Nos US and A e na Europa, você praticamente não vê gibis nas bancas, salvo coisas muito específicas como Witch e… Witch. Mas nas livrarias o papo é bem diferente, a Fnac por exemplo tem corredores enormes abarrotados de tudo quanto é tipo de mangá, quadrinhos europeus e americanos. Praticamente tudo lá é lançado em formato livro, de obras-primas como Sandman a coisas bizarras como “A saga do meio-irmão que na verdade era primo do sobrinho do Ciclope dos X-Men com a Lupina dos Novos Mutantes – Versão Ultimate 2099 Action Fuckin’ Edition Unlimited Crisis“. Nesses mesmos corredores também é possível encontrar action figures, camisetas, pôsteres, toda sorte de traquitana capaz de levar qualquer um à falência. Eu mesmo gastei suados euros em bonecos do Lanterna Verde que hoje integram minha coleção.

Seção de quadrinhos numa livraria em Paris
Aqui no Brasil o fenômeno se repete. Principalmente porque, depois da Internet, toda a mídia impressa está tendo que se reinventar, da revista Veja a Maurício de Sousa. Honestamente, tenho cada vez menos motivos para comprar revistas, as únicas que ainda levo pra casa de vez em quando são a Trip, a Rolling Stone, e a Nintendo World, e olha que essa é mais por carinho mesmo. As revistas semanais e os jornais então nem se fala, as demissões voluntárias ou não estão ocorrendo aos montes nas redações, enquanto a web está rapidamente se tornando a fonte número 1 de informação.
Gibis então, coitados… vendem cada vez menos, cada vez mais caro. O último gibi que comprei em banca foi… foi… juro, não lembro. Tirando o da Mônica que comprei esse mês, deve fazer mais de três, quatro anos. Se na época em que eu fazia gibis a Abril foi tachada de louca ao lançar revistas que custavam 10 reais, hoje sua sucessora Panini já bateu os 80 (!!) em edições especiais. Meu, 80 reais num gibi. Eu não compraria nem se ele fosse de ouro forrado com diamantes, desenhado por Frank Miller com o próprio sangue de Cristo.
Eu sempre fui meio contra isso. Sempre achei que gibi tinha que ser barato, que pudesse caber no orçamento de um guri que ganha 10 reais por semana do pai. Por isso as revistas dos Combo Rangers eram baratinhas (R$ 2,50 a R$ 4,50) e como vocês sabem, feitas com muito carinho (caceta, já vai fazer 5 anos que parei!). Não chegaram a dar (muito) prejuízo, mas a falta de lucros inviabilizava sua continuidade. O resto vocês já sabem.
Hoje, o cerco continua apertando nas bancas. E os gibis a ter cada vez menos espaço, porque são caros, vendem pouco e têm uma logística que não ajuda em nada: metade do preço de capa vai pro jornaleiro e pra distribuidora, o resto volta pra editora que precisa cobrir todos os custos astronômicos de edição, impressão, licenciamento, etc. E o gibi tem que vender em um mês antes de ser recolhido para dar lugar à nova edição, se é que ela virá.
Aí você se pergunta: “Mas porque diabos tem gente lançando gibi nesta vida maledeta?”. Eu não sei, viu. Não faço a menor idéia, me parece realmente coisa de maluco. Tanto que editoras como a Conrad, Pixel e Devir lançam a maior parte de seus produtos direto para as livrarias, um ambiente muito mais saudável e inteligente do que as bancas. Um livro pode ficar anos exposto numa livraria ao invés de apenas um mês das bancas, ou seja: as chances de vender são muito maiores, ainda que o retorno se dê num médio/longo prazo. E ainda tem a vantagem de que, se um álbum de quadrinhos vende bem, a livraria compra mais. Já republicação de gibis em banca é algo mais raro que enterro de anão.
A elitização do mercado tem sido inevitável, já que os álbuns legais custam entre 20 e 60 reais em média. Não existe mais o sonho de gibis para todos. Gibi não é mais coisa de criança, é coisa de rico, lembrando que rico no Brasil é quem tem televisão, computador e internet ou uma assinatura de jornal em casa.
Em compensação, a elitização tem tornado viáveis coisas que antes eram impossíveis de se imaginar, como a edição encadernada de 300, a coleção Sandman e o maravilhoso, mega boga, chuta bundas… Calvin & Haroldo, que terá todas as tiras publicadas pela Conrad.
Gente, Calvin & Haroldo é sem sombra de dúvidas uma das tirinhas mais geniais de todos os tempos. Os diálogos são simples, apaixonantes e carregados de filosofia, aliás, de vez em quando se vê tirinhas da dupla em livros e apostilas da disciplina. Deveria ser leitura paradidática, se é que já não é. A primeira edição, “O mundo é mágico“, tem 165 páginas de puro encantamento, por justos R$ 44,00. A edição é muito bem feita, como já era de se esperar da Conrad, mas faltou uns “extras”. Tudo bem que a dupla dispensa apresentações, mas seria legal uma introduçãozinha barra prefácio do autor ou alguém conhecido. Outra coisa que eu me incomodou um pouco foi o tamanho (largura) do álbum. É meio incômodo para ler deitado ou mesmo sentado num sofá, já que ele ocupa seu colo todo e eu particularmente morro de medo de criar orelhas ou amassar a capa. Eu faria um álbum um pouco menor e com capa dura para evitar esses probleminhas. Tirando isso, é puro deleite.

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Fábio Yabu é escritor, criador de "Combo Rangers", 