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São Paulo é uma cidade doente

março 11th, 2013 | Posted by Fábio Yabu in Crônicas - (3 Comments)

7h59 da manhã. O ciclista atravessando a faixa de pedestres na Avenida Santo Amaro aparenta ser experiente: utiliza capacete e luvas e, no assento infantil da garupa, traz a filha de dois ou três anos vestindo um capacete rosa. Eu e minha Luna estamos na calçada a poucos metros, seguindo para uma outra escola da região.

Luna aponta para a mochila da Branca de Neve, nas costas do ciclista. “Olha, papai!”. O sinal abre. A saveiro avança, como se o pai e a filha tivessem sido banidos da existência. O ciclista inclina a bicicleta, vira-a quase 90 graus e se coloca entre a saveiro, que segue seu caminho buzinando em protesto, e um segundo carro que também avança, incólume. Um terceiro, que vem atrás, para. E a menina do capacete rosa e mochila da Branca de Neve, vive.

São Paulo é uma cidade doente. Uma cidade onde cenas como essa são corriqueiras. Onde as pessoas começam as conversas falando da “correria”. Onde se vive uma grande ilusão coletiva de auto-importância, onde o agora não basta, é tudo para ontem, todo mundo é importante e precisa resolver alguma coisa com urgência.

Estamos todos doentes. Deliramos, ao dar aos nossos problemas uma proporção maior que a vida humana. Ao acharmos que um carro é um sinal de status, mobilidade, proteção e poder – tal qual os cavaleiros medievais pensavam de seus cavalos.

Nossa prefeitura está doente. Na tentativa de educar a população sobre uma lei que é solenemente ignorada há anos, a gestão anterior levou mímicos para a mesma avenida Paulista onde duas ciclistas morreram ano passado e um acabou de perder o braço. Pensando bem, mímicos até que fariam sentido, já que nessa cidade todo mundo grita e ninguém se ouve. Mas São Paulo não faz sentido. E as pessoas continuam morrendo na Paulista.

O embate entre ciclistas e motoristas pelo espaço urbano já tem contornos de guerra. Só que ao dividir o mundo entre “nós” e “eles”, está sendo criada uma gigantesca bolha de ectoplasma esquizofrênico que traz para as nossas ruas o fundamentalismo cego cujo único propósito é servir de desculpa para o ódio. Eu já vi gente de bem, amigos meus, dizendo que “ciclista é folgado”. Amigos motoqueiros já quebraram retrovisores por aí. Sem falar, é claro, dos comentários em blogs e reportagens, verdadeiras fendas na realidade por onde o ódio pastoso, quase sólido, flui livremente. E assim seguimos, olho por olho, retrovisor por retrovisor, até que entre as estações Paraíso e Consolação reste somente uma enorme cratera fumegante.

Estamos todos doentes. Temos todos uma parcela de culpa na tragédia do domingo. Quem acha que um carro é sinal de status, quem não para na faixa de pedestres, quem não dá sinal e atravessa displicentemente, quem bebe uma cervejinha antes de dirigir, quem segue e divulga no Twitter as blitze da Lei Seca. Quem separa o mundo entre “nós” e “eles”. Nossa prefeitura, nossos governantes. Estamos cegos, surdos e loucos. O único inocente dessa história é o pobre ciclista, que só estava indo trabalhar – e nem de São Paulo era.

Em respeito a David Santos de Souza, que perdeu o braço na Avenida Paulista, os comentários estão fechados.

 

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