YabloG! - Blog do escritor Fábio Yabu

Já faz algum tempo que estou falando do meu novo livro, “A Última Princesa“, trabalho que desenvolvi com muito carinho nos últimos dois anos.

É um livro muito especial para mim, pois é um cheio de “primeiras vezes”: é meu primeiro livro para o público jovem/adulto, meu primeiro livro na Galera Record (sem desmerecer, de forma alguma, a Panda Books, a quem serei eternamente grato) e meu primeiro livro com dedicatória. Pra quem? É claro que não vou contar aqui!

Acho que você já deve ter percebido, mas é bom esclarecer: apesar do título, o livro não tem relação com as Princesas do Mar. A princesa do título é inspirada em ninguém menos que a última princesa do Brasil, Isabel, que libertou os escravos. Mal posso esperar para compartilhar com as pessoas tudo o que aprendi sobre essa figura tão icônica e ao mesmo tempo, tão pouco conhecida em nossa história.

Dia 23 de março, nas livrarias!


Ilustração © Michel Borges.

Brasileiro não gosta de ler?

Durante a minha vida inteira, ouvi que brasileiro não gosta de ler. Mas por algum motivo, ao menos no microcosmo em que vivi a infância e a adolescência – com pai e mãe professores – aquilo não parecia verdade. Por isso, sempre encarei a afirmação com certa cautela, como uma criança que vê um Papai Noel magrelo distribuindo pirulitos em frente a uma loja de móveis no verão.

De tanto gostar de livros, em 2004 lancei o meu. Aquilo foi tão bom que em 2006 lancei o segundo, depois não parei mais. E mesmo não sendo nenhum best-seller, ano após ano vi meus lançamentos receberem mais gente e mais abraços, em livrarias cada vez mais lotadas. Se brasileiro não gosta de ler, o que toda essa galera estava fazendo lá?

Hoje, às vésperas de lançar meu 13º livro, acho que entendo um pouco melhor as complicadas estatísticas do mercado editorial brasileiro. Um mar de achismos e nenhuma auditoria que, segundo a FIPE, cresceu 150% na última década. Será mesmo que brasileiro não gosta de ler? Ou será que o velho mantra é a justificativa dos empedernidos para a própria iletralidade?

De acordo com o Insituto Pró-Livro, o Brasil tem cerca de 77 milhões de pessoas que não leem – e ponto. Nem Turma da Mônica. Não leem porque não gostam, não têm tempo, dinheiro ou mesmo por não saberem como. Em compensação, há 95 milhões de pessoas que leem, em média, 4 livros por ano, até 6 no sul do país. Aparentemente são números modestos, ou até vergonhosos para alguns, frente aos países mais ricos (nem tanto hoje em dia). E é aí que o preconceito começa a disfarçar-se de lógica.

Pobre não gosta de ler?

A primeira e precipitada conclusão é que, se a pessoa é mais rica, ela lê mais, certo? Mais ou menos. Segundo o mesmo estudo, embora a classe A consuma mais livros per capita, ela é responsável por somente 5% (!) do total das vendas no país. É a classe C – em especial, suas mães – quem leva para a estante de casa nada menos que 47% dos livros vendidos. Se você está lendo esse texto, é provável que tenha o hábito de atualizar seu Twitter num smartphone enquanto aprecia um cappuccino ao som da Adele numa Fnac da vida, antes de dar uma olhadinha nos novos modelos de TV 3D. Talvez você tenha em casa a edição encadernada de “O Senhor dos Anéis”. Mas as chances são de que, nesse universo de megastores, boxes luxuosos e leitores digitais, seja justamente você a puxar a média nacional pra baixo.

Porque a classe C gosta sim de ler. Basta ir a uma Bienal do Livro para testemunhar filas infindáveis em praticamente todos os stands. No da Ciranda Cultural, cujos preços começam na casa dos R$ 5, ouvi do presidente da editora: “Não estamos mais aceitando cartões nos pagamentos porque não dá tempo de processar.” – enquanto devolvia troco para uma nota de 10, tentando agilizar uma fila que já invadia os stands vizinhos.

Por incrível que pareça, ainda tem gente que torce o nariz para livro “barato”. Eu bato palmas. Porque, ao contrário de todos os outros bens de consumo, o livro não é segmentado por critérios econômicos ou sociais. Dá para comprar Machado de Assis por R$ 1,00 em qualquer sebo, dá para baixar de graça (e legalmente) na Internet e dá pra comprar exatamente o mesmo livro por R$ 50,00 na mais esnobe livraria. Mas a partir do momento em que o livro é aberto, não existem mais páginas amareladas, telas brilhantes ou cheirinho de novo. O objeto torna-se invisível e seu dono torna-se um leitor.

Jovem não gosta de ler?

Muito difundido também é o mito de que “jovem não lê”. Chega a ser redundante refutar essa afirmação, frente a fenômenos como Stephanie Meyer, Suzanne Collins e Meg Cabot, tão frequentes que já deixaram de ser exceção e posicionaram os jovens de até 24 anos como o maior público leitor do país. E não é só de autor importado que os jovens gostam. Pergunte a Thalita Rebouças, que já passa de 1 milhão de exemplares vendidos. Ou então à jovem Paula Pimenta. Mineirinha que é, segue os passos de Thalita e vai conquistando de mansinho os adolescentes com seus calhamaços de 400 páginas que já venderam mais de 50 mil cópias. Sem falar em Eduardo Spohr, cujo “A Batalha do Apocalipse” surgiu como produto de nicho na Internet e hoje pode ser encontrado em caixas de supermercado e catálogos de vendedoras da Avon. Essas simpáticas senhoras, como a sua Tia Sueli, que complementam o orçamento revendendo perfumes e cosméticos, disputam com a Saraiva o posto de maiores vendedoras de livros do Brasil, com faturamento bruto anual na casa dos R$ 360 milhões. É, a Tia Sueli.

Quem gosta de ler, afinal!?

Como veem, “brasileiro não gosta de ler” é uma oração cheia de vírgulas, interpretações e sujeitos ocultos. A generalização burra de um universo composto por exceções, repleto de oportunidades para editoras, autores e leitores.

Tem brasileiro que gosta de ler, tem brasileiro que não gosta. Eu gosto. E você?


Ilustração: Mathiole
Maldição” significa “mal dizer”, “difamar”, algo que antigamente acreditava-se ser tão poderoso que ser amaldiçoado era muito pior que morrer. Afinal, calúnias e fofocas sobre nós atingem nossos filhos e descendentes, e não cessam nem mesmo com a morte.
Ao final de 2008, eu buscava inspiração para escrever meu novo livro, quando fui tomado por uma epifania, um pensamento que apareceu do nada em minha mente – como se alguém tivesse sussurrado três palavrinhas no meu ouvido. Tais palavras foram “a-última-princesa”. Fiquei com aquele sussurro orbitando meus pensamentos por várias semanas, sem saber o que significava, até consultar um oráculo, o Google, e descobrir que a última princesa que tivemos em nosso país havia sido Isabel. Aquela, dos escravos.

Lembrei-me das ruas, avenidas e escolas que levam o nome da Princesa, que batizou até uma cidade na Paraíba. De todas as vezes que peguei um ônibus identificado com a placa Terminal Princ. Isabel. E então percebi que não sabia onde ficava esse terminal – ou quem havia sido a princesa.

Imediatamente interessei-me pela sua história. E ler sobre sua vida, sua família, seu grande amor e, principalmente, seus inimigos, fiquei abismado ao perceber que ela também sofrera uma espécie de maldição. Um ano após assinar a Lei Áurea, a Princesa foi exilada junto à sua família, perdendo para sempre o trono para o qual foi preparada desde a infância para assumir. No exílio, viu a mãe morrer de tristeza. Pouco tempo depois, perdeu o pai, que mesmo tendo recebido homenagens de governantes de todo o mundo, teve o funeral ignorado em seu país de origem. A Princesa morreu muito tempo depois, sem nunca ter voltado para casa. E talvez o lado mais triste de sua história foi que ela acabou esquecida pelo próprio povo.

Afinal, o que a gente sabe sobre a Princesa Isabel? Sabemos o que ela fez, mas não imaginamos quem ela foi. Não fazemos ideia de sua rica história de vida, repleta de fatos curiosos e até engraçados, como a troca de noivos realizada com a irmã às vésperas de seu casamento. Ou que sua luta pela libertação dos escravos precede em décadas a assinatura da Lei Áurea.

Durante os 30 anos em que viveu na França, a Princesa conheceu outro brasileiro ilustre: Alberto Santos Dumont, um dos homens mais famosos da época. O simples encontro dos dois já é algo inacreditável por si só – pois em geral tem-se a percepção de que a Princesa viveu numa época medieval, enquanto Santos Dumont conviveu com nossos bisavós. Mas o fato é que eles se conheciam, sim – e costumavam se encontrar com outras figuras excêntricas, quase uma “Liga Extraordinária”, como o arquiteto Gustave Eiffel, o relojoeiro Louis Cartier, e – especula-se – o escritor Júlio Verne.

O primeiro encontro dos dois também é digno de uma cena de livro: o inventor literalmente caiu do céu, enquanto realizava os testes de seu balão nº 5 em Paris. Ele ficou preso numa árvore próxima à residência da Princesa, e ao saber do fato, a filha de D. Pedro II pediu que seus criados levassem um suntuoso almoço ao conterrâneo – com queijos, frutas e champagne – enquanto os bombeiros tentavam encontrar uma maneira de resgatá-lo.

E são essas histórias fantásticas que inspiraram meu novo livro, “A Última Princesa“, que considero um “conto de fadas histórico”, pois não se trata de um livro de História (com H maiúsculo). Tomei muitas liberdades no enredo, e os personagens sequer carregam os nomes de suas contrapartes reais. É um conto sobre dois sonhadores, uma princesa que se diz amaldiçoada e um aviador que não acredita em maldições determinado a levá-la de volta para casa. Pessoas que enfrentaram seus medos pelas coisas em que acreditavam, pagaram o preço e jamais olharam para trás.

Em “A Última Princesa”, não pretendo recontar a história do Brasil, mas sim, chamar a atenção das pessoas para essa personagem tão importante que não merecia ter sido esquecida. E, quem sabe assim, quebrar sua maldição.

O livro chega às livrarias no início de 2012, ainda sem data definida, e será minha primeira obra para o público jovem, pela Editora Record (valeu, Dudu!), com ilustrações de Mathiole. Avisarei a todos do lançamento por aqui, pelo Twitter e pelo Facebook. Aguardem!


Foto por Azaghal

Acho estranho quando pessoas do bem – com curso superior e de boa família – de repente vestem carapuças brancas, assustam seus pais e filhos, montam em alazões negros e saem às ruas com tochas à caça de vítimas que sequer sabem o motivo de sua perseguição. Num minuto, estão enxugando a louça, no outro, açoitam seus vizinhos, sob o pretexto de que estão combatendo pragas, tão terríveis que mereceriam capítulos à parte em qualquer livro sagrado.

O pobre gerúndio, por exemplo. Esses dias vi na Internet a foto da fachada de um restaurante, com um simples e eficiente aviso de que “estamos atendendo”. Fui direto para os comentários da foto para confirmar uma certeza: lá estava a inevitável acusação de “gerundismo”. Alheio às tochas erguidas por inquisitores internet afora, o gerente – Armando – estava atendendo seus clientes, e, se Deus quiser, está atendendo a uma hora dessas e também vai estar atendendo amanhã, SIM, em horário comercial e com o português im-pe-cá-vel.

Vítimas de semelhante perseguição são as padarias, pet shops e pequenas pizzarias de bairro que OUSAM usar Comic Sans em seus logotipos e cardápios. Designers e diretores de arte ficam de cabelo em pé ao ver tamanha aberração, tamanho atentado à estética perpetrado por esses criminosos que sequer têm grana para pagar uma fonte melhor e não entendem coisa alguma de ”designer! Nem sei como esse tipo de gente consegue fazer pãozinho quente, dar banho no meu cachorro e entregar a minha pizza.

E aquele outro tipo de gente, que não vê graça em piada sobre assuntos “leves” como estupro, homofobia e pedofilia? E são acusados pelos inquisitores de serem “politicamente corretos”, praga que, segundo afirmam, está tornando as coisas chatas e acabando com o mundo. É só olhar pela janela e ver a zona que esses malucos estão fazendo: a essa hora, tem alguém “politicamente correto” parando o carro para um pedestre, recolhendo o cocô do cachorro, não bebendo porque vai dirigir e, valha-me Deus, comprando alimentos orgânicos. Talvez devêssemos voltar agora mesmo para o mundo dos crioulos, das bichas, dos mongolóides, dos pediatras fumantes. Com cocô de cachorro petrificado na rua e sem cinto de segurança. Tudo bem que era mais fácil morrer, mas pelo que dizem os detratores do “politicamente correto”, era menos chato viver.

Assim, a verdadeira – e mais terrível – das pragas vai se espalhando, com métodos vis e amplamente difundidos. Disfarçada de um comentário jocoso ou exposta na reação exarcebada a um deslize cotidiano, a discriminação vai encontrando o seu caminho nos corações das pessoas de bem como eu e você.

Nunca foi tão fácil.

“E aí, o que você achou do Lanterna Verde?” foi a pergunta que mais ouvi essa semana. Os amigos, a esposa, os seguidores do twitter, até a imprensa, todos queriam saber qual era a minha opinião sobre o filme que esperei a vida toda para assistir. Ainda mais depois da crítica americana tê-lo esculhambado até os limites do setor espacial 2814.

Acredito que você não esteja aqui para saber detalhes técnicos do filme, número de estrelas ou nota de 0 a 10. Por isso, tentarei me prender ao essencial. Sem mais delongas: o filme começa muito bem, é irretocável durante todo seu primeiro ato. Depois, começa a apresentar falhas, que vão do sutil ao grotesco estapafúrdio. Algumas coisas saltaram quase a ponto de dilacerar as lentes 3D e perfurar meus olhos. Revendo o filme em minha mente, fica óbvio que ele foi mexido diversas vezes depois de pronto. É como a chegar em casa e ver seu armário revirado, e sentir a agonia de não saber o que está faltando.

Mas enquanto eu estava no cinema, reparei numa pessoa que tinha uma reação diferente do resto do público. Ela cerrava os punhos e dava socos no ar, suspirava ao identificar cada membro da Tropa. Para ela, os seis minutos em OA, com Kilowog, Tomar-Re e Sinestro foram como férias na casa da avó. Cada construto verde que saía do anel se tornava seu novo brinquedo favorito. A pista de Hot Wheels gigante a levou ao delírio. Essa pessoa não se importava com as erros na edição, não percebia os pixels avacalhados por toda a tela, não reparou nas crateras jurássicas no roteiro, vibrou com o juramento, bateu palmas e gritou WHUHUUU quando subiram os créditos finais.

Essa pessoa é a mesma que assistia o Lanterna Verde e os Superamigos enfrentando Sinestro e a Legião do Mal, em roteiros tão ou mais esburacados que o do filme de 2011. A mesma que achava os monstros do Jaspion assustadores, Transformers um desenho bem-feito e as roupas da Xuxa pudicas. E que hoje dança na sala com a filha no colo ao som de Balão Mágico.

Devo muito a essa criança. Ela me fez sobreviver aos momentos mais difíceis da minha vida e ser quem eu sou. Talvez você tenha uma dessas em si também, que está louca para ouvir a história do mocinho que ganha um anel mágico capaz de dar vida à sua imaginação, que vai para outro planeta e volta como super-herói. Se tiver, leve-a ao cinema. Senão, é melhor ficar em casa. Juro que não vou te culpar.

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