YabloG! - Archive - Crônicas

Conversa

março 28th, 2005 | Posted by Fábio Yabu in Crônicas - (2 Comments)

Eu queria falar com você há tanto tempo…

Bom dia! Oi! O que você acha? Olha… Boa noite… até amanhã.

Tanta coisa que eu te disse sem você estar lá. Coisas importantes, bobagens, piadas, fofocas. Não precisava ter falado, mas eu falei e de alguma forma eu achava que você iria escutar.

De alguma forma eu acreditava, como eu antes acreditava que a capa do Super-Homem era um tapete mágico, que a gente vivia no centro do planeta, que o mundo tinha no máximo 20 anos e que inglês era português ao contrário.

Depois de tanto tempo, de tanta coisa dita e não dita, acabei gastando as palavras. O assunto não acabou, mas as palavras sim. Contraditório para um escritor, não?

O fato é que eu ainda tenho tanta coisa pra te dizer. Sobre os meus pais, meus irmãos, a minha vida. As pessoas com quem conectei, as vezes que sorri, que chorei, que toquei almas que hoje não estão mais aqui. Eu queria te falar sobre o amor e tudo que descobri sobre ele. O quanto Shakespeare arruinou meus dias com suas idéias desiludidas, e no quanto eu teimei e ainda teimo em acreditar nesses dois últimos.

Queria te contar tudo o que fiz numa vez que resolvi andar em linha reta e só fui parar 10 quilômetros depois. Da vez que fechei meus olhos e vi uma enorme luz branca me envolvendo, do barato natural que deu em mim quando sentei em flor de lótus e tentei ver o amor.

Das pazes que fiz, das desculpas que pedi, e da meia dúzia de gatos-pingados que ainda não me convenceram. Das músicas da Lisa Loeb que ouvia em loop, dos filmes que eu deixava tocando no DVD enquanto eu trabalhava, só pra poder ouvir os diálogos, over and over again.

Queria comentar com você sobre os filmes que vi. Sobre os que quero fazer e sobre os papéis de desisti de representar.

Também te dizer o quanto você é importante para mim, mesmo que eu tenha deixado de acreditar em você.

Mas eu vou continuar te procurando.

Quando eu achar, vamos ter muito o que conversar.

… foi acordar às 5:30 da manhã. Estava meio sonolento, mas não o bastante para continuar na cama. Olhei pra fora, ainda estava escuro e o sol começava a pintar de amarelo os espaços entre as nuvens.

Não perdi tempo, escovei os dentes, tomei um copão dágua (faz bem, apesar de não descer direito logo cedo), pus uma blusa e corri pra rua.

A cor das nuvens já estava mudando, indo prum vermelho amarelado. O céu era uma mistura de preto com roxo. O legal também era reparar como essa luz fraquinha reagia com as cores do ambiente. O vermelho era mais brilhante, o azul e o lilás pareciam acender. Eu já estava a três quadras de casa quando começou a acontecer.

O nascer do sol.

Cara, eu adoro ver o sol nascer. Sempre que posso gosto de olhar. Uma vez vi do avião. Era lindo ver ele nascendo por cima das nuvens. Numa hora, estava tudo claro à minha frente, mas era só olhar para trás e ainda era noite.

Todo mundo deveria parar pra ver o nascer do sol de vez em quando. Não é a mesma coisa que o pôr. Não tem barulho, não tem carro, é friozinho (pelo menos em SP), o ar é diferente, a luz é diferente, o som é diferente. É mágico.

Depois que o sol nasceu ainda caminhei por quase duas horas. Fui até a Praça Vinícius de Morais, um lugar cheio de verde aqui pertinho de casa. Dei altas voltas, pensando na vida, pensando em nada, cantando Lisa Loeb, pensando na vida, pensando em nada. Parei na padaria pra tomar um suco, e às 8:30 da manhã, meu dia começou.

Crássicos: Eu contra a felicidade

fevereiro 28th, 2005 | Posted by Fábio Yabu in Crônicas - (Comentários desativados)

Ah, essa vida de supervilão…

Já fiz muitas coisas terríveis. Não paguei a taxa do lixo, acabei com os fanzines, com os Superamigos, com o Natal, os sonhos e a Wanessa Camargo. Só não acabei com o Felipe Dylon porque.. bem, eu gosto daquela música “ôoo menina deixa disso…”

A minha próxima grande maldade é acabar com aquilo que a humanidade e os poetas mais querem: a felicidade.

Não quero que ninguém seja feliz. Nem você, nem eu, nem minha mãe, nem ninguém.

No novo mundo, construído à minha imagem, controle e semelhança, todo mundo vai ser japonês, careca, feinho e ninguém vai ser feliz.

A partir de agora, estou substituindo a felicidade pela plenitude.

Enquanto você fica aí, amarradinho, suspenso em cima de um enorme caldeirão incandescente que vai acabar com a sua felicidade, eu vou explicar qual é a diferença entre ser feliz e ser pleno. Pra começar, um segredo:

Essa história de ser feliz para sempre não existe. Ninguém é feliz para sempre ou mesmo por muito tempo. Nem mesmo as crianças. Do contrário, não nos preocuparíamos tanto em fazê-las felizes o tempo todo.

Pois a felicidade é uma coisa passageira, extasiante, gostosa, mas por definição, temporária. É algo que você até consegue se quiser, se buscar. Depois você acaba perdendo-a, e tendo que buscar em outro lugar.

Já a plenitude é diferente. Ela é permanente, serena, é um estado de graça que, por mais que você busque, você nunca alcança. Mas se ao invés disso, você deixar que ele venha até você, ah, pode crer que ele vem.

Tirar férias é ser feliz. Trabalhar com o que você gosta é ser pleno.

Assistir a um bom filme é ser feliz. Assistir ao nascer do sol é ser pleno.

Ler a um bom livro é ser feliz. Viver uma bela história é ser pleno.

Acabar com os Superamigos é ser feliz. Ficar o dia inteiro sentado no alto de uma montanha, tomando uma taça de vinho vendo o Aquaman ser chicoteado é ser pleno.

Ser pleno é ter todas as coisas que Mastercard não pode comprar.

Então, eu, no direito de supervilão e líder da Legião do Mal, revogo permanentemente a felicidade humana. A partir de hoje, todo mundo vai ser pleno. E tenho dito.

Agora, se me dão licença, tenho um homem-peixe para chicotear, ao som de “ôoo menina deixa disso…”.

Escola

janeiro 15th, 2005 | Posted by Fábio Yabu in Crônicas - (Comentários desativados)

Eu confesso. Nove anos depois de concluir o colegial, eu admito publicamente: eu sempre fui um péssimo aluno.

Mesmo que na primeira série tenha sido o aluno do ano. Mesmo que na segunda eu não tenha tirado uma única nota que não fosse “A” em todas as provas, de todos os bimestres. Mesmo que eu tenha ganhado inúmeros concursos de desenho e redação, esse monte de baboseira que ensina a competir ao invés de cooperar. Mesmo que eu tenha ganhado bolsas de estudo por meu desempenho em inglês. Mesmo que eu tenha passado em primeiro lugar num “vestibulinho”, mesmo que eu tenha dormido numa das cinco provas de vestibular que prestei e passado em todas. Minhas notas nunca eram diferentes de A a B ou 8 a 10. A primeira nota vermelha veio por pura farra no segundo colegial. Apenas para saber como era. Quando eu vi que não doía, mandei ver e meu boletim começou a gangrenar. Mas era só eu mexer um dedinho e pimba, literalmente tudo ficava azul e eu passava de ano direto, pronto para fazer tudo de novo no ano seguinte…

Eu sempre ia bem em tudo e sempre fui um péssimo aluno (na minha concepção, é claro, os professores me adoravam) porque a escola nunca foi um desafio para mim. Sempre levei a escola com a barriga, mesmo que ela só tenha aparecido aos 19 anos. Abria o caderno meia hora antes da prova e já bastava para tirar um 8, 9. Dez talvez, mas daí teria que ser duas ou três horas antes. Tinha dia que eu nem levava caderno pra aula. Pra quê, gastar papel? Eu já sabia as regras do jogo, a escola queria de mim um 10 e eu seria deixado em paz, para desenhar, ouvir música no walkman, ler gibis, conversar e jogar tarot no recreio. Eu dava pra ela o 10 que ela queria, eu eu tinha todas as mordomias que os “bons” alunos tinham. Eu era praticamente um deputado, um marajá, mamando nas tetas do governo e da diretora (que nojo!).

Por isso que eu acho que a escola não deu certo para mim. Acho que Escola não tem que ser massante, repressora, controladora, negociadora. Tem que desafiar, conquistar, mostrar caminhos ao invés de dogmas. Não tem que ensinar a ser “competitivo”, nem “preparar para o mundo de hoje”. Deus me livre colocar o meu filho numa escola que prepara ele pra um mundinho que nem esse. Eu quero que ele seja “cooperativo” e “mude a zona que está lá fora, urgente, antes que eu me mude para Birigui”.

Os melhores professores que eu já tive na vida eram aqueles que saíam de trás da mesa e sentavam junto com os alunos. No mesmo nível, de igual para igual, como todo ser humano deveria ser. Pena que tive poucos.

Eu tive um professor na faculdade que dava nota 10 para todo mundo da sala e presença em todas as aulas. O que ele pedia em troca? Que quem não estivesse a fim da aula se levantasse e saísse. Essa é uma das atitudes mais sensatas que já vi em um professor, num mestre. Porque é claro, quem ia para a faculdade para fumar, beber e zonear, levantava na hora. Só ficava quem realmente queria aprender, eu incluso, com mais quatro ou cinco pessoas… de 30.

Quer mais uma prova de que eu sempre fui um péssimo aluno? Minhas professoras sempre disseram que eu era bom em redação. Só não percebiam que eu dava uma maqueada no final, que eu sempre colocava uma gracinha ou algo besta só pra não perceberem que eu não sabia como terminar o texto. Eu as chantageava com uma gracinha. Trocava, na cara dura, um 10 por uma risadinha.

E continuo fazendo isso, até hoje.

Viu?

Bom, já perdi as contas de quantas maldades já fiz desde que virei supervilão. Já acabei com os Superamigos, as Meninas Superpoderosas e agora adiciono mais um objetivo à minha listinha de atrocidades: vou capturar o Pikachu.

Para isso, me alistei à Equipe Rocket, e, como meus colegas Jesse e James, vou denunciar os grandes males da “verdade” e do amor.

Para começar, “verdade” deveria sempre ser escrita entre aspas. Não existe “verdade”, muito menos absoluta. Quem disser que está dizendo uma “verdade” incontestável, certamente está mentindo, mesmo que muitas vezes não saiba disso.

Antigamente, a verdade era que a Terra era plana. Que, se você navegasse num navio em linha reta por muito tempo, cairia num abismo cedo ou tarde. E era incontestável, porque afinal, fazia sentido. E o mundo era um lugar mais seguro. Foi só descobrirem que a Terra era redonda que deu no que deu.

Newton achava que o tempo era uma linha reta, que corria em paralelo com o espaço. E comprovou por A+B, e funcionou. Virou uma verdade. Foi só chegar o Einstein e pronto, o espaço-tempo virou uma coisa só, curva. A prova? Mais cálculos. E mais verdades. Ele por sua vez achava que “Deus não joga dados com o Universo”. E não é que o Stephen Hawking comprovou que ele joga?

Aliás, sobre Deus dizem muitas outras verdades metafísicas. Cada povo tem a sua, basta escolher, pôr na sacola e levar. Alguém está errado? Acho que não. Até os ateus tem sua dose de verdades.

A verdade são apenas palavras sem valor que lhe são ditas. A única maneira de experimentar a verdade, ou pelo menos chegar razoavelmente perto dela, é descobrindo-a por si só, sem palavras. Do contrário, alguém pode (e vai) desmentí-la, cedo ou tarde.

Você não encontra Deus numa igreja, numa bíblia. Encontra indícios dele, pistas soltas, às vezes sem valor. Mas procure dentro de si. Experimente a verdade por si mesmo e você verá o quanto as palavras são inúteis e desajeitadas.

O zen, por exemplo. Ninguém pode explicar o que é o zen, o que é meditação. Já está dentro de você. Tudo o que for dito serão mentiras, porque o zen é o nada mais puro e mais pessoal que uma pessoa pode experimentar.

Escola? Valha-me Deus, ninguém ensina nada em escolas, principalmente aqueles professores demasiadamente presos em “verdades”, provas, chamada oral. Uma prova não prova nada, apenas que você estudou feito um louco no dia anterior e acertou um punhado de questões sobre a tabela periódica numa folha de papel. Agora me diga, qual é a divisão nuclear do carbono? O que fez José Bonifácio, mesmo? Que eu saiba era o nome do meu vizinho em Santos… verdade, ou não?

Nem o nascer do Sol escapa. Eu poderia dizer um monte de coisas sobre o nascer do Sol, que tanto gosto de olhar. Que as nuvens ficam roxas depois vermelhas, que as cores à minha volta ficam mais vibrantes, que o ar é geladinho mas vai esquentando devagar, que ao lado de quem você ama tudo fica mais colorido e o sol brilha ainda mais. Bonito? Talvez. Verdade? De jeito nenhum. Tenho certeza de que se você ver o Sol nascer, dependendo do dia, da hora, do humor, terá uma leitura totalmente diferente e, digamos, verdadeira.

Briga de namorado. “Ah, você sempre acha que está certo(a)!” e vice-versa. Um lado acha que o outro acha que é dono da verdade, quando os dois têm sua porção de culpa, de verdade, de mentiras. Engraçado que quando as pessoas percebem isso os relacionamentos ficam ou melhores ou piores. Deve ser a tal da verdade, que faz com que a pessoa pare de imaginar ou julgar o que a outra está pensando.

E o dinheiro? É uma das maiores mentiras já criadas pelo homem. Quer ver? Tire mil reais da poupança e deixe na gaveta. Daqui a 5 anos, quanto você vai ter lá dentro? Mil reais, certo? Errado! Alguém inventou uma “verdade” chamada juros, que “come” seu dinheiro, por mais que as notas tenham ficado guardadas bonitinhas dentro da gaveta. Intactas.

Juros, tempo (ou a falta dele), pressa, stress, mentiras, poesia, religião… tudo são pequenas “verdades” criadas pelo homem. Até o amor, que sempre foi avacalhado pelos poetas, românticos e pela Legião Urbana.

Não que o amor não exista. Aliás, eu acho que sou um dos poucos entusiastas a respeito dele. E se você também é, há de convir que o amor verdadeiro não precisa e nem exige palavras, poesias, provas. É como o amor de mãe. Minha mãe nunca me escreveu uma carta de amor, e confesso que seria meio estranho se ela o fizesse. E não há palavra que expresse o sentimento sagrado que nos une. Talvez “porescapricitosetildatitimentesca”, mas essa não vale porque eu acabei de inventar.

Mais um motivo para tomar cuidado com as palavras, tão traiçoeiras. Dizer e ouvir que se ama alguém é deveras perigoso. É muito mais seguro e sensato não se preocupar muito com elas e sim com a ação.

Então, quando o assunto for verdade ou amor, fique sempre com um pé atrás. No caso desse texto, com os dois. Não acredite em verdades, em extremos, em convenções, em estatísticas, tabelinhas, infográficos, nada disso. É melhor ficar quieto e descobrir essas coisas, tão importantes, por si só. Olhando, procurando, sentindo, respirando, vivendo.

Enquanto isso, vou atrás do Pikachu.

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