YabloG! - Tag Archive - Filmes

Kung-Fusão

julho 29th, 2005 | Posted by Fábio Yabu in Resenhas - (Comentários desativados)

Sabe aquele filme que você não dá nada, mas que depois de assistir você sente como se tivesse descoberto uma jóia rara? É como aconteceu comigo com filmes como Pequenos Espiões, O chamado, Escola do Rock, Um drink no Inferno… filmes que eu considero excelentes apesar das premissas serem aparentemente bobas ou exclusivamente comerciais.Kung-Fusão é mais um que entra honrosamente nessa categoria.

Gente, o filme é bobo. As piadas são bobas. As lutas são hilárias. Tem cenas tão inocentes que remetem a um humor quase primário.

Mas não se deixe enganar. Se você olhar por trás dos dentes voando, da velha com bobs na cabeça mestra em kung-fu, no alfaiate afeminado que também é mestre, vai ver uma história sensível, delicada, belíssima, com dezenas de referências a cultura oriental, artes marciais, ensinamentos budistas e mais um monte de coisas que eu simplesmente não consegui pegar da primeira vez que vi porque estava embriagado pela MARAVILHOSA direção de arte do filme, especialmente seus últimos 20 minutos.

Por trás do non-sense, das cenas e dos personagens totalmente imprevisíveis, é possível ver o crescimento de seu protagonista Sing mesmo que ele simplesmente suma no meio do filme! O jeito em que o roteiro é construído e os personagens são introduzidos beira o genial. É um tipo novo de comédia, que deve redefinir o gênero assim como O Chamado fez com o terror.

Uma aula, viu. De quando se deve rir de si mesmo, de quando se deve se levar a sério. Sinceramente, se o mesmo filme fosse feito sem as piadas, Kung-Fusão seria facilmente considerado filme “de arte”. Assista e supreenda-se!

(Ah: e se você puder, assista a Shaolin Soccer (Kung-Fu Futebol Clube) antes. Também é absurdamente divertido, e te prepara um pouco para o que vem a seguir)

Terra dos Mortos

julho 27th, 2005 | Posted by Fábio Yabu in Resenhas - (Comentários desativados)

George A. Romero é o que se pode chamar de uma lenda viva. Há trinta e sete anos ele por si só inaugurou um novo gênero cinematográfico, um novo tipo de filme: o de mortos vivos. Zumbis, famintos por cérebros, seus vizinhos, amigos e parentes, transformados por mordidas malditas que perpetuam o canibalismo, a carnificina, o show da morte.Ter introduzido esses conceitos no longínquo ano de 1968 já é um feito digno de um mestre. Agora, retomar o gênero e se mostrar em plena forma aos 65 anos é algo cuja nomenclatura remete a uma figura no mínimo, lendária. Ave, Romero!

Romero faz, Romero mostra. Terra dos Mortos tem tudo o que seus velhos filmes cansaram de ensinar a várias gerações de cineastas, mas feito com o estilo que só o mestre poderia fazer. Em seu novo filme, os zumbis praticamente dominaram o mundo. Os poucos sobreviventes vivem escondidos em fortalezas, onde o pior da raça humana se revela ainda mais podre do que os zumbis que queimam em suas cercas elétricas.

Vivendo em ostentação e luxúria, os ricos exploram os pobres, criam leis e oligarquias, erguem muros e grades para proteger a si e a seu dinheiro. Porém, quando o primeiro zumbi consegue entrar na cidade, não há mais distinção entre classes sociais. Todos viram carne fresca para a legião de mortos-vivos que vem cambaleando logo atrás.

Durante praticamente todo o filme Romero nos questiona e instiga, entre um braço arrancado e outro: de que lado nós estamos? E será que ele é tão diferente assim do outro?

Imperdível!

Em boa companhia

julho 20th, 2005 | Posted by Fábio Yabu in Resenhas - (Comentários desativados)

Quando você pega um filme, um livro ou algo que o valha, deve ajustar o seu nível de percepção da realidade para o que é proposto pela obra. Do contrário, só assistiríamos a documentários. Ajustada a sua percepção, torna-se possível assistir a qualquer tipo de obra, crível ou não, desde musicais a comédias românticas. Essa é uma das coisas mais legais do processo criativo, convencer a audiência de uma mentirinha e assim fazê-la rir ou chorar.O problema é quando uma obra oscila demais entre o real e a fantasia, não se define e se perde em seu propósito sem justificativa aparente. Um ótimo exemplo é “Em boa companhia”, uma comédia quase-romântica com Dennis Quaid, Topher Grace (o Eric de That 70′s Show) e a gracinha da Scarlett Johansson.

O filme se perde. Ele tenta explicar de forma simples (quase banal) o dia a dia das empresas que são compradas e vendidas pelos grandes conglomerados de mídia que estão dominando o mundo. Começa legal, tem cenas interessantes mas quando parece que o negócio vai melhorar… derrapa vergonhosamente, utilizando recursos primários como os protagonistas andando por NY conversando enquanto uma música romântica impede que a audiência ouça o que eles estão dizendo. Saída simples para roteiristas que não conseguem ou não querem escrever diálogos inteligentes.

Scarlett Johansson está meio perdida, na verdade sua personagem Alex tem uma participação muito pequena na trama, quase um enfeite chique (e com lábios maravilhosos). Todo o lance gira mais em torno de Topher Grace (ótimo por sinal) e Dennis Quaid, as discussões sobre jovem versus velho, on versus offline, família versus trabalho… discussões que poderia ter algum conteúdo inteligente, mas são fracas, insípidas e não trazem nada de novo para alguém minimamente esclarecido.

O inevitável final feliz é irritantemente previsível.

O filme tem lá seus méritos também. Nele podemos ver Topher Grace crescer como ator, a edição tem seus momentos interessantes e Scarlett Johansson na tela nunca é demais. Acho que é crueldade dizer que “Em boa companhia” é um filme “Sessão da Tarde”, mas eu o enquadraria facilmente naquela categoria de filmes para se ver num sábado à noite ao lado de quem você… hã, talvez nem goste tanto assim.

Outra história de náufragos: Alexander Holmes

abril 23rd, 2005 | Posted by Fábio Yabu in Resenhas - (Comentários desativados)

Em março de 1841, o navio americano William Brown partiu de Liverpool em direção à Philadelphia, nos EUA. Trinta e cinco dias após sua partida, o navio contendo 17 tripulantes e 65 passageiros, bateu num iceberg e, menos de uma hora e meia depois, já havia afundado completamente levando mais de 30 passageiros consigo.

Os sobreviventes se dividiram em duas embarcações: um barco à vela, e um bote salva-vidas, com 33 passageiros, sob o comando do capitão Alexander Holmes.

O barco do capitão Holmes havia sido projetado para no máximo 15 pessoas, e continha alimentos e água já escassos para esse número. Nenhum sinal de SOS havia sido enviado, e, devido ao peso de seus 34 passageiros, o barco enchia d’água rapidamente. Para piorar, o tempo também estava muito ruim, anunciando a chegada de uma tempestade.

Então, o capitão Holmes tomou uma difícil decisão: jogar ao mar aqueles que estavam feridos ou incapacitados de remar. Eventuais motins vieram a ser controlados sob a mira de um revólver, e imediatamente os escolhidos começaram a ser jogados para fora do barco.

Entre eles estavam duas mulheres (uma ferida e uma de idade) um casal, cujo filho pequeno foi salvo, e um senhor que havia ingerido uma grande quantidade de óleo na explosão. Todos foram “entregues nas mãos de Deus”, e deixados para trás com nada além de um colete salva-vidas.

O barco enfim pôde atravessar a tempestade, e seguir a longa viagem prevista pelo capitão Holmes, equivalente a mais de 1000km em mar aberto até a África.

Porém, no dia seguinte após o abandono dos passageiros, o barco foi avistado por um navio e logo em seguida resgatado.

O capitão Holmes foi julgado e condenado culpado pelas mortes dos 14 passageiros jogados ao mar, ainda que sua decisão tivesse salvado a vida de todos os outros. Mesmo com os apelos populares pelo perdão presidencial, sua pena (extremamente benevolente dadas as circunstâncias) foi de 6 meses de prisão além de uma multa, que veio a ser cancelada em seguida.

Essa é uma história verídica. Há um filme muito bom de 1957 passando no Cinemax, não sei como ficou o nome em português mas o original se chama “Abandon Ship!” (Abandonar o navio). Parece que houve uma refilmagem em 1975 com Martin Sheen, mas não descobri muitas informações sobre ela.

A família da noiva

abril 21st, 2005 | Posted by Fábio Yabu in Resenhas - (Comentários desativados)

A família da noiva
Guess Who?
EUA – 2005
Comédia – 106 min.

Direção: Kevin Rodney Sullivan
Roteiro: David Ronn, Jay Scherick, Peter Tolan

Elenco: Bernie Mac, Ashton Kutcher, RonReaco Lee, Gus Lynch, Phil Reeves, Zoe Saldana, Sherri Shepherd, Amanda Tosch

Falar sobre questões raciais é pisar em ovos. Qual é o termo certo? Negro? Preto? De cor? Moreno? E qual é a tal “questão do negro”, de que tanto falam? Como terminologias e eufemismos nunca agradam a todos, vamos aos fatos: nos EUA, onde 12% da população é formada por negros, há 800 mil deles em prisões contra 460 mil em universidades. Já no Rio de Janeiro, 66% da população negra vive encarcerada, enquanto no resto do país, 70% da população miserável é formada por negros, ainda que eles sejam 45% da população total.

Com tais dados à mão, o mínimo que se espera de uma comédia sobre o tema é que se trate o assunto com um pouco de sensibilidade ou, ao menos, inteligência.

A família da noiva (Guess who, 2004) é um desastre em ambos os sentidos.

O filme é uma releitura do clássico de 1967, Adivinhe quem vem para jantar, em que a branca Joanna (Katherine Houghton) apresenta seu namorado negro Jon (Sidney Poitier) à família, e levanta profundas questões raciais que renderam ao filme 9 indicações ao Oscar, incluindo melhor filme, diretor e roteiro.

A versão 2005 inverte a situação, colocando Simon (Ashton Kutcher) como o namorado branco de Theresa (Jöe Saldaña), negra e filha de Percy (Bernie Mac), um bem sucedido executivo de uma organização financeira. Possessivo, controlador e racista, Percy inicia uma verdadeira cruzada para mostrar à filha que seu novo companheiro caucasiano não é digno de seu amor.

A partir daí, seguem-se tediosas cenas “cômicas” de rivalidade entre os futuros sogro e genro, incluindo uma inexplicável seqüência de cinco piadas sobre negros contadas por Simon, o eventual rompimento dos dois pombinhos e seu previsível final feliz. Além de passar a centenas de quilômetros de questões que poderiam trazer o mínimo de reflexão para a audiência, o filme ainda insiste em assuntos bizarros como o dote sexual do rapaz branco, piadinhas sobre masturbação e homossexualidade.

Como se não bastasse, ainda somos obrigados a ver uma desastrosa tentativa de flerte com a inteligência, com direito a frase de efeito e uma compenetrada troca de olhares entre Simon e Percy: “Um homem tem que decidir seu caminho… não importa o que seu pai fez” (?).

Racismo, fome, desigualdade social e Ashton Kutcher no lugar de Sidney Poitier. Realmente, o mundo está se tornando um lugar perigoso…

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