YabloG! - Archive - Resenhas

Terra dos Mortos

julho 27th, 2005 | Posted by Fábio Yabu in Resenhas - (Comentários desativados)

George A. Romero é o que se pode chamar de uma lenda viva. Há trinta e sete anos ele por si só inaugurou um novo gênero cinematográfico, um novo tipo de filme: o de mortos vivos. Zumbis, famintos por cérebros, seus vizinhos, amigos e parentes, transformados por mordidas malditas que perpetuam o canibalismo, a carnificina, o show da morte.Ter introduzido esses conceitos no longínquo ano de 1968 já é um feito digno de um mestre. Agora, retomar o gênero e se mostrar em plena forma aos 65 anos é algo cuja nomenclatura remete a uma figura no mínimo, lendária. Ave, Romero!

Romero faz, Romero mostra. Terra dos Mortos tem tudo o que seus velhos filmes cansaram de ensinar a várias gerações de cineastas, mas feito com o estilo que só o mestre poderia fazer. Em seu novo filme, os zumbis praticamente dominaram o mundo. Os poucos sobreviventes vivem escondidos em fortalezas, onde o pior da raça humana se revela ainda mais podre do que os zumbis que queimam em suas cercas elétricas.

Vivendo em ostentação e luxúria, os ricos exploram os pobres, criam leis e oligarquias, erguem muros e grades para proteger a si e a seu dinheiro. Porém, quando o primeiro zumbi consegue entrar na cidade, não há mais distinção entre classes sociais. Todos viram carne fresca para a legião de mortos-vivos que vem cambaleando logo atrás.

Durante praticamente todo o filme Romero nos questiona e instiga, entre um braço arrancado e outro: de que lado nós estamos? E será que ele é tão diferente assim do outro?

Imperdível!

Em boa companhia

julho 20th, 2005 | Posted by Fábio Yabu in Resenhas - (Comentários desativados)

Quando você pega um filme, um livro ou algo que o valha, deve ajustar o seu nível de percepção da realidade para o que é proposto pela obra. Do contrário, só assistiríamos a documentários. Ajustada a sua percepção, torna-se possível assistir a qualquer tipo de obra, crível ou não, desde musicais a comédias românticas. Essa é uma das coisas mais legais do processo criativo, convencer a audiência de uma mentirinha e assim fazê-la rir ou chorar.O problema é quando uma obra oscila demais entre o real e a fantasia, não se define e se perde em seu propósito sem justificativa aparente. Um ótimo exemplo é “Em boa companhia”, uma comédia quase-romântica com Dennis Quaid, Topher Grace (o Eric de That 70′s Show) e a gracinha da Scarlett Johansson.

O filme se perde. Ele tenta explicar de forma simples (quase banal) o dia a dia das empresas que são compradas e vendidas pelos grandes conglomerados de mídia que estão dominando o mundo. Começa legal, tem cenas interessantes mas quando parece que o negócio vai melhorar… derrapa vergonhosamente, utilizando recursos primários como os protagonistas andando por NY conversando enquanto uma música romântica impede que a audiência ouça o que eles estão dizendo. Saída simples para roteiristas que não conseguem ou não querem escrever diálogos inteligentes.

Scarlett Johansson está meio perdida, na verdade sua personagem Alex tem uma participação muito pequena na trama, quase um enfeite chique (e com lábios maravilhosos). Todo o lance gira mais em torno de Topher Grace (ótimo por sinal) e Dennis Quaid, as discussões sobre jovem versus velho, on versus offline, família versus trabalho… discussões que poderia ter algum conteúdo inteligente, mas são fracas, insípidas e não trazem nada de novo para alguém minimamente esclarecido.

O inevitável final feliz é irritantemente previsível.

O filme tem lá seus méritos também. Nele podemos ver Topher Grace crescer como ator, a edição tem seus momentos interessantes e Scarlett Johansson na tela nunca é demais. Acho que é crueldade dizer que “Em boa companhia” é um filme “Sessão da Tarde”, mas eu o enquadraria facilmente naquela categoria de filmes para se ver num sábado à noite ao lado de quem você… hã, talvez nem goste tanto assim.

Minha teoria (furadíssima) sobre LOST

julho 17th, 2005 | Posted by Fábio Yabu in Resenhas - (Comentários desativados)

Após analisar (prematuramente, afinal estamos ainda na primeira temporada) Lost, comecei a traçar alguns paralelos e gostaria de postar aqui algumas conclusões que acho cabíveis e resolvem, pelo menos em parte, o mistério da ilha.É lógico que isso se trata apenas de uma teoria, como tantas outras que devem pipocar Internet afora. Como tudo na vida, principalmente séries de TV e esse que vos fala, peço que não levem muito a sério. Se você perdeu algum episódio até o vigésimo (Do no Harm), tome cuidado que o texto a seguir é repleto de spoilers. Todas as conclusões foram tiradas dos fatos apresentados até então, já que estou acompanhando a série apenas pelo AXN e não baixando pela Internet (não parece, mas tenho mais o que fazer).

Preparados? Vamos lá.

A primeira premissa que essa teoria adota é que os roteiristas adoram confundir a cabeça do público e vir com algumas soluções meio mirabolantes, sem pé nem cabeça às vezes. Apesar disso, até agora não vi nada muito viajante como o final de Felicity, também criada por JJ Abrams (pra quem não lembra, ela volta no tempo no último episódio(???).

Um exemplo de como a série traz elementos que propositadamente confundem a audiência é o episódio que mostra o casamento de Jack. No começo, alguns até pensaram que ele fosse gay. No meio, todos achavam que ele largaria a noiva em pleno altar, só para depois percebermos que era tudo armação dos roteiristas e soltarmos um “aaaahhh”, aliviado.

A segunda premissa é a de que Lost é uma série que tem um pé firmado fortemente na realidade e outro nem tanto, mas ainda assim, seguindo uma lógica muito bem estruturada.

A terceira é de que a série se trata dos personagens e NÃO da ilha. Afinal, cada episódio é dedicado quase que inteiramente a um personagem específico. O passado de cada um, as circunstâncias que levaram a pegar aquele maldito vôo, o seu comportamento e busca pessoal. Acredito que essa seja a chave para desvendarmos grande parte do mistério de Lost.

Tendo essas três premissas em mente, podemos então formular as bases da teoria.

A meu ver, sim, a ilha tem um poder misterioso. Especificamente, ela realiza desejos. É a única explicação lógica para que Locke tenha voltado a andar após a queda do avião.

Ainda falando do extraordinário, é bem óbvio que Locke também tem algum tipo de poder. Ele no mínimo tem o dom da clarividência. Assim como Walt, ele percebeu o poder da ilha. Por isso ele previu a morte de Boone e guiou os outros personagens em suas buscas pessoais.

Walt também tem um poder. Ele simplesmente atrai animais com o pensamento. Como? Não sei. Eles aparecem do nada? Acho que não. Em algum lugar eles estavam. Como diz Yann Martel em A vida de Pi: “Se pegassem a cidade de Tóquio e a virassem de cabeça para baixo, iam se espantar com todos os animais que cairiam: texugos, lobos, jibóias, varanos, crocodilos, avestruzes, babuínos, capivaras, javalis, leopardos, manatis, ruminantes em números incontáveis. Não há a menor dúvida de que girafas e hipopótamos selvagens vivam em Tóquio há séculos sem terem sido vistos por uma única alma”. No mesmo livro, conta que “é segredo guardado a sete chaves entre diretores de zoológicos a fuga, em 1971, do urso polar Bara do Zoológico de Calcutá. Jamais voltamos a ter notícias dele (…). Desconfiamos que esteja vivendo livremente às margens do rio Hugli.”

Portanto, por algum motivo obscuro, Walt atrai animais. Talvez ao mentalizá-los ele consiga criar algum tipo de conexão mental, já que em sua casa na Austrália ele atraiu um pássaro e na ilha o urso apareceu após ele ler uma revista do Lanterna Verde onde havia um urso polar. Lembre-se também de que ele sempre consegue encontrar o cachorro na ilha. Tirando seu poder misterioso e o fato de ter um gosto duvidoso para gibis, Walt parece ser um menino legal.

Até então, esses são os únicos elementos realmente extraordinários da série. O resto me parece bem evidentemente lógico e real. No episódio em que Sawyer é perseguido pelo javali, Locke sugere que o animal seria a reencarnação do homem que Sawyer matou na Austrália. Eu acho pouco provável, já que o fato ocorrera antes da viagem e estamos falando de um javali adulto. Ao que parece, a voz na cabeça de Sawyer era nada mais que sua mente lhe culpando pelo crime ou alguma ensolação, já que o loirão fica quase o tempo todo lendo no sol.

Sem esmiuçar muito o riquíssimo histórico de cada personagem, lembremos que Lost trata deles e não da ilha. Aparentemente eles possuem ligações em seus passados que podem ser explicadas (ou costuradas) com o poder da ilha de realizar desejos. É evidente a ligação de Hurley com Russeau, a maldita sequência de números. Ele também parece ser ligado a Locke, já que ao que parece ele era dono da fábrica de caixas onde este último trabalhava. Será que foram os números que levaram os três à ilha?

Será que foi o javali que atraiu Sawyer? Será que foi o vidente que enviou Claire para ter seu bebê na ilha? Será que foi Walt quem derrubou o avião? Como diabos eles estão vivos?

A resposta é simples: lá atrás, em algum momento da vida de cada um dos personagens, eles DESEJARAM a ilha e esta por sua vez os atraiu. Derrubou o avião e fez com que eles sobrevivessem. Hurley não queria encontrar a origem dos números? Encontrou. Mas o que isso tem a ver com os outros passageiros? Nada! Cada um está na ilha por um motivo diferente, para o qual ela própria é a resposta. Assim como Walt, que queria parar de mudar constantemente. Sayid, que queria viver em paz consigo mesmo. Boone, que queria que Shannon ficasse a salvo de seus relacionamentos doentios. Katie, que não queria ser presa. Jin (também conhecido como “hot korean guy”) queria fugir do pai de Sun e esta por sua vez queria se separar do marido. Charlie queria se livrar do vício, e assim por diante. Todos conseguiram o que queriam.

Essa teoria parece responder a várias perguntas. Muitas outras permanecem sem resposta, para os quais apenas tenho palpites como:

  • O que é o tal monstro?

Ao que parece, não há monstro, como Russeau mesma disse, e olha que ela mora lá há 16 anos. Talvez seja sim, uma girafa nervosa, como Hurley disse. Talvez algum animal atraído por Walt. Mas eu duvido que venhamos a ver um Mapiguari ou um tiranossauro na próxima temporada.

  • Mas então, quem comeu o piloto???

Ih, ó o cara…

  • E aquela máquina que Locke encontrou?

Não faço a menor idéia.

  • Se a ilha realiza desejos, por que Jack não conseguiu salvar Boone?

A ilha realiza desejos, mas vamos com calma, né? Experimenta chegar daquele jeito num médico pra você ver o que acontece!

  • Por que o vidente disse que o bebê da Claire é especial?

Já foi num vidente? Eu já, e te garanto: eles falam isso pra todo mundo!!

  • Por que diabos eles nunca foram encontrados?

Aparentemente eles estão num lugar onde as ondas eletromagnéticas se confundem. O norte aponta para o lado errado. Há um avião preso nas árvores encontrado por Locke e Boone, talvez porque seus instrumentos de navegação tenham falhado. Acho realmente difícil um lugar assim ser encontrado por alguém.

  • Por que Russeau é tão… esquisita?

Pra alguém que perdeu a família e passou 16 anos sozinha numa ilha ela me parece muito bem! O que ela tem a perder ou a ganhar agora? Eu faria exatamente o mesmo e não faria a menor questão de contato humano.

  • Agora… a pergunta que não quer calar: como os cabelos deles permanecem tão bem cuidados após um mês na ilha?

Só te respondo se você me disser como a Kate se depila e como Shannon faz a sobrancelha!

Bom, como podem ver, minha teoria oferece respostas mas também tem seus furos, seus “veja bem”. Mas disso a série ja está cheia o bastante. Se estou ao menos próximo da verdade ou então perdi preciosas horas da minha vida digitando esse texto, só o tempo vai dizer!

A grande conclusão (ou viajada na maionese) a que cheguei é que Lost é um paralelo assustador com o mundo real. É a velha história de que cada um escolhe seu destino, o mundo em que quer viver. Seja apostando na loteria, seja tentando se livrar do vício ou procurando a paz interior, temos que estar preparados para o que vamos encontrar, se é que não vamos ser encontrados primeiro.

No coração do mar

abril 25th, 2005 | Posted by Fábio Yabu in Resenhas - (Comentários desativados)

Depois das 117 páginas iniciais, que mais pareciam uma provação digna de um náufrago de tão chatas, devorei as 244 páginas seguintes de “No Coração do Mar” em menos de uma semana.

Livrão, ó!

Pra quem não sabe, o livro traz o relato verídico sobre o naufrágio do navio baleeiro Essex em 1820. A tripulação se dividiu em 3 botes, e por três meses foi exposta a sacrifícios e provações inimagináveis.

O que mais me marcou no livro foi o devastador relato do autor sobre a sede e seus efeitos sobre o corpo. Segundo os náufragos, nada, nem a fome, nem o medo de estarem perdidos no meio do oceano ou as terríveis tempestades que eles enfrentaram se comparavam com a dor da sede e da desidratação que seus corpos passaram. Os lábios murcham e se tornam apenas pele solta, a língua seca, incha e gruda no céu da boca, tornando a fala e a respiração quase impossíveis. A pele fica cinza e cheia de rachaduras, enquanto os órgãos internos vão murchando e encolhendo de tamanho até levar à morte do sujeito.

Afe!! Nunca mais vou olhar para um copo d’água do mesmo jeito.

O livro também traz uma verdadeira aula sobre geografia, história, navegação e, principalmente, disciplina. O desastre só pôde ser contado pelos seus sobreviventes devido à sua extraordinária determinação em sobreviver, que os obrigou a consumir diariamente durante três meses apenas uma bolacha de 80 calorias e um gole d’água de 300ml (equivalentes a uma maçã e uma latinha de refrigerante). Mas as provações perseguiram, o que os obrigou a incluir no cardápio os cadávares dos amigos mortos pela fome e desidratação.

Quem tiver interesse (e estômago, principalmente, o livro é superpesado) pode achar o livro no Submarino.

Outra história de náufragos: Alexander Holmes

abril 23rd, 2005 | Posted by Fábio Yabu in Resenhas - (Comentários desativados)

Em março de 1841, o navio americano William Brown partiu de Liverpool em direção à Philadelphia, nos EUA. Trinta e cinco dias após sua partida, o navio contendo 17 tripulantes e 65 passageiros, bateu num iceberg e, menos de uma hora e meia depois, já havia afundado completamente levando mais de 30 passageiros consigo.

Os sobreviventes se dividiram em duas embarcações: um barco à vela, e um bote salva-vidas, com 33 passageiros, sob o comando do capitão Alexander Holmes.

O barco do capitão Holmes havia sido projetado para no máximo 15 pessoas, e continha alimentos e água já escassos para esse número. Nenhum sinal de SOS havia sido enviado, e, devido ao peso de seus 34 passageiros, o barco enchia d’água rapidamente. Para piorar, o tempo também estava muito ruim, anunciando a chegada de uma tempestade.

Então, o capitão Holmes tomou uma difícil decisão: jogar ao mar aqueles que estavam feridos ou incapacitados de remar. Eventuais motins vieram a ser controlados sob a mira de um revólver, e imediatamente os escolhidos começaram a ser jogados para fora do barco.

Entre eles estavam duas mulheres (uma ferida e uma de idade) um casal, cujo filho pequeno foi salvo, e um senhor que havia ingerido uma grande quantidade de óleo na explosão. Todos foram “entregues nas mãos de Deus”, e deixados para trás com nada além de um colete salva-vidas.

O barco enfim pôde atravessar a tempestade, e seguir a longa viagem prevista pelo capitão Holmes, equivalente a mais de 1000km em mar aberto até a África.

Porém, no dia seguinte após o abandono dos passageiros, o barco foi avistado por um navio e logo em seguida resgatado.

O capitão Holmes foi julgado e condenado culpado pelas mortes dos 14 passageiros jogados ao mar, ainda que sua decisão tivesse salvado a vida de todos os outros. Mesmo com os apelos populares pelo perdão presidencial, sua pena (extremamente benevolente dadas as circunstâncias) foi de 6 meses de prisão além de uma multa, que veio a ser cancelada em seguida.

Essa é uma história verídica. Há um filme muito bom de 1957 passando no Cinemax, não sei como ficou o nome em português mas o original se chama “Abandon Ship!” (Abandonar o navio). Parece que houve uma refilmagem em 1975 com Martin Sheen, mas não descobri muitas informações sobre ela.

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