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Foto por Azaghal

Acho estranho quando pessoas do bem – com curso superior e de boa família – de repente vestem carapuças brancas, assustam seus pais e filhos, montam em alazões negros e saem às ruas com tochas à caça de vítimas que sequer sabem o motivo de sua perseguição. Num minuto, estão enxugando a louça, no outro, açoitam seus vizinhos, sob o pretexto de que estão combatendo pragas, tão terríveis que mereceriam capítulos à parte em qualquer livro sagrado.

O pobre gerúndio, por exemplo. Esses dias vi na Internet a foto da fachada de um restaurante, com um simples e eficiente aviso de que “estamos atendendo”. Fui direto para os comentários da foto para confirmar uma certeza: lá estava a inevitável acusação de “gerundismo”. Alheio às tochas erguidas por inquisitores internet afora, o gerente – Armando – estava atendendo seus clientes, e, se Deus quiser, está atendendo a uma hora dessas e também vai estar atendendo amanhã, SIM, em horário comercial e com o português im-pe-cá-vel.

Vítimas de semelhante perseguição são as padarias, pet shops e pequenas pizzarias de bairro que OUSAM usar Comic Sans em seus logotipos e cardápios. Designers e diretores de arte ficam de cabelo em pé ao ver tamanha aberração, tamanho atentado à estética perpetrado por esses criminosos que sequer têm grana para pagar uma fonte melhor e não entendem coisa alguma de ”designer! Nem sei como esse tipo de gente consegue fazer pãozinho quente, dar banho no meu cachorro e entregar a minha pizza.

E aquele outro tipo de gente, que não vê graça em piada sobre assuntos “leves” como estupro, homofobia e pedofilia? E são acusados pelos inquisitores de serem “politicamente corretos”, praga que, segundo afirmam, está tornando as coisas chatas e acabando com o mundo. É só olhar pela janela e ver a zona que esses malucos estão fazendo: a essa hora, tem alguém “politicamente correto” parando o carro para um pedestre, recolhendo o cocô do cachorro, não bebendo porque vai dirigir e, valha-me Deus, comprando alimentos orgânicos. Talvez devêssemos voltar agora mesmo para o mundo dos crioulos, das bichas, dos mongolóides, dos pediatras fumantes. Com cocô de cachorro petrificado na rua e sem cinto de segurança. Tudo bem que era mais fácil morrer, mas pelo que dizem os detratores do “politicamente correto”, era menos chato viver.

Assim, a verdadeira – e mais terrível – das pragas vai se espalhando, com métodos vis e amplamente difundidos. Disfarçada de um comentário jocoso ou exposta na reação exarcebada a um deslize cotidiano, a discriminação vai encontrando o seu caminho nos corações das pessoas de bem como eu e você.

Nunca foi tão fácil.

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