YabloG! - Blog do escritor Fábio Yabu

Em busca da Terra do Nunca

fevereiro 5th, 2005 | Por Fábio Yabu sob Resenhas - (Comentários desativados)

Oh, boy.

Acabei de chegar do cinema. Fui assistir a “Em busca da Terra do Nunca”, inspirado no livro “The man who was Peter Pan”, que por sua vez é inspirado na vida de James Mathew Barrie, criador da famosa obra.

O que eu achei? Putz, adorei. Achei muito bonito mesmo. O filme tem um roteiro gostoso (embora meio “amarrado” e previsível em alguns pontos), uma direção competente e uma história fascinante. Pena que se trata de uma adaptação, ou seja, muitos fatos foram colocados, tirados ou alterados drasticamente, então não dá pra saber exatamente o que é “real” ou não. Independente disso, o filme é uma delícia.

Minhas ressalvas: acho que Johnny Depp não está em sua melhor performance. Digo, ele está ok, mas não é nenhuma atuação genial como as que ele mesmo se acostumou a nos dar. O filme também usa alguns recursos bem facinhos e banais para fazer você chorar, meio que em detrimento da história. Mas passa.

Eu contra os filmes

janeiro 28th, 2005 | Por Fábio Yabu sob Resenhas - (Comentários desativados)

Tem gente que diz que eu sou chato com filmes, que só sei falar mal. Mas não é isso, em absoluto. Meu problema é com filmes que seguem obsessivamente os tais “três atos”, introdução, conflito e resolução, “gravadas em placas de bronze por Syd Field” (Manual de Roteiro, da Fic, lançado pela Conrad ano passado).

É sempre a mesma coisa, geométrica, milimetrica e entediantemente chata! Nos primeiros 20 minutos, temos o primeiro ato, onde somos apresentados ao personagem principal e seu problema. Junto com o problema temos a tal “sacadinha número 1″. Depois, temos o segundo ato, com talvez uma “sacadinha número 2″ e o personagem partindo para o seu desafio. Depois, temos a resolução, onde o personagem se lembra das “sacadinhas” número 1 e 2, e consegue matar o filme, para o deleite da platéia e desespero da minha parte.

O que eu quero dizer é: por que raios nos últimos momentos do filme o personagem principal tem que se lembrar daquilo que alguém falou pra ele nos primeiros 20 minutos, ou perceber que o vilão tem o mesmo cagüete do seu amigo gago de infância, convenientemente escondido lá no começo da história? Pra quê? Pra você falar “Ahhhh”? Eu não. Eu digo “Méeee”.

É chato. Massante. Não te desafia, não te leva para nenhum lugar novo. Pode analisar, a grande maioria dos filmes é assim. Nem todos são ruins, confesso, como “O Exterminador do Futuro 2″ e “Os 12 macacos”. Mas acontece que esse modelo já deu o que tinha que dar. Hoje em dia não rola assistir a “Piratas do Caribe”, “Demolidor”, “Minority Report”, “Eu, Robô” e tantos outros que só procuram seguir a regrinha sagrada e pronto. Temos um filme ruinzinho, mas que ainda surpreende um ou outro gato pingado.

Por isso prefiro filmes que não seguem essa regra, e por isso mesmo são mais soltos, espontâneos, naturais, honestos. Veja por exemplo o filme da minha vida, “Encontros e desencontros”. Qual é o “desafio dramático” do personagem principal? Aliás, quem é o personagem principal? Cadê as sacadinhas número 1 e 2? Não tem nada disso, e o filme é mágico. Ou então, “Amnésia”, aquela doideira alucinante e muito louca. “O Clube da Luta”, “O Agente da Estação”, “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembrança”, “Pulp Fiction”, “Cidade de Deus”, e tantas outras obras-primas que jogam no lixo a tal fórmulazinha mágica. Mesmo “Homem-Aranha 2″, é genial justamente porque é ousado, não é preso a tantas convenções, o Homem-Aranha só sai na porrada com o Dr. Octopus depois da metade do filme, o filme é lento, não é só porrada, e flui que é uma beleza. Tem é claro uma “sacadinha” ou outra, mas usadas adequadamente para contar a história, não pra arrancar um “Ahhhh” sonolento da platéia.

Aliás, sonolento tô eu. Boa noite, crianças.

Tau!

Escola

janeiro 15th, 2005 | Por Fábio Yabu sob Crônicas - (Comentários desativados)

Eu confesso. Nove anos depois de concluir o colegial, eu admito publicamente: eu sempre fui um péssimo aluno.

Mesmo que na primeira série tenha sido o aluno do ano. Mesmo que na segunda eu não tenha tirado uma única nota que não fosse “A” em todas as provas, de todos os bimestres. Mesmo que eu tenha ganhado inúmeros concursos de desenho e redação, esse monte de baboseira que ensina a competir ao invés de cooperar. Mesmo que eu tenha ganhado bolsas de estudo por meu desempenho em inglês. Mesmo que eu tenha passado em primeiro lugar num “vestibulinho”, mesmo que eu tenha dormido numa das cinco provas de vestibular que prestei e passado em todas. Minhas notas nunca eram diferentes de A a B ou 8 a 10. A primeira nota vermelha veio por pura farra no segundo colegial. Apenas para saber como era. Quando eu vi que não doía, mandei ver e meu boletim começou a gangrenar. Mas era só eu mexer um dedinho e pimba, literalmente tudo ficava azul e eu passava de ano direto, pronto para fazer tudo de novo no ano seguinte…

Eu sempre ia bem em tudo e sempre fui um péssimo aluno (na minha concepção, é claro, os professores me adoravam) porque a escola nunca foi um desafio para mim. Sempre levei a escola com a barriga, mesmo que ela só tenha aparecido aos 19 anos. Abria o caderno meia hora antes da prova e já bastava para tirar um 8, 9. Dez talvez, mas daí teria que ser duas ou três horas antes. Tinha dia que eu nem levava caderno pra aula. Pra quê, gastar papel? Eu já sabia as regras do jogo, a escola queria de mim um 10 e eu seria deixado em paz, para desenhar, ouvir música no walkman, ler gibis, conversar e jogar tarot no recreio. Eu dava pra ela o 10 que ela queria, eu eu tinha todas as mordomias que os “bons” alunos tinham. Eu era praticamente um deputado, um marajá, mamando nas tetas do governo e da diretora (que nojo!).

Por isso que eu acho que a escola não deu certo para mim. Acho que Escola não tem que ser massante, repressora, controladora, negociadora. Tem que desafiar, conquistar, mostrar caminhos ao invés de dogmas. Não tem que ensinar a ser “competitivo”, nem “preparar para o mundo de hoje”. Deus me livre colocar o meu filho numa escola que prepara ele pra um mundinho que nem esse. Eu quero que ele seja “cooperativo” e “mude a zona que está lá fora, urgente, antes que eu me mude para Birigui”.

Os melhores professores que eu já tive na vida eram aqueles que saíam de trás da mesa e sentavam junto com os alunos. No mesmo nível, de igual para igual, como todo ser humano deveria ser. Pena que tive poucos.

Eu tive um professor na faculdade que dava nota 10 para todo mundo da sala e presença em todas as aulas. O que ele pedia em troca? Que quem não estivesse a fim da aula se levantasse e saísse. Essa é uma das atitudes mais sensatas que já vi em um professor, num mestre. Porque é claro, quem ia para a faculdade para fumar, beber e zonear, levantava na hora. Só ficava quem realmente queria aprender, eu incluso, com mais quatro ou cinco pessoas… de 30.

Quer mais uma prova de que eu sempre fui um péssimo aluno? Minhas professoras sempre disseram que eu era bom em redação. Só não percebiam que eu dava uma maqueada no final, que eu sempre colocava uma gracinha ou algo besta só pra não perceberem que eu não sabia como terminar o texto. Eu as chantageava com uma gracinha. Trocava, na cara dura, um 10 por uma risadinha.

E continuo fazendo isso, até hoje.

Viu?

Bom, já perdi as contas de quantas maldades já fiz desde que virei supervilão. Já acabei com os Superamigos, as Meninas Superpoderosas e agora adiciono mais um objetivo à minha listinha de atrocidades: vou capturar o Pikachu.

Para isso, me alistei à Equipe Rocket, e, como meus colegas Jesse e James, vou denunciar os grandes males da “verdade” e do amor.

Para começar, “verdade” deveria sempre ser escrita entre aspas. Não existe “verdade”, muito menos absoluta. Quem disser que está dizendo uma “verdade” incontestável, certamente está mentindo, mesmo que muitas vezes não saiba disso.

Antigamente, a verdade era que a Terra era plana. Que, se você navegasse num navio em linha reta por muito tempo, cairia num abismo cedo ou tarde. E era incontestável, porque afinal, fazia sentido. E o mundo era um lugar mais seguro. Foi só descobrirem que a Terra era redonda que deu no que deu.

Newton achava que o tempo era uma linha reta, que corria em paralelo com o espaço. E comprovou por A+B, e funcionou. Virou uma verdade. Foi só chegar o Einstein e pronto, o espaço-tempo virou uma coisa só, curva. A prova? Mais cálculos. E mais verdades. Ele por sua vez achava que “Deus não joga dados com o Universo”. E não é que o Stephen Hawking comprovou que ele joga?

Aliás, sobre Deus dizem muitas outras verdades metafísicas. Cada povo tem a sua, basta escolher, pôr na sacola e levar. Alguém está errado? Acho que não. Até os ateus tem sua dose de verdades.

A verdade são apenas palavras sem valor que lhe são ditas. A única maneira de experimentar a verdade, ou pelo menos chegar razoavelmente perto dela, é descobrindo-a por si só, sem palavras. Do contrário, alguém pode (e vai) desmentí-la, cedo ou tarde.

Você não encontra Deus numa igreja, numa bíblia. Encontra indícios dele, pistas soltas, às vezes sem valor. Mas procure dentro de si. Experimente a verdade por si mesmo e você verá o quanto as palavras são inúteis e desajeitadas.

O zen, por exemplo. Ninguém pode explicar o que é o zen, o que é meditação. Já está dentro de você. Tudo o que for dito serão mentiras, porque o zen é o nada mais puro e mais pessoal que uma pessoa pode experimentar.

Escola? Valha-me Deus, ninguém ensina nada em escolas, principalmente aqueles professores demasiadamente presos em “verdades”, provas, chamada oral. Uma prova não prova nada, apenas que você estudou feito um louco no dia anterior e acertou um punhado de questões sobre a tabela periódica numa folha de papel. Agora me diga, qual é a divisão nuclear do carbono? O que fez José Bonifácio, mesmo? Que eu saiba era o nome do meu vizinho em Santos… verdade, ou não?

Nem o nascer do Sol escapa. Eu poderia dizer um monte de coisas sobre o nascer do Sol, que tanto gosto de olhar. Que as nuvens ficam roxas depois vermelhas, que as cores à minha volta ficam mais vibrantes, que o ar é geladinho mas vai esquentando devagar, que ao lado de quem você ama tudo fica mais colorido e o sol brilha ainda mais. Bonito? Talvez. Verdade? De jeito nenhum. Tenho certeza de que se você ver o Sol nascer, dependendo do dia, da hora, do humor, terá uma leitura totalmente diferente e, digamos, verdadeira.

Briga de namorado. “Ah, você sempre acha que está certo(a)!” e vice-versa. Um lado acha que o outro acha que é dono da verdade, quando os dois têm sua porção de culpa, de verdade, de mentiras. Engraçado que quando as pessoas percebem isso os relacionamentos ficam ou melhores ou piores. Deve ser a tal da verdade, que faz com que a pessoa pare de imaginar ou julgar o que a outra está pensando.

E o dinheiro? É uma das maiores mentiras já criadas pelo homem. Quer ver? Tire mil reais da poupança e deixe na gaveta. Daqui a 5 anos, quanto você vai ter lá dentro? Mil reais, certo? Errado! Alguém inventou uma “verdade” chamada juros, que “come” seu dinheiro, por mais que as notas tenham ficado guardadas bonitinhas dentro da gaveta. Intactas.

Juros, tempo (ou a falta dele), pressa, stress, mentiras, poesia, religião… tudo são pequenas “verdades” criadas pelo homem. Até o amor, que sempre foi avacalhado pelos poetas, românticos e pela Legião Urbana.

Não que o amor não exista. Aliás, eu acho que sou um dos poucos entusiastas a respeito dele. E se você também é, há de convir que o amor verdadeiro não precisa e nem exige palavras, poesias, provas. É como o amor de mãe. Minha mãe nunca me escreveu uma carta de amor, e confesso que seria meio estranho se ela o fizesse. E não há palavra que expresse o sentimento sagrado que nos une. Talvez “porescapricitosetildatitimentesca”, mas essa não vale porque eu acabei de inventar.

Mais um motivo para tomar cuidado com as palavras, tão traiçoeiras. Dizer e ouvir que se ama alguém é deveras perigoso. É muito mais seguro e sensato não se preocupar muito com elas e sim com a ação.

Então, quando o assunto for verdade ou amor, fique sempre com um pé atrás. No caso desse texto, com os dois. Não acredite em verdades, em extremos, em convenções, em estatísticas, tabelinhas, infográficos, nada disso. É melhor ficar quieto e descobrir essas coisas, tão importantes, por si só. Olhando, procurando, sentindo, respirando, vivendo.

Enquanto isso, vou atrás do Pikachu.

O Pequeno Príncipe

janeiro 11th, 2005 | Por Fábio Yabu sob Sem categoria - (1 comentário)

Sabe quando você sabe que um livro é bom? Quando depois de lê-lo você começa a associar com tudo que está à sua volta.

Um dos livros que têm esse poder fenomenal é o Pequeno Príncipe, que certamente você já leu, do contrário eu já teria apertado um botãozinho escondido na minha cadeira e te mandado pro meu calabouço, com direito a um som engraçado e risadas forçadas ao fundo.

É um livro mágico, assustadoramente simples e transformador. Alegre e triste, muito triste. Ele te abre os olhos e faz ver que as pessoas não podem reconhecer o desenho número 1, porque foram corrompidas e diminuídas pela sociedade. Porque deixaram de ser pessoas e se tornaram empregos, deixaram de ver o próximo e passaram a ver só roupas. Por isso faço questão de usar camisetas surradas e calças amassadas na maior parte do tempo. Escandalizei algumas pessoas muito queridas no último Ano Novo, ao aparecer com uma velha camisa branca da Hering. Ficaram tão preocupadas com o que eu vestia que quase esqueceram de comemorar. E é lógico, isso só serviu pra eu fazer ainda mais birra e continuar esculhambado. Oras.

Não que eu ande “maloqueiro” o tempo todo. Bom, na verdade eu ando. Mas e daí? Eu não sou o que visto. As roupas não fazem o homem, e se o porteiro do meu prédio quiser continuar achando que eu sou o “rapaz da informática”, fazer o quê?

As associações com o livro vão muito mais longe. Basta olhar à sua volta e ver que o mundo está cheio de bêbados, reis, homens de negócios. Cada um preso a um planetinha minúsculo. Às vezes eu me assusto quando vejo gente da minha idade, que cresceu e estudou comigo, mas que morreu, lá atrás e hoje é um corpo inerte numa baia de escritório. É difícil lidar com isso.

Mas não cabe a mim julgar ninguém. Cada um faz de sua vida o que acha que é certo. Eu vou sair por aí procurando o Pequeno Príncipe. Dizem que ele mora no fundo do mar. Talvez a Polvina o conheça, da próxima vez que eu encontrá-la vou perguntar.

Apenas um último comentário: pra mim, “O Clube da Luta” é o Pequeno Príncipe para adultos. Não acha? ^_~

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