca acabam, e eu aguardo curioso o que vem por aí. Meus amigos mais velhos dizem que pode sim, ficar mais divertido, tudo depende das novas brincadeiras que cada um consegue aprender.

Não sei se isso acontece com todos da minha idade. Se todos sentem isso em algum momento. Essa incerteza sobre o seu papel no mundo, a idéia de que ainda dá tempo de escolher o que ser quando crescer, o medo de ser deixado pelas pessoas que ama, o desejo de entender as coisas. Pra mim, tudo isso se resume numa única coisa, preciosa, quente, vital: o sentimento de que a vida adulta ainda não chegou. Eu não tenho a menor pressa.

A coisa mais bonita do mundo

março 13th, 2006 | Posted by Fábio Yabu in Crônicas - (2 Comments)

Eu queria dizer a algumas pessoas o que eu sinto em relação à elas. Mas graças a Deus eu não posso.Sabe qual eu acho que é a coisa mais bonita do mundo? Foi algo que aprendi com a minha mãe.

A coisa mais bonita do mundo pra mim é ficar quietinho num canto. Calminho, sereno, mas atento. Olhando de rabo de olho cada passo, cada movimento, ação, reação, lágrima e sorriso.

Torcendo, chorando, fazendo preces sem palavras de que tudo vai dar certo.

Porque não é preciso falar, mas sentir. Não é preciso se fazer ouvir, mas estar.

Preces sem palavras, sem deuses, que não têm pedidos, não começam com “por favor”, nem “senhor”. Começam um suspiro antes de por a cabeça no travesseiro. Continuam com os olhos fechados, nos sonhos, nos dias e noites seguintes, até o fim.

Até o fim.

A coisa mais bonita do mundo é ver quem você gosta eternamente como um álbum de fotografias, como um filme em fast-forward, indo e voltando, sem enjoar, parando nos momentos especiais, avançando até os mais difíceis e pulando aqueles que estão no meio.

É ver tudo isso escondido e mudar de canal quando alguém aparece.

Indo e voltando, indo e voltando, com novas surpresas que surgem a cada vez que o filme passa, observados com um sorrisinho discreto no rosto. Sempre de rabo de olho.

Sempre.

Não é, mamãe? :P

Juliana

dezembro 9th, 2005 | Posted by Fábio Yabu in Crônicas - (1 Comments)

Esses dias eu estava na Saraiva Megastore do Shopping Morumbi quando me vi numa dessas situações das quais até tentamos tirar uma lição, mas no fundo, a própria experiência, no momento em que ocorreu e somente nele, nos leva a patamares mais confortáveis de consciência. Como se, naquele momento, tivéssemos um pequeno lapso e pudéssemos ver uma pequena explosão acontecendo bem diante dos nossos olhos, para então sumir e nos deixar sem palavras, apenas com um sorriso. Desse sorriso tiramos conclusões, precipitadas, inúteis, que em nada se comparam à beleza daquele momento especial.

Eu olhava os livros infantis quando de repente ouço a voz de uma menina chamando pela atendente, bem ao meu lado. Não sei se ela ouviu ou não, prefiro acreditar que não, pois ela simplesmente saiu andando, e a garota ficou sem atendimento. Como eu estava ali do lado, falei “Olha, eu não trabalho aqui, mas se você quiser eu posso te ajudar!”.

Então ela perguntou: “Sobre o que é esse livro?”. Folheei, falei por alto o que era, e ela seguiu “e esse?”, “pra que serve esse?”, “e esse”?, até que vimos uns seis ou sete livros antes de sua vó vir buscá-la. As perguntas não cessaram, e lá pelo nono livro, ela pegou na minha mão e não quis largar mais, por mais que sua avó estivesse com pressa, prometendo voltar ali no Natal para comprar os livros que ela quisesse.

Após muita insistência, “deixa o moço, ele está com pressa!”, “tô não, senhora!”, respondi, “vamos embora, Juliana!”, ela finalmente largou. Me deu um gostoso abraço, um beijo no rosto e disse “tchau”.

Juliana não queria voltar ali para o Natal, apenas alguém que visse os livros com ela. Talvez a atendente não a tivesse ouvido, talvez a tivesse ignorado mesmo ou fechado os olhos para o fato daquela menina de 13 anos ser deficiente mental. Qualquer que tenha sido o seu motivo, ela me deu um a mais para sorrir naquele dia.

Poder e dever

dezembro 1st, 2005 | Posted by Fábio Yabu in Crônicas - (Comentários desativados)

Enquanto os substantivos poder e dever possuem significados completamente diferentes, quando utilizados como verbos são bastante semelhantes. Deixando um pouco a etimologia de lado, consegui ver com mais clareza a tênue linha que separa os dois nesse final de semana.A entidade que sirvo realiza todos os anos um evento beneficente para arrecadar fundos para sua manutenção. Graças a um trabalho sério realizado ao longo de mais de 40 anos e à boa vontade de milhares de pessoas, esse evento é sempre um sucesso, e teve em sua última edição a presença de mais de 3000 pessoas, cujas contribuições em dinheiro ajudarão a manter alimentadas dezenas de crianças carentes pelos meses que virão.

Toda a realização desse grande evento depende da solidariedade e do trabalho de dezenas de voluntários, abençoados sejam. Mas é claro que nem tudo são flores, a natureza humana é cheia de nuances entre alguns aspectos admiráveis, e outros nem tanto. Observar e notar o contraste entre esses eles, mesmo em agrupamentos aparentemente homogêneos, me causa uma certa estranheza.

Pois bem. Estavam lá reunidos, em prol de uma causa nobre, mais de 50 voluntários, cheios de sorrisos e boa vontade que, veja bem, não questiono em momento algum. Porém, o que me causava certo incômodo era notar que, mesmo em trabalhos realizados de forma voluntária, as pessoas têm uma tendência enorme a seguir pelos caminhos mais fáceis e cômodos, como na hora em que apenas seis pessoas trabalhavam na árdua montagem das mais de 400 mesas, deitadas ou sentadas no chão empoeirado, enquanto cerca de vinte se preocupava em circular pelos corredores colocando bexigas em cima delas conforme suas montagens terminavam. Havia também uma pessoa extremamente preocupada com a cor das bexigas que, tão logo percebia não combinarem com a cor da toalha, prontamente punha a mão na massa e a trocava pela da mesa ao lado.

Nessa hora me perguntei qual era a diferença entre poder e dever, e percebi como as pessoas se acomodam quando se propõem a fazer o que “podem”. Ao final do evento, a cena se repetiu, quando uma minoria suava a camisa carregando e empilhando as exatas 4000 cadeiras, e um número muito maior se preocupava em recolher e estourar bexigas. Quando as bexigas acabaram, sobrou para seis gatos pingados que seguiram madrugada adentro recolhendo borracha colorida do chão enquanto os “estouradores” trataram de ir embora rapidamente tão logo seu “trabalho” terminou.

Não é preciso ir longe para buscar outros exemplos. Tão pouco precisamos nos esforçar muito para lembrar de tantos sábios, escritores, filósofos, budas e jesuses que insistentemente nos falaram sobre como é importante aproveitar ao máximo o potencial que nos é emprestado em sua plenitude. Sobre a clara diferença entre o poder e o dever. Se estiver difícil, tem ainda a máxima de nossas mães: “se é pra fazer alguma coisa, faça direito”.

Vontades

outubro 14th, 2005 | Posted by Fábio Yabu in Crônicas - (Comentários desativados)

Às vezes eu simplesmente tenho vontade de escrever. Pode ser no meio da rua, do almoço ou da noite. Começo a “receber” idéias, palavras e frases praticamente inteiras, que só precisam de um pedaço de papel ou editor de texto (nesse caso, o sempre eficiente e jamais substituído Wordpad) para serem organizados.Às vezes tenho vontade de organizar as coisas. Dar uma geral na casa, começar o trabalho pela manhã e só terminar no final do dia, começando pelo chão, dando uma pausa no quarto do computador, onde tem um gaveteiro que sempre tem algo pra se jogar fora, voltando para o chão, vassoura, aspirador, aquele produto cheiroso cor de rosa e cancerígeno, então a cozinha e finalmente chega a vez do banheiro, onde já emendo com um merecido banho. Depois que está tudo limpinho, a noite já começa a pedir licença, sento no sofá e vejo um DVD, leio um pouco ou mudo de canais repetidamente.

Às vezes tenho vontade de fazer nada. Pode ser fazer nada caminhando, dormindo, olhando as plantinhas na minha varanda ou indo até a padaria. Olho os doces, os bolos, os salgados e acho tudo muito bonito. Mas na real, nem tenho vontade de comer nada. Só acho bonito. Acabo me contentando com um pão de queijo e um café, que o Paulinho já preparou antes mesmo de me dar o “bom dia, meu patrão!”.

Às vezes eu queria ser Deus. Mudar tudo, não ser tão limitado. Pelas leis da física, mesmo. Sabe, sair correndo, dar um pulo ou um espirro e ir parar lá longe, no tempo e no espaço. Tornar 21 graus a temperatura obrigatória de todas as manhãs. Embutir o planejamento familiar no código genético. Mandar os publicitários para o purgatório. Substituir todos os verbos no imperativo por apenas um: seja. Dar pra todo mundo aquele 1% que falta para qualquer um ser pleno. Queria mudar tudo. Mudar um universo por um sorriso.

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