Um cara bonzinho

Foto: Marcelo Forlani
Daí ela falou assim pra mim: “eu gosto de você porque você é bonzinho“.
Eu pensei: “Bonzinho?”
Eu gosto de ser bonzinho. Eu tento ser bonzinho a maior parte do tempo. Ser bonzinho me fez conhecer pessoas boazinhas também, inclusive ela, que acabou indo embora.
Como todo bom bonzinho, reciclo meu lixo, não como carne, ando de ônibus e trabalho como voluntário. É que eu quero salvar o mundo. Mas como você pode ver pela sua janela, tenho falhado miseravelmente. Já escrevi histórias em quadrinhos – Combo Rangers – sobre crianças que também queriam salvar o mundo, e por sete anos eles venceram muitos desafios. A vida é feita deles, e de clichês também, como dá pra ver nessa frase.
Acho que ser bonzinho não deixa ninguém rico. Escrever livros também não, mas sei lá, eu tenho tentado fazer os dois, e pelo menos tenho conseguido pagar as contas sem ter que lidar com chefes, as picuinhas do mundo corporativo e, principalmente, a promiscuidade indecorosa do mercado publicitário. Já publiquei seis livros, incluindo um que é uma poesia que fala de uma coisa que eu queria ter feito mais, viajar, e de outra que eu fiz demais, me apaixonar. Se tudo der certo, esse ano junto as duas coisas e passo um tempo em Paris. Estou até estudando francês.
Sou bonzinho mas não sou santo. Eu sou do tipo que inventava apelidinhos na escola. E eles pegavam. O Pelanca, da sexta-série que o diga, coitado. Dizem que ele tinha algum problema de pele. Acho que nem ele mais lembra do próprio nome.
Pensando bem, acho que não sou bonzinho, não. Às vezes eu sinto raiva das pessoas. De todas. Todas as pessoas em certo nível me irritam, especialmente quando vejo nelas coisas nas quais não quero me transformar. Ou pior, coisas nas quais já me transformei. Elas se tornam espelhos aonde vejo meus defeitos, pulsantes como espinhas cheias de pus seco, esperando serem esprimidas e expor toda a minha nojeira para o mundo. Olho pra elas e lembro que desde a adolescência já falhei como irmão e como amigo e que, agindo como um moleque, na vida adulta parti o coração dela, que não merecia nada daquilo. E isso me dói até hoje.
Não gosto muito de briga, prefiro o diálogo ao conflito, o silêncio à discussão, mas se se aproveitam da minha nobreza, viro a minha estatuazinha do Buda Maitreya pra parede e já chego dando Shoryuken.
Esse blog fala um pouco da minha vida, de coisas e pessoas que passaram e que de alguma forma me marcaram. Fala também de amenidades, coisas engraçadas, séries de TV, coisas que me irritam. Fala do meu trabalho de escritor, embora eu não me considere um, pois esse é um título que só a história pode dar. Enquanto a minha vez não chega, eu continuo disfarçando.
Tá vendo, eu não sou bonzinho como ela achava que eu fosse, mas pelo menos sou sincero!
Fábio Yabu










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sábado, 9th setembro 2006 at 2:54 am